Por onde andam os Ipês
Por Vincent Otoni

Alguns dias atrás me deparei com um ipê na rodoviária, um dos primeiros que eu vi florescer nessa estação, um dos primeiros que notei também desde que cheguei a cidade e a inspiração para essa breve crônica. Temos um pacto silencioso de deixar ele me avisar todos os anos que o tempo está passando, mas eu tenho todo o direito de apreciar enquanto passa. Esse que vinha com a bandeira de boas vindas do inverno era rosa, espalhava um pouco mais de cor pelo chão por onde as malas dos que iam e vinham chegavam. Penso no significado de um lugar de tantas passagens em contraste com a passagem do tempo, parece fazer sentido.
A partir dali todos os outros começaram a me chamar mais atenção, como uma brincadeira de procurar e achar esses easter eggs naturais. Mais tarde vi mais um, dessa vez de dentro de um desses ônibus que saía da rodoviária também. Enquanto eu passava por Santa Cruz, observava as flores coloridas de amarelo caindo em cima de um casal, pareciam estar perto dos 70 anos, com rugas que provavelmente contavam histórias que eu não conhecia, mas pelo sorriso da senhora enquanto o homem falava alguma coisa, quase quis conhecer. Percebo um sorriso contrariado cortando sua expressão rabugenta um pouco antes do ônibus fazer a curva, me pergunto o que ela poderia estar falando com ele. Reflita sobre como os ipês costumam fazer o contrário da maioria das árvores e utilizam do inverno para florescer, para se espalhar e continuar o ciclo de outros pontos de cor pela cidade das pontes.
A próxima vez foi espaçada, alguns dias depois do meu encontro indireto com os senhores, um esbarrão no centro com alguns amigos, que me perguntavam um pouco sobre a rotina, o namoro, a faculdade. Me vi parando em meio a correria do dia atarefado, para falar e escutar um pouco, saber de quem me importa no final do dia. Esqueci do horário de chegada para a volta do trabalho, mas faria de novo pelos 15 minutos papeando sobre um pouco de tudo ali na rua, embaixo de um ipê rosa, no meio das andanças de tantas outras pessoas que, como eu, estavam só vivendo 15 minutos diferentes da tarde de suas próprias quartas feiras.
Por um tempo me vi procurando por aí, por mais lembretes do início do inverno, do meio do segundo semestre. Encontrei mais um por acaso, da cor mais linda que há, com as flores em lilás caindo em cima do gramado perto da cachoeira, que pelo dia de clima mais ameno, se encontrava praticamente vazia. Tinha aproveitado uma folga para deixar uma vela perto do local, e ali, depois de pensar um pouco nas mudanças lentas dos últimos anos, me deixei levar em uma retrospectiva leve, lembrando-me das outras vezes que me refugiei naquele ambiente pelo mesmo motivo. Vejo crianças correndo atrás de uma pipa novamente na cidade do artesanato, uma usando o ombro do outra como escada para alcançar um papagaio, ou uma pipa azul, nunca soube bem a diferença. Acho engraçado a risada do garoto de cima, quando alcança o objetivo. Vendo a peça com algumas folhas remanescentes e algumas pétalas cor de rosa que mostravam um contraste bonito com o azul do material.
Nunca pensei que me atentar a detalhes tão discretos na cidade, como a mudança aos poucos das roupas de estação na vitrine, a diferença dos copos de bebida nos bares que antes viam só cerveja e agora levam mais vinhos, ou como o ambulante que algumas semanas atrás vendia protetor solar e agora vende luvas e hidratante labial. Acredito que a delicadeza nesse olhar venha do tempo, e agora, eu passo a fazer parte desse ecossistema que antes, era só um ponto de visita. Vejo um aviso de uma festa julina, que aparentemente não teve tempo hábil para ocorrer em junho, penso na primeira vez que fui em uma quermesse, aqui. Achando incrível a capacidade da comunidade da cidade de se juntar tão rápido. Me cerco com comparações de primeiras e últimas vezes, e com a percepção de que isso pode existir como pensamento na cabeça de muitas outras pessoas, ou simplesmente ser relevante apenas para mim. Mas termino de escrever vendo um ipê amarelo mais solitário no campus da faculdade, vejo as últimas flores que em breve não estariam mais aqui, pensando em como daqui a pouco as estações já serão outras e o meu olhar, o mesmo.
