Vida da Gente é uma coluna quinzenal de divulgação dos zines¹ produzidos por pessoas em situação de privação de liberdade da Unidade Feminina da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC) de São João del-Rei.

Minha Vida, de Fabiana, setembro de 2022

Transcrição de Minha Vida, de Fabiana

“A minha história

Quando eu tinha 9 anos de idade eu virei mocinha, depois que tudo isso foi passado virei uma adolescente de 13 anos e fiquei grávida. Foi um choque para a sociedade, tive que ter uma responsabilidade, passei por vários problemas da vida, tive que ganhar a criança. Como que uma criança pode cuidar da outra. Estive na escola, mas depois eu parei. Fui crescendo já com a cabeça diferente, cai nas drogas para ver se os meus problemas passavam. Vivi na rua, sempre a minha mãe ia atrás de mim me buscando na rua e pedindo para eu poder voltar para a casa e eu falava que a rua era melhor. Até que um dia eu cheguei na UPA com a cabeça aberta de tanto apanhar das pessoas que brigavam comigo por causa das drogas.

Isto é uma realidade de vida que já passei, mas eu venci. Hoje eu estou aqui para poder contar  meu testemunho. Tive no fundo do poço, mas Deus teve misericórdia da minha vida que eu vim parar dentro de uma prisão para dar valor na minha vida e consertar com Deus, porque eu não sou uma pessoa ruim, sou uma pessoa que tem o coração enorme e gosta de ajudar as pessoas que estão ao meu redor, porque o que eu já passei e sofri eu não desejo isto para ninguém. Tantas vezes que eu fiz minha mãe chorar por minha causa.

Toda vez que eu escrevo a minha história os meus olhos enchem de lágrimas, porque só eu sei o que já sofri. Eu catava latinha para eu poder sobreviver quando eu morava debaixo da ponte e quando chegava a noite eu esperava os trailers fechar para eu perguntar a eles se sobrou alguma coisa para eu poder comer, porque eu estava com fome e pedia lá na rodoviária se eu poderia tomar um banho, ele falava “arruma R$ 1,00 que eu deixo você tomar, porque sem pagar eu não posso, porque o dono me manda embora e eu eu preciso porque tenho família” e falei com ele “vou arrumar com alguém” e fui para o Banco do Brasil e pedi esmola para eu poder arrumar dinheiro para eu comprar algo para eu levar para debaixo da ponte. Não bebo, só usava droga.

Fim.”


Mediadas por Taisa Maria Laviani², as oficinas de zines realizadas na APAC Feminina de SJDR tem como objetivo abrir espaço para o diálogo, a reflexão, o fazer manual, a criatividade e a autoralidade, a partir da prática artística e comunicativa, bem como promover a circulação dessas narrativas e criações através da coluna Vida da Gente.

Erguer a voz a partir de seu lugar no mundo é um ato de poder existir, se reconhecer e ser reconhecido. E o que as mulheres em situação de privação de liberdade tem a nos dizer? A nos mostrar? Fique de olho!

Notas

¹ O Fanzine, ou simplesmente zine, é uma publicação independente. Um zine é um veículo de comunicação (assim como o jornal, livro, revista, gibi, etc.) que pode assumir qualquer formato, abordar qualquer tema e ser publicado por qualquer pessoa, com os mais baixos recursos. Por isso, segue à risca o lema “faça você mesmo!”.

² Taisa Maria Laviani é formada em Ciências Sociais, pela Universidade Estadual Paulista, zineira e mestranda do Programa Interdepartamental de Pós-graduação Interdisciplinar em Artes Urbanidades e Sustentabilidade, da UFSJ.

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