Por Érika Franco

No último final de semana, ocorreu a 6ª edição da Feira Literária Internacional de Tiradentes (FLITI). Concebida como um evento gratuito, a feira ofereceu uma programação variada com cinco dias dedicados ao universo literário, e com um convite especial voltado à juventude. No papel, a proposta institucional era nobre: uma ação para democratizar o acesso à leitura. Uma verdadeira celebração da cultura. Na prática, porém, a promessa tropeçou em degraus inaceitáveis de exclusão física. 

Quem precisou usar os banheiros do local se deparou com um cenário que lembra os bastidores de um evento premium: pias em louça, espelhos iluminados com LED, sistema de exaustão no teto, escadas de metal e portas individuais com travamento. O acabamento do “trailer sanitário de luxo” era impecável; no entanto, quem conseguiu ter acesso à todo esse conforto? 

Pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida não eram, certamente, o público-alvo, pois a ausência de um banheiro acessível revelou um grande erro por parte da organização. Não havia rampa para acessar as cabines ou um banheiro adequado, infringindo a Lei de Acessibilidade sancionada em 2019.

Banheiros da 6ª Edição da FLITI.
Foto: Érika Franco

O problema, definitivamente, não é a falta de recursos. A FLITI é viabilizada pelo mecanismo de mecenato da Lei Rouanet. Documentos públicos disponíveis no site Salic Comparar – banco de dados vinculado ao Ministério da Cultura – mostram que o evento movimenta quantias significativas. A edição de 2024, por exemplo, captou impressionantes R$2.847.877,32. Além de que, a estrutura é montada com camarins e espaços diversos para receber escritores famosos e independentes, neste ano foram 94 autores convidados e 115 atrações.

Lavatório com pias em louça, espelhos com led e torneiras automáticas.
Foto: Érika Franco

De acordo com os dados, a 6ª edição já movimentou mais de R$658 mil em verbas incentivadas. É evidente a contradição entre o porte do evento e a negligência com os direitos básicos. Vale ressaltar que a acessibilidade não é um favor, está na Lei nº 13.825/2019 a obrigatoriedade de banheiros químicos acessíveis em eventos, sejam eles públicos ou privados.

Entre parceiros e incentivos, mais uma edição foi planejada, a FLITI convidou a juventude em suas postagens nas redes sociais, montou uma estrutura no Centro de Tiradentes com um banheiro temporário de alto padrão, e até abriu espaço para os donos levarem seus pets sem preocupação, o famoso local Pet Friendly. Diante da evidente contradição entre o porte do evento e a negligência com os direitos básicos, fica o questionamento: como uma feira dessa proporção falha em oferecer algo tão necessário?