Por Ana Laura Garcia e Larissa Sant’Anna Macedo 

Captura de tela das mensagens racistas enviadas.
Reprodução: Rádio Itatiaia

O pior pesadelo de uma mãe não tem cara de monstro e nem anda em becos escuros. Ele pega o mesmo passeio que você, senta na poltrona ao lado e sorri, disfarçado de um idoso simpático de férias. Quando Dominique  Queiroga ouviu o sussurro daquele outro passageiro no vagão da Maria Fumaça, o ar sumiu dos pulmões. O que já seria um soco no estômago — ver o racismo mais cruel escancarado na tela de um celular — virou um pânico daqueles que gelam o sangue. Aquele homem não queria apenas destilar ódio, ele estava cobiçando o filho dela.

Até aquele segundo, o dia era perfeito: vento no rosto, o barulho gostoso do trem nos trilhos e a alegria pura de um menino de sete anos descobrindo o mundo entre São João del-Rei e Tiradentes. Mas toda aquela leveza foi rasgada em um segundo, bem ali, na tela de um celular. A poucos centímetros do garoto, o homem de 63 anos digitava friamente que o menino era “lindo, mas negro” e perguntava a alguém: “Posso levá-lo de escravo?”.

O turista saiu do trem direto para o camburão da polícia, mas quem consegue acalmar o coração de uma mãe depois disso? O alívio da prisão em flagrante não desfez o nó na garganta de Dominique. O medo de verdade travou o seu peito quando viram o resto das mensagens. Não era ignorância, não era uma “piada” infeliz de um velho preconceituoso. Era uma caçada real, com dia e hora marcados para acontecer.

A mãe, ainda em choque com a situação, ficou grata por não ter tido seu filho arrancado de si. O abraçou com amor.

Uma reflexão que fica após isso é: onde estão os avanços sociais que as pessoas tanto afirmam existirem? Onde eles estavam quando uma criança de apenas sete anos foi vítima do olhar cruel e predador de um homem adulto?

Normalizar o racismo não deve, jamais, ser uma opção. É uma completa vergonha e retrocesso para a sociedade, comportamentos como o do turista argentino seguem acontecendo, seja no Brasil ou fora dele. É por isso que o pensamento crítico deve ser instigado. Talvez o “x” da questão não seja entender o porquê dessa situação ter ocorrido, mas sim, onde está o nosso erro como sociedade que contribui para a manutenção de situações como a acontecida em Tiradentes.