Conhecido como “águia-brasileira”, o Carcará foi imortalizado na canção de João do Vale e José Cândido através da interpretação de Maria Bethânia, em 1965, no Teatro Opinião.  A ave nordestina, que simboliza a resistência no sertão, foi também a escolha de batismo de um Coletivo de Mulheres nascido em São João del-Rei, no ano de 2011.

A concepção do grupo aconteceu no 8º Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV), organizado pelo Diretório Central de Estudantes (DCE). Esse Estágio tem como proposta criar um diálogo do Movimento Estudantil brasileiro com os Movimentos Sociais – como o MST (Movimento dos Sem Terra), MAB (Movimento de Atingidos por Barragens) e MMM (Marcha Mundial das Mulheres) -, por exemplo.

Através do contato inicial com a MMM, as meninas que participaram do EIV começaram a se reunir para estudar, a fim de entenderem melhor o que seria o feminismo e, assim, criar a identidade do grupo. No início, o Coletivo auto organizado contava com cinco mulheres estudantes da UFSJ e, após de mais de dois anos de caminhada e rotatividade de membros, o Carcará conta atualmente com oito alunas fixas de cursos diversos, como Pscicologia, Economia, Jornalismo e Filosofia.  Elas se organizam sem hierarquias ou papéis pré-estabelecidos em encontros semanais no Campus Dom Bosco. As tarefas são distribuídas de acordo com cada demanda surgida. Elas se consideram mulheres que resistem e lutam por seu espaço na sociedade, assim como a águia que as nomeia.

Feminismo

Para o senso comum, o feminismo é o contrário de machismo, porém estudos  evidenciam que a definição de feminismo é mais abrangente e se encontra em constante modificação. Segundo a mestranda em Teoria Literária e Crítica da Cultura Laís Maria Oliveira, ser feminista não é deixar de ser feminina, e sim poder exercer seus direitos de ser humano sem que o órgão sexual seja considerado um diferencial político, visto como simples ferramenta para a imposição de hierarquias. “Sabemos que ao longo da história, as mulheres foram rebaixadas socialmente, consideradas enquanto objeto de manipulação masculina”, afirma. Ela ainda lembra que, com a emancipação feminina, alcançada gradualmente através de união e luta, pode-se dizer que as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço, seja no mercado de trabalho, na política, na academia. Porém, ela afirma que o pensamento “homem x mulher”, como ferramenta de manipulação, permanece: a violência contra a mulher e a proibição do aborto e de práticas anticoncepcionais são exemplos de como a sociedade ainda vê o feminino enquanto corpo servil para procriação e usufruto.

Para o grupo Carcará, o termo feminismo é o mesmo que o entendido pela Marcha, marcado por ser popular: um feminismo anticapitalista. “Entendendo que, nesse sistema, as maiores vítimas são as mulheres”, diz Mahara Jneesh, uma das fundadoras do Coletivo.

Ações 

O Coletivo apresenta-se como um espaço de ação e reflexão sobre o papel social das mulheres, dando visibilidade à vida das mesmas. O grupo declara que, com essa visibilidade, as mulheres já constroem algo diferente do sistema, que as explora através do trabalho doméstico – predominantemente feminino, salários menores no mercado de trabalho, empregos precários, padrão de feminilidade estereotipado e tripla jornada. O Carcará, enquanto coletivo, tem como objetivo principal explicitar tais situações e mostrar que as mulheres têm feito novas escolhas. O papel do grupo é conscientizar as mulheres, buscando que elas tenham voz e que seus direitos sejam legitimados.

Nesse ano, o Coletivo Carcará foi convidado pela reitora da UFSJ, Valéria Kemp, para mapear projetos já existentes na instituição (Iniciação Científica e Extensão) com a temática feminista. A reitora, por sua vez, foi convidada pela vice-prefeita, Cristina Lopes, para ser membro do Conselho Municipal da Mulher. Esse conselho está sendo construído desde 2011, após a participação do Carcará e da vereadora Vera do Polivalente na Conferência da Mulher, na capital mineira. O objetivo do Conselho é debater políticas públicas da cidade para as mulheres, principalmente para aquelas que estão em situação de vulnerabilidade de qualquer tipo, seja financeira, seja de violência. O Conselho ainda precisa ser aprovado, assim como há necessidade de que ele seja formado, como explica Vera Polivalente. “A lei já está pronta e foi entregue para o prefeito Helvécio. Basta agora a Câmara aprovar”. A intenção do projeto é a criação de uma Secretaria de Mulheres e até uma Casa Abrigo, mas, segundo a vereadora Vera, é imprescindível fundar o Conselho para, depois, mapear os anseios e necessidades das mulheres da cidade. 

As meninas do Coletivo se encontram satisfeitas pelo envolvimento e reconhecimento da universidade e da prefeitura em relação a elas, uma vez que esse diálogo entre eles já existe desde o surgimento do grupo. O Coletivo Carcará continuará “avoando que nem avião” por São João del-Rei, cantando seu grito de luta pela igualdade entre homens e mulheres.

VAN/Marlon Bruno de Paula e Mariana Chaves
Foto: Reprodução

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