O silêncio dos animais
Por Tomaz Jaeger
Na madrugada de 4 de janeiro, em uma praia de Florianópolis, um cachorro comunitário chamado Orelha foi agredido brutalmente. O animal, que vivia cerca de dez anos sendo cuidado por moradores, foi encontrado gravemente ferido e levado a uma clínica veterinária, mas não resistiu aos ferimentos causados por um objeto contundente na cabeça. A investigação apontou o envolvimento de adolescentes, e o caso rapidamente se tornou símbolo nacional da luta contra maus-tratos a animais.
Orelha não tinha um dono, mas tinha uma comunidade inteira. Moradores construíram casinhas, levavam comida, o chamavam pelo nome. Era ele, de certa forma, um componente da rotina daquele lugar. Talvez seja por isso que sua morte tenha provocado uma onda de indignação em todo o país, com protestos e debates sobre a punição para crimes contra animais. A história de Orelha não termina em Florianópolis. Ela ecoa em muitas cidades brasileiras, inclusive na nossa São João del-Rei.
Quem caminha pelas ruas históricas da cidade mineira, logo percebe que os animais fazem parte do cenário urbano. Nos becos de pedra, nas escadarias das igrejas e nas praças, cães e gatos dividem espaço com estudantes, turistas e moradores. Alguns têm dono, já outros pertencem a todos e a ninguém ao mesmo tempo.
Há quem deixe água em potes improvisados na porta de casa. Há quem carregue ração na mochila. Há também quem desvia o olhar.
O problema dos maus-tratos raramente aparece em manchetes locais, mas existe na rotina silenciosa em que cães são abandonados depois de crescerem demais, gatos são envenenados em terrenos baldios, e animais atropelados ficam horas esperando socorro. A violência, muitas vezes, não é como no caso que chocou o país. Ela é cotidiana, justamente por isso tão invisível.
Os animais urbanos vivem no limite da nossa tolerância. Enquanto alguns moradores os tratam como parte da comunidade, outros os veem apenas como um incômodo. Entre esses dois extremos, surgem histórias de cuidado e também de crueldade. Casos como o de Orelha escancaram uma pergunta séria: que tipo de sociedade se revela na forma como tratamos os seres que dependem de nós?
Em cidades como São João del-Rei, a resposta aparece em pequenos gestos diários: no estudante que leva um cachorro ferido ao veterinário, na senhora que alimenta gatos na praça todas as tardes. Ou tamém, infelizmente, na indiferença de quem passa por um animal sofrendo e continua andando.
Talvez a lição mais dura do episódio de Florianópolis seja justamente que a violência contra animais não começa com um ato extremo. Ela inicia muito antes, na banalização do sofrimento. Enquanto houver silêncio diante disso, sempre haverá outro “Orelha” esperando por justiça.
