Por: Gabriel Augusto Resende e Richard Xavier

Barraquinhas da Feira da Boazona. Foto: Richard Xavier.

A Rua Marechal Bittencourt, popularmente conhecida como Rua da Cachaça ou Rua da Zona, tornou-se, há muito tempo, palco de um evento muito conhecido pelos amantes da cultura de São João del-Rei: a Feira da Boazona Cultural. Ela reúne artesãos e comerciantes locais divididos em diversas barracas ao longo da rua, onde se encontram peças de artesanato, bijuterias, discos de vinil, crochês, pinturas e também alimentos caseiros e de produção local, como doces, cafés especiais e outros quitutes. As atrações são majoritariamente de artistas locais, muitas vezes independentes, de estilos variados, como aBig das Minas, uma banda composta exclusivamente por mulheres e cujas integrantes tocam flauta, saxofone, trompete, baixo elétrico, violão, cavaquinho e outros instrumentos.

Nesse ambiente sociocultural efervescente, surgem vários personagens únicos e que expõem na feira tanto seus produtos, como também suas histórias. Um exemplo disso é o caso de Celestino Damasceno, que vende esculturas de massa fria, madeira e durepox. Ele entende a sua arte como fruto da sua observação e interpretação particular da vida e do cotidiano são-joanense, sempre procurando novas inspirações escondidas nas coisas mais triviais. E, na Boazona, Celestino encontrou o lugar ideal para desenvolver seu trabalho, como ele mesmo diz:

“O que me motiva a frequentar a Feira e vender minha arte nela é o contato direto com o público que ela proporciona. Aqui eu coloco o meu preço no meu trabalho e ainda recebo críticas ou elogios dos clientes, o que me faz aprender mais e ajuda a melhorar meu trabalho. Eu faço artesanato desde criança e procuro desenvolver minha arte sempre em contato com as pessoas e com a cidade, que são fonte importante para que eu me aprimore e siga fazendo o que eu gosto.”. 

Se, na visão de quem vende seus produtos dentro da Boazona, ela é um local que estimula o contato entre pessoas e a troca de ideias e experiências e possibilita aprendizados constantes, para Rogéria Gomide, administradora do Centro Cultural Feminino, isso não deveria ser diferente para quem está do lado de fora das barracas. 

“Eu entendo a Feira da Boazona como um projeto que dá oportunidade e visibilidade para todos que querem mostrar seu trabalho para a comunidade. E eu espero que as pessoas deem valor a esse tipo de coisa, que parem pra ver e percebam que não é nada vazio, sem sentido. Cada barraquinha conta uma história e os turistas que vêm aqui acabam conhecendo não só o trabalho, mas uma parte da vida de cada feirante.” afirma Rogéria.

Para que esse evento se constitua, se estabeleça e possibilite esse trânsito cultural, artístico, gastronômico e social, existe toda uma equipe por trás de tudo, pensando e planejando novas atrações, oficinas e outras formas de fazer com que o público se conecte com a Boazona. Elã Carvalho e Frésia Taynara, dois dos organizadores da Feira, contam mais sobre como tem sido organizar e produzir o evento neste ano, quais os desafios que eles enfrentaram durante o processo e como eles encontraram apoio para continuar trabalhando, depois que a primeira edição saiu só em abril, o que é algo incomum,  já que a Feira acontece pelo menos uma vez por mês.

“Viemos de um período meio conturbado, com relação à obtenção do alvará para podermos fazer a Feira na Rua da Cachaça, e estamos tentando mobilizar mais pessoas, ter mais expositores. Agora que a feira foi reconhecida como ponto de cultura, temos um apoio maior e somos mais vistos, muito por conta da divulgação massiva que fazemos na rádio e no Instagram. Queremos que as pessoas entendam que a feira não é só de artesanato, tem uma manifestação cultural envolvida, e para se estabelecer ela gira em torno da ajuda mútua das pessoas, não só de quem expõe o seu trabalho mas também de quem compra. A comunidade é muito importante para a divulgação e para manter a rua viva.” conta Elã.

A Feira tem algumas temáticas centrais, como a questão da valorização feminina, sendo a base da Economia Solidária, que está intrinsecamente ligada ao evento, majoritariamente feita por mulheres. Para a primeira edição deste ano, ela trouxe uma oficina de confecção de plaquinhas de conscientização para serem colocadas na Serra do Lenheiro, fruto de uma parceria com outro evento no ano passado que trazia essa temática. Sobre a recepção de propostas externas, Frésia diz que procura ouvir a todas elas e está sempre aberta a diversas temáticas, desde que se encaixem com a ideia que a Feira possui.

“Temos um formulário de inscrição no link da bio do nosso Instagram, que é https://www.instagram.com/boazona.cultural/. Lá tem diversos tipos de propostas: de oficina, de rodas de conversa, de musicais e de peças de teatro, sejam elas voluntárias ou remuneradas. Nós tentamos fomentar a valorização de artistas e pautas locais de vários segmentos e essa abordagem para nós é muito importante. Na preparação da edição de abril nós recebemos a proposta sobre a Serra do Lenheiro, que condiz muito com o contexto da Economia Solidária ao pensarmos na preservação dos nossos espaços primordiais da cidade, tanto urbanos como naturais. É uma discussão essencial e estamos sempre dispostos a ter esse tipo de conversa.”

Falando ainda das propostas do evento, Frésia comenta que a Boazona, diferentemente de outras feiras, aceita incorporar os brechós, que não estão diretamente conectados com o artesanato. “Algumas feiras não aceitam os brechós. E eles são essenciais para a gente pensar na sustentabilidade da moda. Então, quando tem um encontro de brechós aqui, propomos rodas de conversa para falar sobre esse assunto, que também afeta diretamente o meio ambiente. As pessoas raramente pensam sobre o descarte massivo e o superconsumo de roupas e essa pauta é muito importante.” 

Por fim, Frésia fala sobre como a Rua da Cachaça também se tornou uma pauta dentro da própria Boazona, que busca ressignificar o seu local de atuação. Ela diz que o objetivo é fazer a rua ser vista cada vez mais como um polo importante da cultura são-joanense nas suas diversas formas de se expressar e acredita que, para tanto, uma mudança de atitudes entre os moradores e a gestão pública da cidade é necessária.

“Estamos tentando ressignificar esse lugar para que as pessoas também tenham um espaço de cultura livre, ainda que muitas delas não vejam com bons olhos o movimento que acontece aqui. E elas não percebem o quão diverso ele pode ser. Sentimos muita falta de um apoio da Secretaria de Cultura para incluir a Rua da Cachaça numa rota do turismo, para os guias passarem aqui e fortalecerem o movimento também, para o turista que vem atrás do turismo religioso conhecer esse outro lado que também faz parte da história da cidade e agrega muito valor à cultura local.”