Por Daniel Gannan

Morte de Tiradentes perante o povo. Foto/Reprodução: “Execução de Tiradentes” de Alberto da Veiga Guignard/bonifacio.net.br

Em 1792, o Rio de Janeiro presenciou um dos momentos mais marcantes da história brasileira. Em uma manhã ensolarada, a tropa carregava um homem à beira da morte. Mal sabiam aqueles que presenciaram a execução pública daquela figura, a magnitude e o simbolismo da cena exposta. Morreu um líder, a inconfidência mineira, e acima de tudo, se esmiuçou a esperança de uma mudança de postura do Brasil como nação.

Não é novidade para a maioria das pessoas, que a formação do estado brasileiro para se tornar o que é hoje, passou por inúmeras mudanças e manifestações. A era colonial, para além dos horrores da escravidão, exercia o abuso de poder por meio de medidas autoritárias sobre os cidadãos. A derrama, cobrança forçada pelo atraso do pagamento de impostos, foi um estopim de mais uma revolta popular naquele período. 

Para além do panorama do nosso país, na Europa, o iluminismo efervescia com ideias contrárias a governos absolutistas. Nesse contexto, um grupo que continha integrantes da elite mineira e intelectuais, propuseram mudanças que não agradaram ao governo da época. A proposta de uma república sem o monopólio comercial português, representava aos colonos uma ameaça à relação de subserviência entre a corte e o povo brasileiro. 

Dentre os inconfidentes, uma figura emergiu como liderança vital naquele processo. Um homem com uma fúria revolucionária resguardada, tomou a frente do movimento. Sua aparência característica e seu currículo abrangente, conversavam com a mistura e a racionalidade necessária para a implementação de mudanças vitais em nossa cidade naquele contexto. Joaquim José da Silva Xavier, popularmente conhecido como Tiradentes, mostrava uma força incisiva contra as ações abusivas do estado. 

Entretanto, como ocorreu diversas vezes durante a história brasileira, sempre há um traidor prestes a comprometer os planos de tentativa de progresso para nós. Quando Joaquim Silvério dos Reis entregou seus aliados a troco do perdão de suas dívidas, não existiam lideranças passivas de impunidade a partir dali. Mas para aquele que estava na linha da frente do afronte à colônia, existe uma jornada mais dolorosa a se percorrer. 

O Mártir da Inconfidência Mineira, com um crucifixo na mão, viveu a via sacra diante do povo carioca. Execuções públicas não têm valor pedagógico, mas representam a forma mais crua de dominação simbólica. Ouse lutar contra os que estão acima de você, e sofrerá como nenhum outro abaixo de ti. 

Neste 21 de Abril, sejamos aqueles que buscam a liberdade, ainda que tardiamente. Três séculos depois, ainda temos lacunas a preencher em nossa sociedade. E para reduzir os machucados incuráveis de nosso povo, é necessário coragem. Haverá repressão, dúvida e medo, mas os frutos a se colher no futuro compensam uma luta conflituosa. A luta diária por independência gera desconfiança, podendo tirar até uma vida. Entretanto, trezentos anos depois o que não se pode tirar, é a grandeza e determinação de Tiradentes, e seu exemplo a ser seguido por aqueles que ousam questionar.