Cena do clipe de "Best Days", de Alessia Cara. Reprodução: Divulgação

A montanha-russa de In The Meantime

Novo disco de Alessia Cara reflete os desafios mentais do jovem no século XXI

Cena do clipe de "Best Days", de Alessia Cara. Reprodução: Divulgação
Cena do clipe de “Best Days”, de Alessia Cara. Reprodução: Divulgação

Era uma vez, uma garota ítalo-canadesense que amava a música e o mundo. Após singles de sucesso, um Grammy e vários EPs, Alessia Cara lançou seu terceiro trabalho de estúdio em setembro de 2021. Com dezoito faixas, In The Meantime foi produzido no auge da pandemia e aborda a montanha-russa vivida pelos jovens de “vinte e poucos anos” ao redor do globo.

Mesmo em meio a críticas após não emplacar hits, Cara parece não se importar e segue na missão de fazer música para si e a seu público fiel. Aos vinte e cinco anos, a artista apresenta uma proposta diferente de trabalhos passados. Dessa vez, é apresentado algo mais maduro com um início, meio e fim, como se ela nos contasse uma história moderna de final feliz. 

A saúde mental foi um dos temas principais do álbum. A primeira é Box In The Ocean, um pop reggae “animado”, mas que metaforiza as inseguranças que o jovem contemporâneo guarda dentro de si, uma alusão a mensagem secreta do título: “Uma caixa de sentimentos jogada ao oceano”. Seria o início do “arco de cura” proposto pela artista ao decorrer do repertório.

 Em depoimento em seu canal oficial do Youtube, a compositora afirma que o fundo do poço do disco é Best Days, uma balada intimista, que facilmente seria a trilha sonora de filmes hollywoodianos, como o romance musical “La La Land – Cantando Estações. Na letra, Alessia, se pergunta: “E se meus melhores dias foram os dias que deixei pra trás?”. Essa montanha-russa idealizada por Cara, dá ritmo ao álbum, mas, acima de tudo, gera uma forte conexão entre a cantora e os fãs, já que os últimos se veem representados nas reflexões musicais da artista.

A capacidade da cantora de trabalhar temas cotidianos e transformá-los em músicas singulares é intrigante. Em Sweet Dream, Cara aborda a depressão e a insônia de forma excêntrica, citando frases comuns de jovens que sofrem do distúrbio: “A vida não é tão ruim quando estou dormindo”. Produzida por Salaam Remi, Shapeshifter, tem inspiração no jazz de Amy Winehouse, cantora favorita de Alessia. O arranjo cita a dualidade de relacionamentos e como a mentira transforma seu parceiro do dia para a noite. As duas canções foram os primeiros singles do disco, e contam com videoclipes criativos e conectados, dirigidos pela Tusk, empresa das produtoras Olivia Mitchell e Kerry Furrh. A companhia ganhou destaque após produzir os visuais do álbum “Romance” de Camila Cabello.

Cena do clipe de "Best Days", de Alessia Cara. Reprodução: Divulgação
Cena do clipe de “Best Days”, de Alessia Cara. Reprodução: Divulgação

O Brasil, também é representado no trabalho da canadense. Nas antônimas canções Bluebird e Find My Boy a adoração se torna inspiração. A primeira, ilustra o processo de recuperação de um término com um sample bossa-novista do cover de “I Wish You Love”, gravado pela pequena violonista chinesa Miumiu. Já a última, ilustra a busca de um novo amor, após a superação do antigo. Em meio a uma batida “contagiante”, que mistura bossa nova e pop, temos a menção do bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. A internacionalização da música brasileira vem se tornado recorrente no cenário artístico. No caso de Alessia, além de suas canções inspiradas na brasilidade, seu cover de Djavan e dueto da pop rock You Let Me Down com o cantor Jão, apresentados ao vivo no Lollapalooza Brasil 2022, a colocaram em destaque entre os artistas do movimento.

O álbum chega ao fim com Apartment Song, uma faixa pop alegre que fala sobre voltar a enxergar a beleza na vida, dançar aos sons do mundo e chorar glitter. A letra é a mensagem correta para essa trajetória de cura mental proposta pela artista, a qual mesmo não tendo melodia marcante, tem um significado que a destaca. 

Sem dúvidas, In The Meantime é o melhor trabalho de Alessia Cara, sendo sinônimo preciso de toda sua carreira, que desde os primeiros passos têm vocais e sons definidos. Sua maior falha seria o tamanho: é um disco muito longo, que apresenta vícios antigos. A exemplo a música Clockwork, com sonoridade semelhante ao seu sútil álbum de estúdio The Pains of Growing”. Uma leve encurtada faria a experiência do ouvinte ainda melhor, pois mesmo abordando temas delicados e tristes, o disco mantém postura alegre. Uma trilha sonora perfeita para viagens de carro ao pôr do sol.

In The Meantime: 💜💜💜💜🤍 Nota: 4 de 5 corações

Lançamento: 24 de setembro de 2021

Selo: Def Jam

Gênero: Pop, R&B e Jazz

Replay! : Lie To Me

Pula! : Clockwork

Faixa favorita: Find My Boy

Onde ouvir: Deezer, Spotify e YouTube Music

Público: Adolescentes e jovens adultos

Se gostou, ouça também: Paloma Faith, FLO e Troye Sivan

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da instituição

Texto: Helena Serpa