Por Alessandra Silva, Larissa Lacerda e Thaís Abreu

Igreja do Carmo em São João del-Rei. Foto: Alessandra Silva

A preservação do patrimônio histórico de São João del-Rei contrasta com o silêncio em torno de um dos pilares de sua formação: a escravidão. Em meio a igrejas barrocas e casarões coloniais, a cidade mineira evidencia um passado seletivamente contado, onde a herança escravocrata permanece pouco visível para moradores e visitantes.
O Brasil foi o maior território escravista do Ocidente e o último a abolir a escravidão, deixando como herança desigualdades sociais que ainda estruturam o país. Em cidades históricas, esse legado também se manifesta no espaço urbano, embora nem sempre seja reconhecido de forma explícita.
A arquitetura colonial, frequentemente valorizada pelo turismo, é resultado direto do trabalho de pessoas escravizadas. Igrejas, prédios administrativos e casarões foram erguidos a partir da exploração dessa mão de obra, refletindo uma organização social desigual, em que a elite ocupava áreas centrais e elevadas, enquanto a população negra era marginalizada. Samuel Fonseca, mestrando em arquitetura e pesquisador da história urbana de São João del-Rei, aponta que essa relação é inseparável. “É indissociável a formação da estrutura urbana do passado escravocrata. Por ser a sede da comarca do Rio das Mortes, São João era um grande centro de comércio, com uma vida urbana muito ativa, e todas as atividades econômicas das Minas Gerais eram baseadas na mão de obra escrava”, explica.
Fonseca destaca ainda que a forma como a escravidão se organizava na cidade era diferente do modelo das grandes fazendas. “Esta mão de obra estava organizada em pequenas escravarias de trabalhadores urbanos que muitas vezes viviam junto com seus senhores. Os homens podiam ser sapateiros ou cirurgiões-barbeiros, e as mulheres normalmente vendiam quitandas.” Por isso, ao contrário do que se vê em regiões de plantações, não há senzalas no centro histórico, o que não significa ausência de escravidão, mas uma forma distinta e mais difusa de exploração.
Apesar disso, essa dimensão da história raramente é evidenciada no cotidiano da cidade. A turista Mariana Lopes, de Belo Horizonte, percebe essa lacuna ao visitar o município. “O foco parece ser mais na parte religiosa e na arquitetura. Não vi muita coisa aprofundando outros aspectos da história, é meio uma versão mais ‘bonita’ mesmo”, relata.
A percepção se repete entre moradores. Ana Paula Souza, que vive na cidade desde o nascimento, avalia que há uma valorização seletiva do passado. “Algumas coisas são bem valorizadas, como as igrejas e as tradições, mas outras partes ficam meio de lado”, afirma. Para ela, o passado escravocrata não é facilmente identificável no espaço urbano: “Você até imagina, por ser tudo antigo, mas não é algo evidente.”
Esse apagamento não significa necessariamente ausência, mas falta de mediação histórica. Sem sinalizações, roteiros educativos ou iniciativas que abordem diretamente a escravidão, o visitante depende do que é visível. E o que se vê, em geral, privilegia uma estética que não problematiza sua origem. Para Samuel Fonseca, parte do trabalho do historiador é justamente enxergar essas lacunas. “Um dos trabalhos do historiador é também enxergar os apagamentos, as ausências. Talvez a falta de construções pobres no centro histórico seja sinal da exclusão dessas populações da história oficial da cidade, ou de um higienismo histórico-urbano.
O pesquisador também chama atenção para o quanto a riqueza da cidade esteve diretamente ligada ao trabalho compulsório. “A base da economia de Minas Gerais, e do Brasil como um todo, era a mão de obra escravizada. As práticas locais de agropecuária, e até a ferrovia e manufaturas dependiam da exploração dessa força de trabalho. Mesmo após o fim da escravidão, o capital que manteve a economia e as atividades urbanas do Brasil era advindo da escravidão”, afirma.
O escritor e jornalista Laurentino Gomes aponta que o racismo brasileiro se sustenta, em grande parte, de forma silenciosa, naturalizando desigualdades herdadas da escravidão. Nesse sentido, a ausência de narrativas sobre esse passado contribui para sua continuidade simbólica. Fonseca complementa, destacando que a historiografia tradicional agravou esse apagamento ao tratar os negros como sujeitos passivos. “De modo geral, a historiografia até recentemente apontava os negros como sujeitos passivos da escravidão, que eram submetidos e aculturados, e não tinham deixado nenhuma marca na cultura do Brasil”, aponta. Esse quadro, segundo ele, começa a mudar, mas lentamente. Iniciativas como a catalogação de espaços de memória negra em São João del-Rei representam avanços, embora ainda careçam de políticas públicas, em parte devido às diretrizes do IPHAN, que, na avaliação do pesquisador, “privilegiam a excepcionalidade em detrimento de significados locais.”
Para mudar esse cenário, tanto moradores quanto visitantes destacam a importância de ampliar o acesso à informação. A inclusão de placas explicativas, visitas guiadas com enfoque histórico crítico e espaços dedicados à memória da população negra são algumas das possibilidades apontadas. Para Samuel Fonseca, reconhecer esses espaços é também reconhecer a agência histórica da população negra. “São poucos os lugares tombados que remetem à presença negra, e menos ainda os que apontam a resistência dessas pessoas e das práticas culturais dos pretos e pardos. A população negra é sempre vista como um outro, nunca como os próprios agentes”, critica.
O desafio enfrentado pela cidade é contar sua história de forma realista e sem romantização. Em São João del-Rei, reconhecer o passado escravocrata não implica apagar sua beleza histórica, mas ampliá-la, incorporando as histórias que, por muito tempo, permanecem soterradas.