8ª  Semana da Diversidade Sexual da Região das Vertentes teve rica programação na cidade dos sinos

Grande público compareceu à Avenida Leite de Castro no último domingo
Grande público compareceu à Avenida Leite de Castro no último domingo

Com o tema “Transfobia Mata: Gênero na Educação Combate a Discriminação”, a 8ª  Semana da Diversidade Sexual da Região das Vertentes trouxe, entre os dias 14 e 22 de novembro, diversos temas referentes aos direitos humanos para São João del-Rei. Visibilidade lésbica, homofobia, prevenção contra AIDS, identidade e discriminação de gênero e racismo foram algumas das temáticas que foram discutidas por meio de rodas de conversa, filmes exibidos, seminários e apresentações culturais.

“Organizamos uma semana inteira de atividades, que debatem sobre a questão do gênero na educação, principalmente a violação de direitos e a evasão escolar de pessoas travestis e transexuais. Fizemos um amplo debate com outros movimentos sociais, sindicais e com servidores e educadores sobre essa pauta”, explicou o presidente do Conselho Municipal de Direitos LGBT, Carlos Bem.

Foram reunidos mais de 50 diretores de escolas estaduais da região das Vertentes para debater a questão educacional LGBT, como explicou Bem: “Pensar como enfrentar o bullying contra pessoas LGBT dentro de sala de aula é muito importante, uma vez que é constatado pelos dados da educação que vários adolescentes travestis e transexuais saem da escola sem terminarem os seus estudos”.

Além disso, um dos debates teve como pauta o mercado de trabalho: “Fizemos debates com sindicatos,  focando na questão de travestis e transexuais no mercado de trabalho, como pode ser pensada uma estratégia para que as empresas de fato contratem pessoas travestis e transexuais”.

A 8ª Semana da Visibilidade LGBT encerrou-se com a tradicional marcha
A 8ª Semana da Visibilidade LGBT encerrou-se com a tradicional marcha

O sucesso da semana foi celebrado através da oitava edição da Marcha do Orgulho e Cidadania LGBT, que se concentrou na Avenida Leite de Castro até às 17h do último domingo e coloriu o trajeto até o Coreto. Mesmo debaixo de chuva, os participantes não desanimaram e a semana foi encerrada com o show “Tributo aos Orixás”, da cantora mineira Nalu Resende em homenagem à Clara Nunes, representando o repúdio à intolerância religiosa.

Rubi, a mulher sem medo

Dentro dos pontos a serem debatidos e mudados, Rubi ressalta a dificuldade enfrentada pelos transexuais para ingressar no mercado de trabalho
Dentro dos pontos a serem debatidos e mudados, Rubi ressalta a dificuldade enfrentada pelos transexuais para ingressar no mercado de trabalho

Junto com a bandeira do arco-íris, símbolo do movimento LGBT, um vestido vermelho brilhante se destacou em cima do trio elétrico da 8° Parada Gay. Rubi Rivera, personalidade são-joanense, desfilou em cima do trio elétrico vestida de Elektra, a personagem ninja da Marvel e amante do Demolidor (O Homem Sem Medo). 

“Acho muito importante ter uma parada gay aqui na nossa cidade, que é tão religiosa e que ainda tem muito preconceito. Isso precisa ser combatido, temos que dar um passo muito grande ainda” disse Rivera.

Sobre seu passado, não tem vergonha de dizer: “Eu fazia programa, mas tem pouco tempo que parei e não quero isso pra mim mais”, comenta. Rubi, que atualmente se sustenta com faxinas e venda de cosméticos e lingeries, acrescenta que essa é a realidade de muitos transexuais, já que a população não aceita muito bem os transexuais no mercado de trabalho, deixando a margem da sociedade e levando uma vida difícil.

