Uma análise de como opinião se tornou fato 

Por Vincent Otoni Revisão: Lídia Oliveira

De política à cultura, de esporte à religião, a desinformação acabou com o “bom” do brasileiro. De alguns anos para cá, tudo que envolve comunicação como um campo de estudo passou a se tornar conhecido de forma indireta. A maioria das pessoas pode acreditar que nunca ouviu falar sobre isso, mas, na realidade, grande parte dos discursos de “melhoria de comunicação”, “como se comunicar como um líder”, ou “insira aqui algo sobre confiança e atitude” fazem parte desse movimento. Ainda que passe despercebido, tudo se trata de uma busca por uma nova forma de se relacionar, de se fazer entender ou de entender o outro. Embora esse tipo de discurso, muitas vezes disseminado por coaches sem preparo profissional adequado, possa ser prejudicial, a crítica que trago hoje não se apoia somente nisso, mas sim em uma pergunta que tem marcado presença social atualmente: qual é o limite para pertencer?

Muito se tem falado sobre as famosas bolhas de opinião que, em suma, são os grupos ou locais em que se compartilha o mesmo modo de pensar. No cenário atual, polarizado como ainda estamos como sociedade, apenas essa definição pode ser polêmica por si só. Para embasar o significado, explico também que o termo foi cunhado por Eli Pariser, ativista e filósofo estadunidense, que pensou inicialmente em “Filter Bubbles” ou bolhas de filtro, em livre tradução. O conceito trata-se do isolamento social, e principalmente intelectual, que a grande exposição a um único tipo de conteúdo traz. Mesmo em 2011, com a ascensão das redes sociais ainda no início, Pariser pontua algo que, em 2026, faz cada vez mais sentido: o algoritmo se aprimora e mantém os usuários alimentados com a informação que lhes agrada. 

A capacidade de conexão ilimitada, ou a promessa dela, que já foi o objetivo principal da hiperconectividade das redes, e todo o mundo das redes sociais e da tecnologia, que veio para integrar, tornam-se ferramentas para uma segregação lenta, minuciosa e discreta. Os grupos, que se formavam aos poucos com o “boom” tecnológico, no início dos anos 2000, consolidaram-se mais tarde em comunidades que a princípio existiam para compartilhar opiniões, olhares e experiências, iguais ou distintas. A identificação coexistia com a exposição ao diferente. O que muda de lá para cá é a consolidação de uma resposta comportamental à época atual; com a exposição crescente da vida privada e de uma performance social que vale mais do que o individual, todo teste se torna perigoso, afinal ninguém quer errar na frente de uma plateia. Se a vida é sempre um espetáculo, nada pode ser improvisado.

O acesso precoce a uma vida pública nas redes sociais, que se observa na geração Z (nascidos entre e 1997 e 2010) e na mais nova, geração Aplha (de 2010 a 2025), acarreta um contexto de exposição expressivo e antecipado. Se a maioria das experiências é pública, e pode receber críticas ou elogios, o efeito colateral é a necessidade de passar uma imagem ideal aos olhos da maioria. Dessa forma, se o adolescente já convive com um grupo, a tendência é que ele se comporte de forma que agrade essa comunidade, seja ela física ou virtual, matando a curiosidade e as oportunidades de conviver com novas ideias, o que explica o aumento de jovens que ingressam cedo na vida religiosa ou em um meio político que siga o tradicionalismo. A necessidade de aprovação de uma comunidade que preza pelos “bons costumes” se mantém estimulada e o ciclo tem continuidade. A organização das instituições políticas e religiosas mais tradicionais se adapta para falar a língua desses jovens, abrindo espaço para um nível de compreensão, que é limitado, mas  suficiente para gerar o sentimento de pertencimento e, em troca, está firmado o acordo social de excluir e de repudiar quem não faz parte dessa dinâmica.

Ainda assim, o problema não se reduz à falta de contato com outras ideias, ele escala para o ódio disseminado contra elas. O desdém e a desconfiança imediatos são as melhores formas de prevenir que alguém, especialmente um jovem, mude de opinião. Retornando ao conceito de bolha de Pariser, entende-se que aquela esfera é um ecossistema de crenças. Se pensar fora dele é ferir a moral que rege todo um grupo, quem se atreve não é visto como intelectual ou pensador, e sim como um desertor. Assim, tudo que vem de fora, cada notícia, estudo, teste ou mensagem, passa a ser não um ponto de vista diferente e válido, mas um ataque ao que aquele indivíduo já passou a chamar de ética. Como em uma luta, quando atacado, a primeira reação é atacar de volta outras bolhas. Acostumadas com o ambiente de hostilidade e com a falta de compreensão dos seus próprios ideais, mesmo que sejam progressistas, investem de volta e, assim, mais um embate raso se estabelece. 

O ato de questionar tem se tornado cada vez mais sinônimo de desrespeito, abandonando o conceito que serve para estampar as bandeiras de ideias: a liberdade de expressão. Na íntegra, o conceito se traduz como o direito de expressar livremente ideias e pensamentos. No entanto, seu uso já foi tão banalizado, que a maioria da população não se recorda de que a condicional para que essa liberdade realmente exista é o respeito. 

Por mais clichê quanto possa soar, a liberdade realmente encontra um limite quando chega ao mesmo direito do outro. A autopreservação dos grupos extremistas no ambiente digital relativiza a bel prazer o que é e quando ela é válida. Com esse nível de manipulação, qualquer ideia é justificável se explicada de uma forma convincente o suficiente, e, sobretudo, se for uma forma de defender um ideal identitário.

Como resultado de todo este cenário, o que se vê atualmente é uma geração que permanece em um nível de conhecimento raso porque se aprofundar em qualquer tópico pode trazer questões “polêmicas” demais. Os mais velhos que prezam pela manutenção do seu modo de pensar seguem repetindo as mesmas ideias e recusando qualquer introdução de um novo ideal, a não ser que este os beneficie diretamente, mostrando, também, uma índole negociável. No fim, isso representa uma população desunida e sem forças para sair dos núcleos isolados onde um dia buscaram acolhimento, porque, ainda que não concordem com tudo, o conceito de pertencer a um grupo tornou-se mais importante do que ter uma opinião, ou um formato único de pensamento. 

A promessa do conforto e da comunidade da tradição é rasa, assim como seus argumentos para os que fazem parte dela. Na realidade, não é vantajoso mostrar que a manutenção dessa esfera depende de muitas injustiças e atitudes que vão contra o caráter que eles juram que defendem.

O tradicionalismo brasileiro tem sido uma tentativa desesperada de grupos que vêm desde as oligarquias e se mantêm à extrema direita na política, tais quais os ricos se mantinham à direita do rei, na Revolução Francesa, apoiando a tradição que já os beneficiava. A diferença é que agora a classe trabalhadora tem se juntado para defender um movimento que não a beneficia, mas usa a fé e a moral como engrenagem para funcionar. A pergunta que fica é: o quanto de si o brasileiro está disposto a negociar para fingir pertencer?