QUEM DECIDE NÃO SE DECIDE
Por Vitor Romero
Sento na cadeira do meu gabinete, lá pelas dez da manhã. Não era exatamente o horário certo de trabalho, mas pouco me importa, eu sou meu próprio chefe.
Olho as mensagens no meu celular, ignorando totalmente os pedidos de reuniões. Já tenho duas pro dia seguinte, e isso é suficiente pra mim em uma única semana. Respondo minha esposa, confirmando o almoço no shopping e as compras. Depois, olho o cronograma que meu assessor fez.
Respiro fundo quando vejo que o incompetente marcou três reuniões para a tarde.
– Ricardo. – Eu grito, estressado. – Vem cá, agora.
Ele não demora pra chegar e ficar de pé diante de mim.
– Você tem o que na cabeça? – Perguntei, jogando o papel na mesa. – Eu tenho que sair com minha mulher e depois ir numa apresentação de escola da minha filha.
Pego o papel e o entrego pra ele.
– Eu não vou fazer nenhuma reunião hoje.
O assessor ameaça responder, e já até prevejo o que ele quer dizer.
“Mas senhor, são reuniões importantes. Amanhã será votado o fim da escala 6×1 e você precisa terminar de articular se quiser que a proposta não avance”.
Mas eu ergo minha mão e ele para de falar. A proposta não vai ser aprovada ou recusada se eu fizer ou não algo. Poderia até ajudar, mas eu prefiro não fazer.
Por que eu perderia a primeira apresentação de escola da minha filha por trabalho? É inumano esse tipo de coisa. Tirar de um pai o direito de ver sua criança dançando, errando a coreografia ou a letra da música. Mal esquento a cadeira e já levanto. São onze horas quando estaciono no estacionamento do shopping e encontro minha esposa na praça de alimentação.
– Como foi o trabalho hoje? – Ela perguntou, segurando o riso.
– O mesmo de sempre. – Eu respondo, chamando o garçom. – Duas parmegianas de frango, com batata frita. Pra beber podem ser duas Cocas Zeros com gelo e limão.
Não me dou ao trabalho de olhar o preço da comida. Não sou eu que vou pagar mesmo. Vai ser mais um dos meus sei lá quantos auxílios.
– A proposta vai ser aprovada? – Minha esposa pergunta, curiosa.
– Espero que não. – Respondo. – Você sabe muito bem quem injeta dinheiro na gente.
A comida chega e a gente come sem pressa. A apresentação da pequena Joana é às quatro da tarde, então estamos com tempo. Depois disso, minha esposa quer ir às compras.
Paramos na Zara e ela pareceu ter experimentado metade da loja. Pelo menos comprou metade dela. A trabalhadora nunca ficou tão feliz em sua vida.
O semblante ruim que ela tinha quando chegamos se foi embora quando entreguei o cartão. Não sei se era cansaço ou se era só uma sem educação mesmo.
Optei por não dar gorjeta. Não pago nem os 10% de um garçom, quem dirá dar dinheiro pra uma pessoa que já recebe pra fazer isso. É o trabalho dela, ela tem um salário que cai na conta todo início de mês pra me atender. Colocamos tudo no porta-malas e vamos em direção a Águas Claras. Passo no apartamento da minha mãe, que eu mesmo comprei de presente. Logo que entrei na política consegui aposentar minha mãe, comprar o apartamento dela, do jeito que ela quis, onde ela quis.
Existe muito dinheiro naquela Câmara.
Recebo uma mensagem do meu celular, dessa vez, do presidente do partido. Dou um beijo em minha mãe e olho o telefone, enquanto dirijo em direção à escola da minha filha.
“Comece uma campanha a favor da escala 4×3. Vamos tentar mudar a narrativa a nosso favor”. Disco o número do meu assessor, que a essas horas, ainda está lá na câmara articulando os votos que eu deveria articular.
– Sim, senhor deputado? – Ele diz ao atender.
– Comece uma campanha a favor do fim da escala 6×1. – Eu falo, virando a esquina. – Queremos a 4×3. – Como? – Ele me pergunta.
Que voz irritante. Já ficou claro o que eu preciso. Será que vou ter que começar a desenhar?
– Se for pra quebrar o Brasil, que quebre logo nas mãos desse opala velho. – Eu respondo. – Faça algo na IA sobre isso e não me ligue por nada hoje.
Desligo o telefone. Agora vou aproveitar a apresentação da minha filha.
– O dia tá bonito, né? – Pergunto pra minha mãe, vendo o céu azul pelo vidro do carro.
