Por Vitor Romero

Revisado por Lídia Oliveira

O mês de setembro é marcado por campanhas nacionais que possuem o intuito de prevenir o suicídio. Intitulada Setembro Amarelo, a iniciativa partiu da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em conjunto com o Conselho Federal de Medicina. Desde a sua fundação, em 2015, o mês vem ganhando cada vez mais reconhecimento no Brasil, ampliando os debates sobre saúde mental.

Criança segurando símbolo do Setembro Amarelo Fonte: Reprodução  Pexels

De acordo com a psicóloga Clarice Campos, é importante termos em mente que a prevenção ao suicídio não começa quando a pessoa está em situação de crise. A prevenção deve se iniciar antes, discutindo abertamente sobre o tema e construindo espaços em que as pessoas possam falar sobre o sofrimento psicológico, de maneira segura e livre de julgamentos. “Hoje em dia temos visto algum avanço no que diz respeito ao tema, ou seja, já existe algum diálogo sobre, mas ainda existe muito tabu”, afirma Clarice. 

Quando o assunto é saúde mental, os tabus da sociedade ainda são muitos. Para Clarice, isso contribui para que sinais importantes sejam ignorados. Um dos tabus mais presentes na sociedade é o de que falar sobre suicídio pode “colocar essa ideia na cabeça das pessoas”. Além desse, também é frequentemente observado o pensamento de que uma pessoa que fala sobre suicídio “dificilmente vai agir”. Para a psicóloga, esse pensamento é perigoso, porque pode levar à minimização e à subestimação de sinais de sofrimento: “A maioria das pessoas que se suicidam não acordam num dia e tomam essa decisão. Na verdade, elas já vêm pensando sobre isso e muitas vezes até dão sinais que, por pensamentos como estes, acabam por ser ignorados ou menosprezados”.

Na sua percepção profissional, o Setembro Amarelo tem tido um papel importante em tirar o tema do suicídio e da saúde mental de um lugar de completo silêncio. “Hoje sinto que existe muito mais espaço para falar sobre sofrimento psicológico do que já existiu em outras épocas”. Para Clarice, ainda existe um longo caminho pela frente no enfrentamento dos tabus e na busca por avanços da sociedade. 

Paralelamente, a depressão é um dos principais assuntos a serem abordados e debatidos. A depressão é um importante fator de risco para o comportamento suicida. Porém, não são todas as pessoas com depressão que vão apresentar esse tipo de conduta. “O comportamento suicida é multifatorial e geralmente envolve uma combinação de fatores psicológicos, sociais e ambientais, e, em alguns casos, transtornos psiquiátricos. Por isso, além de buscar diagnósticos, é importante compreender também o contexto da pessoa, o ambiente, os fatores de risco presentes, assim como os fatores protetores e quais recursos a pessoa tem ao alcance para lidar com o sofrimento”, diz Clarice. 

A depressão é uma doença que pode afetar qualquer pessoa, de qualquer idade. Um dos pensamentos mais equivocados é que jovens não são afetados por ela. Na juventude, os sintomas nem sempre se manifestam somente com a tristeza. Além dela, a irritabilidade, o isolamento, a perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas são sinais da doença nos jovens. “A depressão muitas vezes anda junto de alterações do sono e do apetite, queda do rendimento acadêmico ou do rendimento no trabalho, também junto a sentimentos de culpa, de inutilidade e de desvalor diante da vida”, alerta Clarice. 

No entanto, esses sintomas não necessariamente indicam a depressão. Segundo a psicóloga, “é importante estar atento a mudanças em relação ao funcionamento habitual daquela pessoa. Para fazer um diagnóstico, é necessário observar, para além da presença dos sintomas, a frequência, duração e o impacto na vida da pessoa. Por isso, o papel do profissional aqui é imprescindível.” 

Em relação à prevenção do suicídio, Clarice acredita que não se faz distinção entre jovens e pessoas de diferentes idades. Para ela, a prevenção do suicídio acontece por meio da integração de várias estratégias, passando pela conscientização, pelo acesso a cuidados de saúde mental, pelo acesso a redes de apoio (como a psicoterapia, o acompanhamento psiquiátrico e os canais de ajuda) e pelo fortalecimento de fatores protetivos (como relações sociais significativas, sensação de pertencimento, estratégias de regulação emocional, crenças religiosas, culturais ou morais que desencorajem o suicídio, entre outros). 

No contexto social, a psicóloga explica como amigos e familiares devem reagir quando alguém manifesta pensamentos suicidas. “Eu diria que o primeiro passo é escutar, mas não um escutar genérico. É escutar realmente o que a pessoa diz, sem julgamento e sem buscar ter uma resposta. Escutar como quem quer realmente entender pelo que aquela pessoa está passando. Parece simples, mas é uma tarefa complexa (principalmente quando se trata de pessoas próximas).”  Para Clarice, nessas situações, também é importante tentar entender o nível de risco da situação e buscar ajuda profissional adequada, enfatizando que o apoio social e a intervenção profissional são complementares. 

