Por Delcimar Ribeiro da Silva

Perfil da Entrevistada
Nome: Denise E Moraes
Idade: 44 anos
Profissão: Técnica em Assuntos Educacionais
Instituição: Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG)
Experiência: Atua na área da educação desde 2005 (e, desde 2017, na gestão e suporte pedagógico).

A velocidade da transformação digital impõe à educação pública brasileira desafios que ultrapassam a mera aquisição de computadores ou a distribuição de sinal de internet. Com a sanção da recente Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de dispositivos eletrônicos pessoais nas escolas de todo o país, o debate sobre o papel da tecnologia no ecossistema escolar ganhou novos contornos. Afinal, onde termina o dever pedagógico da instituição e onde começa a responsabilidade familiar? Como equilibrar as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê o domínio da cultura digital, com a saúde mental de estudantes saturados pelo excesso de telas?

Para compreender a complexidade desse cenário a partir de quem vive o dia a dia da gestão de ensino, conversamos com Denise E Moraes. Com mais de duas décadas de trajetória na educação e ampla experiência na linha de frente e no suporte pedagógico do IF Sudeste MG, Denise desconstrói mitos sobre a ‘novidade’ do papel mediador do professor, analisa criticamente o impacto da Inteligência Artificial e aponta que o verdadeiro alicerce para enfrentar discursos de ódio e cyberbullying está no respeito à diversidade praticado na rotina diária, e não apenas em projetos isolados.

Delcimar Ribeiro: A BNCC estabelece a ‘Cultura Digital’ como uma de suas competências gerais, exigindo que o aluno compreenda, utilize e crie tecnologias de forma crítica, significativa e ética. Diante da sua realidade prática no IF Sudeste MG, quais são hoje os maiores impasses para tirar essa diretriz do papel?

Denise E Moraes: Atualmente, na minha realidade de trabalho, o grande desafio não passa pela democratização do acesso à tecnologia em si, uma vez que a instituição cumpre muito bem esse papel, oferecendo acesso com qualidade, velocidade e agilidade. A barreira central desloca-se para a orientação sobre o funcionamento e o uso crítico dessas ferramentas. O verdadeiro problema reside no tempo excessivo de tela e nos horários inadequados de uso dos celulares, inclusive no ambiente doméstico. Portanto, o obstáculo mais complexo para consolidar essa competência de forma genuína é o fortalecimento da parceria entre a escola e a família.

“O modelo de educação bancária já não se sustenta há muito tempo. A necessidade de o professor ser um sujeito transformador antecede qualquer tecnologia atual, existindo no mínimo desde Paulo Freire.”

Delcimar Ribeiro: Tanto a BNCC quanto o Marco Civil da Internet acentuam a responsabilidade e a ética digital. Com a crescente onda de desinformação e cyberbullying entre os jovens, como a escola pode atuar de forma ativa sem se limitar apenas a banir aparelhos?

Denise E Moraes: Para combater de frente os discursos de ódio e o bullying, a escola precisa agir no cerne do seu cotidiano, inserindo no fazer diário o respeito absoluto às diversidades e a promoção da inclusão. Projetos pontuais e temporários são sempre válidos e bem-vindos, mas é o compromisso ético e o respeito mútuo vivenciados na rotina diária que realmente transformam e fazem a diferença. Além disso, enfrentamos uma zona cinzenta institucional: no IF Sudeste MG, o cyberbullying é previsto como infração em nosso regulamento desde 2016. Contudo, ainda esbarramos em um grande dilema: qual é o limite real de atuação da escola? Perfis na rede social Instagram ou grupos privados de WhatsApp, por exemplo, pertencem à alçada de intervenção escolar? É um limite que ainda carece de clareza.

Delcimar R. Silva: Diz-se frequentemente que a inserção tecnológica exige que o professor mude sua postura de mero transmissor para um ‘mediador de experiências digitais’. Como o corpo docente tem absorvido essa cobrança e como o cansaço tecnológico tem impactado a rotina pedagógica?

Denise E Moraes: Eu discordo fundamentalmente da premissa de que a chegada das tecnologias recentes, como a internet e a Inteligência Artificial, foi o que exigiu que o professor deixasse de ser um mero transmissor de conteúdos. Essa transição e essa postura crítica já eram urgentes muito antes do advento dessas ferramentas — trata-se de um debate consolidado no mínimo desde Paulo Freire. O modelo tradicional de educação bancária faliu há décadas. Da mesma forma, considero o termo ‘mediador de experiências digitais’ um tanto impreciso. Entendo o professor como um sujeito intrinsecamente formador e transformador de conhecimentos e de seres humanos; a tecnologia entra nesse processo como um instrumento metodológico a mais. Existem dificuldades práticas para essa incorporação, mas vejo muitos docentes buscando formação de maneira proativa para integrar, por exemplo, a IA. Por outro lado, há um movimento sutil, mas nítido, de cansaço extremo desse excesso de telas nas aulas. Já temos relatos de alunos que avaliam positivamente os docentes e pedem expressamente para que utilizem mais o quadro-negro em sala de aula.

Delcimar R. Silva: A democratização de ferramentas como o ChatGPT reformulou os processos de pesquisa escolar. Como a avaliação da aprendizagem real tem se estruturado para que essas inovações sirvam ao pensamento crítico e não apenas à reprodução automatizada?

Denise E Moraes: Apesar dos visíveis ruídos institucionais que uma inovação desse porte traz, a IA vem sendo progressivamente percebida como uma aliada, contanto que o seu uso ocorra de forma consciente e responsável. Embora a instituição ainda não disponha de um regulamento interno próprio e definitivo sobre a Inteligência Artificial, temos realizado campanhas ativas de conscientização alinhadas às regulamentações federais e maiores. Paralelamente, no microcosmo das salas de aula, os docentes têm desenvolvido estratégias pedagógicas perspicazes. Para certificar a autonomia cognitiva, muitos têm retornado a atividades avaliativas tradicionais escritas inteiramente à mão, além de formular questões autorais e personalizadas de elaboração própria, amparadas estritamente nos objetivos pedagógicos específicos de cada disciplina.

Delcimar R. Silva: Recentemente, foi sancionada a Lei nº 15.100/2025, estabelecendo a proibição nacional do uso de celulares em salas de aula públicas e privadas. Qual balanço você faz dessa medida com base na sua experiência profissional?

Denise E Moraes: Sendo sincera, na dinâmica interna das salas de aula a nova lei não traz grandes mudanças práticos imediatas, pois o uso de aparelhos celulares sem finalidade pedagógica já era estritamente proibido pelas normas regimentais internas da nossa instituição. No entanto, o texto legal peca por silenciar sobre o que ocorre do lado de fora da sala de aula e sobre o suporte estrutural que deve ser oferecido a esses profissionais e alunos. A lei funciona como um pequeno passo político, talvez até redundante, focado na preservação da saúde mental infantojuvenil. Todavia, ela isola o celular e ignora o contexto de superexposição mercadológica: o mesmo aluno que está proibido de usar o aparelho entra em contato com estímulos agressivos fora dali, sendo inundado, por exemplo, por publicidades massivas de plataformas de apostas eletrônicas (bets) ao assistir a um jogo de futebol. No final das contas, há uma constante histórica: desde que ingressei na carreira educacional, em 2005, independentemente do que é proibido pelas leis ou estatutos, a linha de frente encarregada de gerenciar o conflito e aplicar a restrição é, e continua sendo, o professor.