Por Alessandra Silva

Protesto em São João del-Rei no ato do 8M. Foto: Alessandra Silva

Uma caminhada silenciosa marcou as celebrações do Dia Internacional das Mulheres em São João del-Rei no último domingo (8). O protesto foi marcado pela memória das vítimas de feminicídio e em homenagem às mulheres são-joanenses que foram assassinadas.

O protesto que reuniu a população em frente a Igreja Do Carmo, homenageou quatro mulheres São-Joanense, sendo eles Ione (31 anos), assassinada em sua casa no início de 2026, Rita (63 anos) que foi estuprada e espancada até a morte, Tamara (33 anos) que foi morta pelo seu companheiro, assim como as outras, e seu corpo nunca foi encontrado. Luana (36 anos) também foi uma das homenageadas, após ter sido assasinada à tiros, na véspera do dia das mães, pelo pai de seu filho.

Apesar do seu contexto de comemoração, o Dia Internacional das Mulheres é uma data de protesto e conscientização em decorrência da onda de misoginia que aproxima a sociedade, como apontado pela advogada Tatiane Viotti, em entrevista para a VAN. A servidora pública também expressou a importância da data em memória às mulheres que lutaram a anos para garantir os seus direitos.

“E hoje é um dia pra se comemorar o Dia da Mulher, mas também pra gente lembrar daquelas que lutaram pra gente ter liberdade, pra gente poder deixar os filhos, para trabalhar. Eu acho que hoje é um dia de luta, apesar de ser uma comemoração a nível cívico.”

Dr. Tatiane Viotti

Pesquisas do Instituto Brasileiro de Direito de Família registraram que, em 2025, cerca de 6 mulheres foram vítimas de feminicídios, registrando um aumento de 34% em relação ao ano de 2024. Dentre esses números, cerca de 62,6% das mulheres eram negras, como foi divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), através de dados dos anos de 2021 à 2024. Esse agravante foi comentado pela protestante, Marilene Sottani, que reforçou a necessidade de lembrar do perfil das vítimas do machismo.

“ […] a maioria das vítimas são mulheres negras e periféricas. Então a gente precisa estar aqui para lembrar disso e celebrar também o 8M, mas lembrando que a gente ainda tem uma caminhada muito longa pelos nossos direitos.”

Marilene Sottani

Criação do dia Internacional da Mulher

A data escolhida para comemoração está ligada à crescente do movimento feminista no século XX, onde as mulheres operárias, especialmente da industria têxtil, lutavam por seus direitos. Entre os eventos associados à escolha da data, está o incêndio na indústria Triangle Shirtwaist Company em Nova York, no ano de 1911, que vitimou 125 mulheres e os protestos na Rússia que ficou conhecido como “Paz, Terra e Pão”, onde trabalhadoras saíram nas ruas no dia oito de Março de 1917 para protestar  sobre as questões de trabalho, fome e a participação do país na Primeira Guerra Mundial.

Nesse contexto de mobilização, em 1910, Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, propôs a definição de uma data para homenagear as mulheres, no II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas. A data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) apenas na década de 1970, que passou a ser celebrado mundialmente no dia 8 de março.

Protestantes do 8M em frente da Igreja do Rosário. Foto: Alessandra Silva

Participaram do ato mulheres influentes na cidade de São João del-Rei, como Danielle Muffato, fundador da Associação Pro Autista e apoiadora dos protestos do 8M desde 2019. Em entrevista a VAN, Danielle enfatizou a importância desses atos para dar visibilidade a mulheres com deficiência e mãe de pessoas com deficiência, que são silenciadas perante suas condições. Muffato também ressalta a importância da construção e conscientização dentro de casa e a necessidade dos homens entenderem a gravidade da situação, pois, de acordo com a mesma, “[…] não adianta só eu cuidar da minha filha pra que ela seja uma mulher empoderada, se o meu filho tem uma responsabilidade em cima disso e eu não estou educando ele pra isso.”.

A vereadora Cassi Pinheiros também esteve presente no protesto, ressaltando a importância da criação de políticas públicas que acolham mulheres em situação de risco e vulnerabilidade.

“A gente espera que, enfim, as pessoas entendam que elas são parte da mudança, que as pessoas parem para pensar, parem para olhar para a realidade à sua volta, um chamado de conscientização.”

Vereadora Cassi Pinheiros

Após a caminhada, o dia foi marcado por atividades de conscientização e cultura, com apresentações artísticas na Feira da Boazona, com a presença da Batucada Popular, Traga  Pandeiro e Marilene Santos. A Casa do Comitê recebeu o Projeto Elas por Elas, organizado pela OAB, prestando atendimento jurídico às mulheres da região. O Sarau “Não Me Kahlo” foi responsável por fechar o dia de protesto e homenagens.