Por Alessandra Silva

Paulo Roberto Silva, presidente do projeto social Criança Adolescente Cidadã. Imagem: Alessandra Silva

A ausência dos pais, muitas vezes provocados pela longa jornada de trabalho em regiões socialmente vulneráveis, têm transferido o papel de acolhimento familiar para escolas e projetos sociais. Presidida pelo agrônomo Paulo Roberto Silva, a Organização Não Governamental (Ong) Criança Adolescente Cidadã (CAC), trabalha na linha de frente para garantir esse suporte para as crianças de São João del-Rei.

Fundado há 15 anos, o projeto teve início na casa do presidente, mas hoje conta com uma sede própria no bairro Matosinhos, oferecendo o suporte para mais de 150 famílias da região. Para entender melhor como as ONG’s lidam com a sobrecarga de responsabilidades, as dificuldades para continuar o funcionamento e o impacto de suas ações na comunidade, conversamos com o fundador do projeto.

VAN: Como surgiu o projeto? Quem deu o primeiro passo para a construção dele?

Paulo Roberto: Eu percebi, principalmente no período final da minha carreira como agrônomo, trabalhando no Estado, que havia a necessidade de retribuir tudo de bom que Deus me deu: filhos maravilhosos, uma família bem estruturada. E eu percebia que isso faltava para muitas crianças da periferia. Senti, então, a obrigação de retribuir, como forma de gratidão, desenvolvendo um projeto que tirasse as crianças dos vícios, das brigas de turma, do tráfico de drogas e dos pequenos delitos. E percebi que havia algo com o qual elas se identificavam: o esporte. Eu pratiquei esporte, minha família toda praticou […] Achei que era a oportunidade de criar um projeto que abrangesse o esporte.

VAN: Como essas abordagens foram inseridas no projeto? E quais outras áreas vocês contemplam?

PR: Primeiramente, foi o esporte. Depois entramos com a área ambiental, mas, com o passar do tempo, percebemos outras necessidades. Então pensamos em criar uma ONG registrada, formalmente, que funcionasse como um guarda-chuva, onde cada “barbatana” representasse atividades que poderiam ser desenvolvidas.

Hoje temos cultura e turismo, alimentação e nutrição, bem-estar social, patrimônio histórico, cooperativismo […] Na verdade, existem duas grandes vertentes: a área social e a área ambiental. E cada uma delas possui diversas atividades que se correlacionam.

Depois disso tudo, formalizamos a ONG, tiramos o CNPJ e começou uma demanda enorme relacionada à parte burocrática das entidades. Hoje temos advogados, empresa de contabilidade e contador para auxiliar nessa estrutura.

O terceiro setor é muito complexo porque abrange peculiaridades tanto da iniciativa privada quanto da administração pública. E, para sermos um diferencial, não cobramos nenhum custo dos alunos que frequentam aqui. As crianças precisam ter bom desempenho escolar, acompanhadas pelos instrutores. Também oferecemos uma alimentação saudável, priorizando produtos da região […]

Além disso, somos todos voluntários, não remunerados. Nossa diretoria é composta por presidente, vice-presidente, tesoureiros, secretário e conselho fiscal.

Outra etapa importante foi a mudança do escritório, que antes funcionava na minha residência, no Bonfim. Viemos para este local porque aqui é onde realmente existe a necessidade.

Aqui era uma comunidade que, no passado, teve muitos problemas com assassinatos e tráfico de drogas. Ainda existem dificuldades, mas diminuiu bastante […]

VAN: E como está a situação atual da região? Houve alguma melhoria em relação a qualidade de vida da população atingida?

PR: Ainda não é o ideal, porque a área social é muito complexa. Existem muitos problemas que exigem psicólogos e assistentes sociais. Estamos nos reestruturando agora com novos profissionais e aguardando recursos de emendas parlamentares.

Nossa arrecadação vem principalmente de familiares e amigos que conhecem o projeto e contribuem com pequenos valores. Temos também um fomento da prefeitura de R$ 2 mil, que praticamente paga apenas a secretária. Ainda temos despesas com lanche, instrutores e manutenção das atividades.

Hoje temos dez oficinas: capoeira, dança, jiu-jitsu, futebol, hortas, coral, teatro, entre outras. Essas atividades fazem com que as crianças permaneçam praticamente o dia inteiro aqui.

Na realidade, aqui a situação é complicada. Os pais sabem que aqui é tranquilo, então praticamente funciona como uma creche […] E isso é ótimo, porque é melhor estarem aqui do que na rua fazendo coisa errada.

Esse trabalho vale mais pelo esforço do que pela meta cumprida. Trabalhar com o ser humano exige acolhimento. Não existe fórmula pronta. O importante é unir esforço e inteligência para alcançar resultados reais.

VAN: Como funciona o apoio da comunidade ao projeto? Existe participação ativa?

PR: A comunidade vê o projeto com bons olhos. As pessoas sabem da importância do trabalho realizado aqui. Porém, os pais precisam participar mais.

Eu frequentava todas as festas e atividades escolares dos meus filhos, mas hoje vejo pouca participação dos pais […] Ainda estamos tentando descobrir como motivá-los mais.

No judô, por exemplo, percebemos um desenvolvimento muito positivo das crianças. As artes marciais trabalham disciplina, concentração e respeito. Os pais dessas crianças participam mais.

Mas, de forma geral, quando realizamos eventos, ainda há pouca participação das famílias.

OPN: Quantas crianças são atendidas hoje pelo projeto?

PR: Hoje temos 168 crianças cadastradas em diversas atividades e espaço para mais cerca de 40. O grande problema da área social é que conseguimos manter as crianças até os 14 ou 15 anos. Depois disso, quando entram na adolescência, muitos acabam se afastando […] Essa fase infantil é mais tranquila, mas a adolescência é um grande desafio. Ainda buscamos formas de manter esses jovens envolvidos após essa idade. A educação também enfrenta desafios muito grandes hoje. Antigamente, a família ajudava o professor. Hoje, muitas vezes, o professor precisa ajudar a família. Acredito que falta equilíbrio. Nem oito, nem oitenta. É preciso bom senso e disciplina.

VAN: Além das dificuldades financeiras, quais outros desafios vocês enfrentam atualmente?

PR: Hoje, o voluntariado está praticamente em extinção. É muito difícil encontrar pessoas realmente comprometidas com a causa. E o voluntariado não pode funcionar como hobby. Existe uma corrente de trabalho, e se um elo se rompe, compromete toda a estrutura e os resultados.

Estamos, aos poucos, substituindo o trabalho voluntário por profissionais remunerados, porque isso gera mais estabilidade.

Também enfrentamos dificuldades na área de marketing. Trabalhamos muito e divulgamos pouco […] Agora vamos desenvolver algumas atividades com estudantes universitários para nos ajudar nessa área.

O que mais me preocupa é o recurso financeiro para fazer as coisas acontecerem. Porque, no fim, tudo depende disso.