Por Daniel Gannam

Busto de José Maria Xavier no centro histórico de São João del-Rei
Fonte: Reprodução/Instagram @brazil-imperial

“A vida sem música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. A frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche em sua obra “Crepúsculo dos Ídolos” tornou-se um lema para aqueles que apreciam a quarta arte. No entanto, mal sabia o idealizador do niilismo, que do outro lado do mundo, um homem de fé exerceria com maestria seu pensamento. 

Em agosto de 1819, nasceu em São João del-Rei José Maria Xavier. Neto de escravos alforriados, iniciou sua jornada na música no ambiente católico junto a seu tio, Francisco de Paula Miranda. Começou como cantor tiple, que tinha como função substituir a voz feminina, visto que na época mulheres não podiam participar da liturgia na Igreja. Posteriormente, passou a se aprofundar em instrumentos como violão, clarinete e viola, passando a tocá-los na Orquestra Lira sanjoanense.

Aos 27 anos, foi ordenado presbítero, depois de adentrar no seminário de Mariana no ano anterior. Quando voltou a sua terra natal, cumpriu diversos cargos e funções relevantes da igreja católica. Mas foram suas contribuições artísticas que marcaram época e ainda ressoam nas melodias cotidianas da cidade. São conhecidas mais de cem obras em seu nome, conservadas em arquivos manuscritos musicais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás. 

Suas composições mais famosas são o Ofício de Trevas, Ofício de Ramos e Sexta-feira Maior, que até hoje são tocadas na semana santa de São João Del-Rei. Duas de suas músicas foram editadas na Alemanha, fato raro no cancioneiro nacional do século dezenove. Em janeiro de 1887, um acidente agravou o já complicado quadro de saúde do sacerdote, resultando em seu falecimento. 

Mais de meio século após sua morte, José foi eternizado como patrono do Conservatório Estadual de Música de sua cidade natal. Hoje, o local agrupa um vasto grupo de alunos que, através da música, deixam a prática artística florescer na comunidade. Não só a partir dos ensinamentos dos professores, mas pela troca de experiências entre as pessoas que ali circulam. E quem diria que, mais de cem anos após o fim da vida de ambos, Nietzsche e um padre estariam juntos por uma causa maior: a defesa do direito à música como contemplação da vida.