Sobre sua família, diz que o convívio é tranquilo: “Graças a Deus na minha casa todo mundo me respeita, me aceita, o pessoal me adora, na minha casa todo mundo gosta de mim. E sobre o preconceito, a relação melhorou muito, antes o povo me olhava atravessado na rua, mas hoje em dia me sinto mais respeitada e feliz”.

João Paulo e a carta de emancipação

“Eu não ando de mãos dadas na rua porque eu acho que isso atrai homofóbicos. Mas, nós temos que enfrentar. Essa é a vida e as pessoas tem que aceitar quem nós somos” diz  João Paulo, que alega ser mais aceito hoje mas com muitas ressalvas.

O estudante conta que escreveu uma carta quando decidiu contar à mãe sobre sua homossexualidade e, apesar de ter sido aceito, deparou-se com um “sinto muito”, seguido de um aviso de o mundo seria muito difícil para ele.

João Paulo diz, ainda, que o mais importante foi dizer para sua mãe e que seus amigos aceitaram bem. Hoje, o que considera mais difícil é conviver num ambiente social, no qual ouve inúmeras difamações diariamente.

Leona – as cores da luta

Para Leona, o movimento é importante por ressaltar os direitos LGBT
Para Leona, o movimento é importante por ressaltar os direitos LGBT

Vestida com as cores do arco-íris, Leona – cujo nome de batismo é Leandro – abrilhantou a Parada, caminhando com os participantes, sorrindo, dançando e posando para fotos. Uma das celebridades do evento, ela conta que trabalha como Drag Queen há 16 anos.

Residente em São Paulo, tem vasta experiência em paradas gays. Tendo se assumido aos 16 anos, se monta desde os 17; quando passou a trabalhar em casas noturnas em São Paulo, e a fazer shows em diversas partes do país; constituindo seu atual ofício.

Para Leona, que diz estar pela quarta vez na Parada do Orgulho LGBT em SJDR, o movimento é importante no combate ao preconceito e na conscientização da própria comunidade,  uma vez que, segundo ela, as pessoas devem ter consciência de seus direitos, deveres e não aceitar que a desrespeitem.

 

Gênero na educação e combate à discriminação

Anderson Cunha explicitou a necessidade de ter uma escola mais preocupada com a integridade dos alunos
Anderson Cunha explicitou a necessidade de ter uma escola mais preocupada com a integridade dos alunos

A questão de gênero ocupou lugar de destaque nessa Semana da Visibilidade. Na quinta feira, 19, o Coordenador de Direitos Humanos e Cidadania da Secretaria de Estado da Educação, Anderson Cunha, apresentou um seminário para diretores e diretores-em-potencial da rede pública de ensino da Região, explicitando a necessidade de tornar a escola um local não apenas de aprendizado, mas também em um lugar político de respeito às diferenças.

Adriana Leitão, superintendente regional de ensino, reitera a importância de convocar os diretores para eventos como esse: “A discriminação não é didática e o diretor é a abertura para toda e qualquer tentativa de inclusão”.

Para Cunha, é necessário um maior “foco no sujeito e em sua integralidade, além de entender a multidimensionalidade do aluno quanto as proficiências ensinadas na escola”.

Após o seminário, foi exibido um documentário produzido por Yan Teixeira – militante da causa trans – para explicitar o que é transfobia através de depoimentos explicativos sobre o não respeito ao nome social, a falta de emprego, evasão escolar, discriminação na família, constrangimentos no uso do banheiro ou outros espaços segregados por gênero e violências sofridas dentro do próprio movimento LGBT.

Ainda foi discutido até onde vai a autonomia da escola em oposição à família na defesa do nome social para menores de idade e o que podem fazer os diretores em caso de que seus alunos estejam sendo alvo de transfobia.

Confira mais fotos da 8ª  Semana da Diversidade Sexual da Região das Vertentes clicando aqui.

TEXTO/VAN: Cícera Rosa, Clara Fernandes, Mariana Ribeiro e Rebeca Oliveira

FOTOS: Mariana Ribeiro e Rebeca Oliveira

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