A partir do momento em que abordamos a depressão e o suicídio no mundo contemporâneo, as redes sociais precisam entrar em pauta. Para Clarice, as redes podem contribuir para tornar os jovens mais expostos ao sofrimento psicológico. “A verdade é que as redes sociais podem oferecer conexão, suporte social, acesso à informação. Por outro lado, o que acontece, principalmente quando falamos de jovens, é que as redes sociais têm substituído as conexões reais, fazendo com que muitas pessoas se isolem cada vez mais no mundo virtual”, pontua. Além disso, na visão da psicóloga, a comparação, a pressão estética, o sentimento de inadequação e o cyberbullying são fatores de risco das redes sociais. Porém, esses não são os únicos problemas associados às mídias digitais: “Para uma pessoa jovem, com o cérebro ainda em desenvolvimento, questões relacionadas à recompensa imediata/adiamento da recompensa são particularmente delicadas.” Clarice afirma que o modo como as redes sociais são utilizadas é determinante para dizer se o uso é prejudicial ou não para a saúde mental dos jovens. 

Outro fator que pode contribuir para a depressão em pessoas jovens é a vida universitária. Quando falamos em sofrimento emocional em universitários, Clarice acredita que a cobrança por desempenho, o excesso de tarefas e a incerteza sobre o futuro profissional contribuem para isso, além das dificuldades financeiras. “Para muitos jovens, acresce ainda o fato de terem que se mudar de cidade, de estarem afastados da sua rede de apoio, da necessidade de adaptação a uma nova rotina e a um novo lugar, da construção de novos laços sociais, etc.”, esclarece. O cérebro de uma pessoa jovem ainda está em desenvolvimento, e o processo de descobrir a própria identidade e desenvolver autonomia pode representar uma demanda muito grande, como alerta a entrevistada. Portanto, Clarice considera que os estudantes são uma população particularmente vulnerável a questões relacionadas à saúde mental, o que torna de extrema importância criar espaços e estratégias que promovam o bem-estar psicológico, fortaleçam os recursos de enfrentamento e facilitem o acesso ao apoio psicológico nesta população. 

Quando questionada sobre o tratamento multidisciplinar da depressão, Clarice acredita que o acompanhamento psicológico, psiquiátrico e os cuidados com a rotina atuam em sinergia, de maneira complementar. Em uma analogia descrita pela psicóloga, é como se a pessoa com depressão estivesse usando óculos com lentes cinzas. O mundo continua tendo cores, mas, através daquelas lentes, a pessoa enxerga tudo de maneira acinzentada. “Uma situação que, em outro momento ou para outra pessoa, pode ser interpretada como uma dificuldade passageira, pode, para uma pessoa com depressão, ser interpretada como uma prova de que nada vai dar certo ou que as coisas nunca vão melhorar”, completa.

Nesse sentido, o acompanhamento psicológico é fundamental. Ele ajuda a pessoa a ter consciência das suas lentes, ou seja, entender como a depressão está influenciando seus pensamentos, emoções e comportamentos, além de desenvolver formas mais realistas e flexíveis de perceber o mundo e lidar com ele. Já o acompanhamento psiquiátrico vai avaliar a necessidade do tratamento medicamentoso, acompanhando os aspectos clínicos relacionados ao quadro. Por fim, a rotina é outro fator importante no tratamento da depressão. Clarice alerta que “os cuidados com a rotina, por sua vez, são muitas vezes menosprezados, mas também têm um papel importante. O sono adequado, a prática de atividade física, uma alimentação balanceada, a exposição à luz solar e a manutenção das relações sociais são fatores que fazem com que o nosso organismo funcione bem e, consequentemente, que haja regulação das nossas emoções.”

Todos esses cenários se encontram na prevenção ao suicídio. Para Clarice, a prevenção começa pela construção de condições para que as pessoas tenham uma vida digna, um aspecto que recebe pouca atenção. “Acredito que isto só pode ser feito de maneira integrada, envolvendo esforços da esfera pública, dos profissionais da saúde, das instituições e de cada um de nós enquanto sociedade, já que, mais uma vez, reforço: todos nós temos um papel a desempenhar no que diz respeito a isso.” 

Onde buscar ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e com atendimento 24 horas por dia, pelo telefone 188. Também é possível buscar atendimento por chat e e-mail pelo site do CVV.

Pessoas em sofrimento psicológico também podem procurar atendimento em UBS, CAPS, UPAs, prontos-socorros e hospitais. Em situações de urgência ou risco imediato, o SAMU pode ser acionado pelo número 192.