Como o turismo de SJDR e Tiradentes é avaliado?

De acordo com avaliação do Ministério do Turismo, as cidades deixam a desejar. Investigamos como o turismo é percebido nas cidades.
Turistas admiram o patrimônio | Foto: Sofia Pacheco

Os números de satisfação apresentados pela Pesquisa de Demanda Turística são animadores: 87% dos entrevistados em São João del-Rei e 83% dos entrevistados em Tiradentes afirmaram que a visita às cidades atendeu plenamente às suas expectativas. Esses resultados são importantes pois turistas satisfeitos têm muito mais chances de voltar a visitar a cidade e, consequentemente, movimentar a economia. 92% dos visitantes de São João e 75% dos que visitaram Tiradentes pretendem voltar em até 2 anos.

Mas, além da avaliação dos visitantes, as análises do Ministério do Turismo também são bastante importantes. E nelas, tanto São João del-Rei quanto Tiradentes derrapam. 

Entre 2008 e 2015, a principal ferramenta de avaliação dos destinos turísticos do Brasil era o Índice Nacional de Competitividade do Turismo, feito em parceria entre Ministério do Turismo, Fundação Getúlio Vargas e SEBRAE.

Os avaliadores analisaram 65 cidades do país e listaram os pontos positivos e negativos de cada uma. Neste estudo, Tiradentes fazia parte das cidades mineiras analisadas, junto a Ouro Preto, Diamantina, entre outras. Porém, São João del-Rei não integrava a lista, o que dá a entender um maior protagonismo turístico da cidade tiradentina na região. Mas, a avaliação foi apenas regular: 52 pontos em 100, com fraquezas principalmente em monitoramento, capacidade empresarial e marketing e promoção do município.

Segundo nota do Ministério do Turismo à reportagem, os municípios analisados recebiam retorno por parte dos responsáveis pelo estudo para melhorias do turismo local.

Porém, esse estudo foi descontinuado e, desde então, o MTur utiliza outros dois métodos: a criação do “Mapa do Turismo Brasileiro” – que classifica os municípios que possuem vocação turística dos que não tem – e a categorização de municípios, em grupos de A a E, baseado em 4 variáveis: o número de empregos na área, o número de empresas na área, estimativa de turistas brasileiros e a estimativa de estrangeiros – sendo A os que apresentam melhores números e E os piores números.

Nessa análise, tanto São João del-Rei quanto Tiradentes estão qualificados como B, o que poderia pressupor igualdade de condições do turismo nas duas cidades.

Porém, o estudo não pode ser considerado fiel à realidade por dois motivos: primeiro porque é baseado em números da economia desses municípios e não na avaliação da qualidade dos serviços – ter muitos hotéis não significa necessariamente que a cidade ofereça uma experiência excelente aos turistas, por exemplo – e, segundo, porque a economia do turismo nem sempre é formal – visto casos de aluguel de casas em serviços como o Airbnb, por exemplo, e os dados não analisados de  trabalhadores freelancers.

O que dizem os secretários?

Em entrevista, o Secretário de Turismo de Tiradentes, Moises Oliveira Alves, explicou que a prefeitura está trabalhando para melhorar esse resultado nos próximos quatro anos com o bom funcionamento da cidade, além de investimentos na divulgação do município como destino turístico por meio do circuito Trilha dos Inconfidentes.

Sobre a economia informal, principalmente em relação a hospedagem, ele pondera. “É desvantajoso aos empresários e à prefeitura, pois há uma dificuldade em arrecadar (impostos). Mas ao mesmo tempo é bom para os turistas, já que são oferecidas maiores possibilidades de hospedagem. Vejo com bons olhos.”

Já Marcus Fróis, secretário de turismo de São João del-Rei, afirmou que o trabalho atual é de gestão, alinhando propostas para que, em 2018, o setor esteja bem estruturado. Ele ressaltou ainda que o população local precisa acreditar no potencial da cidade. “São João del-Rei tem um potencial que o próprio são-joanense não enxerga, porque os gestores não conseguem mostrar a ele. E se não conseguimos mostrar pra quem está dentro, que dirá quem está fora. É uma situação que acontece há muitos anos, então é difícil mudar algumas coisas. Articular uma nova estrutura, que é o que estamos fazendo, é mais difícil ainda”, considera.

Avaliações parecidas, situações econômicas diferentes

Ainda considerando os números da economia formal, é possível destacar as características econômicas de cada cidade. Segundo a Pesquisa de Demanda Turística, o gasto médio por Turista em Tiradentes é de R$987,58. Esse valor é mais de quatro vezes maior do que o gasto pelos visitantes em São João del-Rei, que é de R$224,00.

Isso pode ser explicado pelo comportamento do turista, como aponta a mesma pesquisa. Em Tiradentes, os turistas são geralmente vêm de longe (principalmente das capitais – Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo) e passam, em média, 2 dias na cidade. Já em São João del-Rei, a maior parte dos visitantes vêm de cidades da própria região, como Ritápolis, Resende Costa e Lagoa Dourada, passam o dia e voltam para casa.

Outro dado interessante é o número de empregos gerados pelo turismo. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (CAGED), 51% do total de trabalhadores de Tiradentes trabalha em setores diretamente ligados ao turismo, como Agências e Operadoras, Alimentação, Comércio e Serviços, Entretenimento, Hospedagem e Transporte.

Em São João del-Rei, esse número é de apenas 21% e a disparidade fica ainda maior se considerarmos que a cidade é a principal da região e que boa parte do PIB vem do comércio, como os supermercados e lojas.

Diante deste quadro, nota-se um paradigma: Tiradentes tem números expressivos no turismo porque se dedica mais ou porque é mais dependente dele? E São João del-Rei: a questão turística não é bem trabalhada ou a economia da cidade do sinos é mais diversificada?

Questionado sobre o assunto, o secretário de turismo de Tiradentes se limitou a dizer que o setor “é vital para o desenvolvimento da cidade” e que “realmente existem cidades mais preparadas para receber visitantes”.

Já o secretário de São João foi mais enfático. Segundo Marcus, São João del-Rei não recebe o ICMS turístico há 10 anos, o que inviabiliza projetos na área. “Fizemos uma reunião em Belo Horizonte para informar ao Governo do Estado como nós estamos prontos e preparados para investir nesse turismo. Estamos nos adequando para resgatar boa parte do valor. Queremos usar um pouco do recurso de obras para reformas no centro histórico como o calçamento. Além disso, usar o FUMPAC (fundo municipal que reserva dinheiro para conservação do patrimônio) para obras em igrejas, reformar o teatro, o coreto, a casa mais antiga da cidade… Temos uma arquiteta lá para analisar todos esses projetos. Mas para isso, o Conselho de Patrimônio e o IPHAN precisam ter uma boa relação com a prefeitura para que se possa construir uma cidade melhor.”

 

Essa é a segunda reportagem da série “Raio X do turismo em Tiradentes e São João del-Rei”. Não deixe de conferir as outras publicações!

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Como a preservação do patrimônio interfere no turismo de São João del-Rei?

Reportagem: André Lamounier, Lucas Almeida, Lucas Comine, Rebeca Oliveira e Sofia Pacheco.