por Ana Laura Garcia e Larissa Macedo

Após cinco anos de pausa, o Festival de Literatura de São João del-Rei (FELIT) retornou para promover a resistência cultural e o debate sobre temas sociais. Um dos momentos de maior destaque foi a exibição da curta-metragem “O Menino que Engoliu o Choro”, seguida de uma conversa entre a escritora Cris Pàz e o editor Joubert Amaral sobre a repressão emocional na infância.

O Largo Tamandaré durante a 15ª edição do FELIT.
Foto: Ana Laura Garcia

Após um hiato de cinco anos, a FELIT ( festival de literatura de São João del-Rei) retorna às praças, teatros e centros culturais da cidade entre os dias 16 a 20 de setembro. Apesar de enfrentar desafios orçamentários e adequações de programação e autores, a organização do evento reafirma a importância dos festivais literários como verdadeiro atos de resistência e local de acolhimento.

    Dentre as diversas exposições, oficinas, rodas de conversa e shows, um dos momentos mais marcantes ocorreu no sábado (19) no centro cultural da UFSJ – Universidade Federal de São João del-Rei. O espaço foi palco para a exibição do curta-metragem da animação “O menino que engoliu o choro”, seguida de uma roda de conversa com o editor e diretor Joubert Amaral e a escritora e influenciadora Cris Pàz.

Cris Pàz e Joubert Amaral em leitura de trecho da obra “O Menino que Engoliu o Choro
Foto: Ana Laura Garcia

O projeto de curta-metragem contou com um orçamento limitado. Durante a roda de conversa, Amaral explicitou os desafios enfrentados durante a produção do projeto, dentre eles, prazos curtos e a necessidade de cortar alguns detalhes da história original por conta do custo de produção do filme. O problema do orçamento foi resolvido de forma criativa: Amaral convidou pessoas próximas a si para participarem do projeto, como sua própria esposa e seu filho, que deram voz ao menino e à mãe da história. 

Lançado originalmente no Youtube, a obra nasceu da colaboração direta entre a escrita e a animação. Cris Pàz autorizou a adaptação audiovisual da obra sob uma condição fundamental, a de estar presente ativamente na produção. A criação também ganhou um caráter familiar e artesanal, contando com o trabalho do irmão de Joubert Amaral na construção das animações.

Durante o bate-papo os convidados destacaram que a literatura infantil e juvenil vai muito além das crianças, segundo os próprios ela serve como um “sopro no estômago dos adultos”. Sendo um dedo nas feridas profundas da infância, principalmente masculina, abordando a mais famosa frase “engole o choro” e o estereótipo cultural que os impede de manifestar vulnerabilidade desde a infância. 

Cris e Joubert se auto intitulam ativistas do choro, argumentando que a criança tem uma relação natural com suas emoções, mas perdem esta naturalidade por conta das barreiras impostas pelos adultos. A discussão também traçou um paralelo com o período recente de crise sanitária, apontando que “a pandemia foi o nosso engole o choro coletivo” segundo Joubert, reforçando a urgência de encontrar espaços de acolhimento para as dores do cotidiano. 

exibição do curta-metragem “O Menino que Engoliu o Choro”.
Foto: Ana Laura Garcia

Além dos aspectos emocionais da obra, a roda de conversa lançou luz sobre a complexa engrenagem por trás da publicação de livros no nosso país. Joubert Amaral compartilhou suas experiências como dono de uma editora independente no interior de Minas Gerais, mostrando como funciona o processo de escrita, edição e circulação de um livro fora dos grandes eixos comerciais.

Embora atrair o público continue a ser um desafio para eventos culturais, o que exige parcerias e uma aproximação constante com a comunidade, a adesão ao FELIT comprovou a força do encontro presencial. Cris Pàz e Joubert Amaral acolheram mães, professoras, psicólogas, crianças e estudantes da área da comunicação na roda de conversa e mostraram que, apesar dos desafios, a existência de projetos como a FELIT e o incentivo a literatura nacional infantil continuam sendo de extrema importância no atual cenário social. 

De maneira geral, a roda de conversa e a exibição da curta-metragem tocaram em aspectos profundos para todos os envolvidos.  A obra de Cris Pàz transmite uma mensagem de quebra de tabus e preconceitos relacionados ao modo de sentir e de expressar o que se sente no universo masculino, demonstrando o impacto da repressão dos sentimentos durante a infância e, posteriormente, na vida adulta. Além disso, os auto intitulados “ativistas do choro” trataram assuntos sensíveis e socialmente delicados com maestria e leveza, alcançando públicos de diferentes idades, gêneros e contextos sociais. Nesse contexto, a FELIT segue ressaltando a necessidade de abordar assuntos marginalizados e estigmatizados, sendo um espaço aberto a um público plural, heterogêneo e diversificado.