Irmandade e o Sistema Carcerário Brasileiro

A série “Irmandade”, desenvolvida e lançada pela Netflix, é um drama brasileiro que conta a história da advogada Cristina (Naruna Costa) que descobre que o seu irmão Edson (Seu Jorge) é líder de uma grande facção criminosa e que está preso há anos. Cristina é coagida pela polícia a se tornar informante, se infiltrando e desmanchando a facção por dentro, trabalhando contra o próprio irmão. Quanto mais a situação se estende e a personagem adentra a facção, mais as suas questões emocionais, familiares e os seus valores se envolvem, colocando em prova suas noções de lei e justiça.
A narrativa acontece na cidade de São Paulo, na década de 90. Irmandade, uma ascendente facção criminosa surge fora dos presídios, mas continua em intensa atuação comandada por Edson, líder da mesma, de dentro da cadeia, com um único objetivo: combater o sistema. As histórias e destinos completamente diferentes dos irmãos Edson e Cristina se aproximam ainda nos primeiros episódios. A situação insalubre do sistema carcerário e os abusos sofridos por Edson, é o ponto principal para uma possível mudança nos planos de Cristina. Conforme a narrativa se desdobra, a advogada começa de fato a conhecer os motivos que constroem a facção e as contradições da justiça brasileira – o sistema é falho.
Ainda que não seja o grande ponto central da trama, uma ambiguidade rege toda a narrativa: de um lado, detentos condenados por assassinatos, tráfico de drogas e armas, torturados e submetidos a situações desumanas, do outro, a lei e a promessa de justiça “fazendo o que for preciso para combater o crime e colocar a bandidagem no seu lugar”. Mas qual lugar é esse?

Diversas temáticas do sistema carcerário brasileiro são tocadas de forma indireta aqui: a superlotação, as rivalidades entre facções e o abuso policial, contrastando com a realidade brasileira. Em 2018, a superlotação dos presídios do país foi de 166%, e atualmente, o país tem a terceira maior população carcerária do mundo. Essa extrapolação alarmante da capacidade máxima submete esses indivíduos à situação degradante de alimentação, higiene e saúde. Mas o cerne das questões apresentadas fica principalmente para as outras duas questões.
Inseridos em um ambiente controlado muitas vezes pelos próprios presos, esses indivíduos passam a ser forçados a escolherem um lado e a fazer parte de uma das diversas facções presentes, que acabam também exercendo o desfalcado papel do poder público. Dentro da série, esses agravantes desconstroem os sujeitos ali inseridos. Sujeitos estes que enxergam na Irmandade a possibilidade de se tornarem alguém, respeitados e com poder – a dor em comum constrói o senso coletivo de busca por justiça, fazendo o que for preciso para combater a opressão e o sistema falho: “criminoso é alguém”.
O PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior facção brasileira, foi fundada logo após o massacre do Carandiru, conhecido como uma das maiores chacinas dentro dos presídios, que resultou na morte de 111 detentos. A rebelião, que ocorreu no dia 02 de outubro de 1992, começou a partir de dois grupos rivais que logo tomaram a Casa de Detenção Carandiru. Os policiais foram acionados para conter o conflito e não existe um consenso de como a situação seguiu daí em diante. “Os relatos de quem vivenciou se destoam da versão oficial. Segundo sobreviventes, em uma reportagem no portal Politize, “após a conversa com o Diretor do Carandiru, os presos decidiram pôr fim à rebelião, e muitos tinham entregado suas armas, permanecendo dentro de suas celas. Mesmo sem apresentarem reações violentas, a PM teria matado os presos”.
Uma matéria publicada no Memorial da Democracia acrescenta que: “A tropa comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães entrou no Carandiru utilizando armamento pesado e munição letal em vez de balas de borracha. Com as luzes da Detenção cortadas, os policiais entraram atirando no escuro. Os presos que tentavam esconder-se em suas celas eram executados mesmo que se despissem completamente para provar que não estavam armados”.
A falta de assistência governamental foi o fermento para o surgimento e fortalecimento do crime organizado que surge como uma reação para melhorias. Após o massacre, o PCC se estabelece e inicia a sua atuação: “Vamos combater os corruptos e opressores do sistema prisional”. O documentário “Origem”, disponível no Youtube, traz o histórico do surgimento do PCC e relatos de quem acompanhou de perto. A facção instaurou a ordem dentro dos presídios e exerce o papel que as autoridades públicas não foram capazes.
O sistema carcerário brasileiro foge completamente do seu papel de reinserção social e não a toa mantém uma taxa de reincidência crescente. É um laboratório de desumanização, e “Irmandade” se propõe perfeitamente a construir este discurso. Quanto mais o poder público abusa fisicamente e integralmente de Edson, mais a sua revolta e sua sede por justiça se estendem, aumentando a atuação da facção e incentivando a tentativa de fazer o que for preciso para que o mesmo consiga fugir.

O próprio público identifica as semelhanças com o histórico social e muito se questiona se a trama seria uma história real. Os diretores negam. A história é fictícia, mas as questões sociais são as mesmas vivenciadas pela população carcerária brasileira e os questionamentos também: o que é o certo?
Ficha técnica:
| Título: | Irmandade (1ª e 2ª temporada) |
| Ano de produção: | 2019 |
| Dirigido por: | Aly Muritiba, Gustavo Bonafé e Pedro Morelli |
| Duração: | 406 minutos |
| Gênero: | Drama; Nacional; Thriller |
| Países de origem: | Brasil |
| Classificação: | ⭐⭐⭐⭐⭐ |
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da instituição
Texto: Maiara Sousa de Jesus