Como de costume, a aula da quinta-feira acabou mais cedo. Eu e meu amigo sempre vamos do campus – isolado em uma rodovia – até o centro caminhando, conversando. Quanto menos conseguirmos utilizar do transporte público da cidade, melhor.

Nós dois somos calouros, e fizemos amizade muito rápido. Eu não sei exatamente qual foi essa identificação, mas funciona. 

– Conseguimos. Mais uma semana acabando. 

– E semestre que vem, já não somos mais calouros.

Era verdade. Não seríamos mais calouros, e isso causava uma estranheza. Ser calouro tem suas vantagens. É quase como estar realmente vivo pela primeira vez em muito tempo.

A faculdade é um sonho pra mim e pra tantos outros. Estar aqui, causa uma leveza no corpo. É como uma pena caindo de uma altura grande. Quando ela aterrissa, simboliza o fim do ciclo, o momento que colamos o grau e nos tornamos profissionais. 

– São João del Rei é uma cidade e tanto. 

Meu amigo comenta isso no momento que entramos na Avenida Leite de Castro. Ele sempre se deslumbra com os fascínios da cidade. Histórica no Centro, desenvolvida completamente diferente nos demais bairros.

– Pena que é tão tradicional. 

O comentário que eu fiz foi amargo. Eu gosto de São João, ou melhor, do Campo das Vertentes. É uma cidade realmente muito boa, bonita. Mas seu tradicionalismo falha muitas vezes. E é esse o meu grande problema. 

– Você não precisa generalizar as repúblicas ao restante da cidade. – Meu amigo comenta, rindo. – Não é porque moramos por repúblicas tradicionais que toda a cidade seja assim.

E ele tem razão. Eu sei disso. São João não foi uma cidade que parou no tempo. Não é tão desenvolvida como deveria, mas tem suas belezas.

A essa altura, já estamos passando perto de um açougue. Já me disseram que é um dos melhores da cidade, mas nunca tive curiosidade de parar pra entrar. Mal estou tendo dinheiro pra me manter, quem dirá comer carne.

– Você tem razão. – Admito, quase contrariado. – Peço desculpas por não aceitar ser feito de cabide.

Meu amigo me olhou com uma expressão dura. O sarcasmo em minha voz não o agradava. E novamente, ele tinha razão. Eu não sei porque estava descontando meu ódio nele. Ele sofreu tanto quanto eu. 

– Desculpe. Ainda está fresco na minha memória. 

Minha república se juntou a outras duas repúblicas pra organizar uma festa. O encontro de três gigantes, com open bar e curtição garantida.

Nós calouros fomos avisados que trabalharíamos no dia. Até aí, tudo normal. Geralmente os calouros ficam no bar, na porta de banheiros. É mais uma tradição. Funções básicas, até simples, considerando tudo que temos que fazer.

No dia da festa, quando eu e mais seis calouros chegamos, encontramos tudo preenchido. O bar estava com dois veteranos, o banheiro tinha mais dois, e tinha uma equipe de segurança contratada. 

Olhei pros outros calouros, e nunca vou esquecer a confusão no olhar deles. O que raios seria nossa função? 

Nós fomos o cabide naquele dia. Não, eu não estou utilizando uma metáfora ou um termo diferente pra alguma situação. Nós fomos literalmente cabides. Sabe aqueles que você deixa atrás da porta para pendurar o casaco quando chega da rua?

Era a gente. Sete calouros, na entrada, em pé, sem poder se movimentar e servindo de cabide para mais de quatrocentas pessoas. Jogavam os casacos, bolsas e o que mais não queriam segurar na gente como se fosse normal. Como se realmente fossemos um cabide. 

– Está lembrando do dia? – Meu amigo pergunta. 

À medida que passamos por uma fábrica antiga, eu recobrei minha consciência. Lembrar daquele dia me deixa com raiva, com ânsia de mudança. 

– Queria poder fazer alguma coisa. – Eu falo, desgostoso. 

– Acho que você já fez muito em enfrentar sua república. – Ele retrucou, entre um suspiro profundo. – Te fizeram tomar duas garrafas de vodca de uma vez. Você podia ter entrado em coma alcoólico, cara. É melhor aceitar do que se rebelar e receber punições cada vez piores. 

As garrafas de vodca. Me lembro exatamente do gosto amargo que elas tinham. Era dessas mais baratas, sem nenhuma qualidade. Passei a noite toda abraçado no vaso, torcendo pra não precisar procurar a UPA.

– Se tivesse parado na vodca. – Eu comento, com o ressentimento preso em minha voz. 

Agora já não estamos mais na Leite de Castro. Entramos em outra avenida, dessa vez, uma bem menor, a Avenida Paulo Freitas. Eu acho ela bonitinha, pra ser sincero. Nada supera as ruas e avenidas do Centro Histórico, mas essa é uma das minhas preferidas. 

– A placa foi o menor dos seus problemas, parceiro. – Meu amigo comentou. 

– Eu tenho um metro e sessenta e três, cara. – Eu disse, estressado. – Aquela placa batia no meu joelho. 

Mas não era isso que realmente me incomodava em ter que usar aquela placa. Tudo bem que eu mal conseguia ir ao banheiro, porque não podia tirar em momento algum. 

Mas o escrito em vermelho vivo foi o que me tirou do sério: Calouro estressadinho. Passe longe! Todos no Campus riram de mim. Faziam piadas porque eu me recusei a servir de cabide é uma festa. 

Argumentam que é a tradição. Que se dane a tradição. No mundo, tanto se discute sobre isso, e aqui, em uma cidade que evoluiu tanto, nada é feito. 

Eu sei que eu assinei um termo antes de entrar, mas não estava escrito que eu precisaria passar por humilhações públicas, situações que poderiam me levar a um coma alcoólico e tantas outras.

– Aquele trambolho de placa foi realmente tenso. – Ele admite. – Mas a vodka foi o mais perigoso. 

Finalmente tínhamos chegado no Centro Histórico. Nos separamos, seguindo caminhos diferentes. Cheguei em casa, na minha república.

Tudo que eu acabei de reclamar perdeu força, perdeu sentido. A raiva ainda estava aqui dentro, mas como meu amigo disse, de nada adiantaria reclamar.

Quanta maravilha.

Um calouro que foi recebido calorosamente na cidade.