APARENTE(MENTE)
Por Vitor Romeiro
ATENÇÃO: A crônica aborda conteúdos sensíveis relacionados a saúde mental e suicídio.

Lembro-me da primeira vez em que Léo chegou ao meu consultório. Ele era um menino aparentemente saudável. Ele comia bem, jogava futebol, saía sempre com os amigos, estava sempre sorrindo.
Aparentemente, estava tudo bem. Aparente(mente). É uma palavra estranha, porque termina com “mente”. Nesse caso, o que estava aparente era uma mentira.
“Aparentemente”.
Com um paciente, o sentido inteiro da frase mudou. No primeiro dia em que ele se sentou na minha frente, tivemos uma conversa que eu achei ser produtiva.
– Como eu posso te ajudar, Léo?
Ele estava ofegante ainda, tinha acabado de sair de uma partida de futebol e tinha vindo correndo até a consulta.
– Tem sigilo médico? – Ele me perguntou.
– Existe, sim, o sigilo entre médico e paciente. – Eu respondi, com calma. – Mas você tem dezesseis anos, Léo. Uma rede de apoio é interessante.
Naquele segundo, eu me lembro de ter visto um peso saindo das costas de Léo. Ele desajeitou a postura, tirou o sorriso do rosto e desabou.
– Não estou aguentando mais, doutor. Dentro de mim tem uma angústia muito grande. Me sufoca a garganta, pesa meu peito. Parece que estou infartando.
– Vem acompanhado de tristeza ou de desespero?
– Dos dois. – Ele respondeu.
A conversa seguiu por mais de uma hora. Era um quadro de depressão e ansiedade, mas as duas estavam muito fortes.
– Escute, Léo. Você não precisa fazer isso sozinho. Eu te prescrevi essas medicações e te encaminhei para a terapia. Mas eu gostaria que você viesse na próxima consulta com alguém de confiança. Não precisa entrar com a pessoa, mas ter uma rede de apoio é fundamental.
E ele concordou. Pegou a receita, pegou o encaminhamento para o psicólogo e apertou minha mão. Inicialmente, eu pensei que ele tinha enfrentado o pior desafio de todos: iniciar o tratamento, buscar ajuda.
Mas ele só fez meio caminho. Ele buscou ajuda, mas não começou o tratamento. Eu me lembro do que ele me disse na consulta até hoje.
“As pessoas falam que psiquiatra é coisa de gente doida, por isso eu não vim antes.”
“Eu vejo na internet que os remédios viciam.”
“Vejo várias postagens falando que é falta de Deus, falta de fé.”
Naquele atendimento, eu desmitifiquei cada uma das frases que ele me trouxe. Disse que psiquiatra não é coisa de gente doida, e que depressão e ansiedade afetam muitos jovens, e que existe tratamento. Eu expliquei que os remédios não viciam se tomados corretamente, com a minha orientação e que, na hora certa, faríamos o desmame. E eu disse que depressão e ansiedade não são falta de fé, mas um conjunto de fatores que muitas vezes fogem do controle humano.
Ele me escutou com atenção. Mas às vezes, quando uma ideia já está enraizada no cérebro, é difícil deixar ela de lado. Muitos não procuram ajuda pelo tanto de mentiras que escutaram.
Léo chegou a dar o primeiro passo. Ele veio até mim. Mas não aderiu ao tratamento. Eu conversei com sua mãe depois do fatídico dia. Ela me contou que nunca tinha percebido nenhum sinal.
Estava morrendo de culpa. Eu disse que ela não tinha culpa do que aconteceu. Realmente, não tinha. Infelizmente, a sociedade não está preparada para reconhecer os sinais escondidos, quando eles existem. É uma coisa que precisa ser modificada.
Ela me contou que ele continuava rindo. Ele não contou para ninguém que tinha vindo ao meu consultório e que precisava de medicação e terapia.
Mais uma vez, foi só a aparência do tratamento. Ele não seguiu. Esse é o grande problema das aparências. Elas raramente mostram a essência.
Uma pessoa pode aparentar estar ótima, muito bem. E, por dentro, pode não saber o que fazer com a angústia, com a tristeza e com o desespero.
A mãe de Léo me contou que depois que tudo aconteceu, ela percebeu os sinais. Mais tempo trancado no quarto, não saía mais com os amigos. Nem o futebol ele frequentava.
Ela me disse que achou que eram coisas normais de um adolescente de dezesseis anos. Que eram os hormônios ou aquela fase da puberdade que a maioria se isola.
Mas era Léo parando de se importar com a vida. E a sociedade não está preparada para perceber esses sinais que muitas vezes são tão discretos.
Eu percebo. Mas eu sou psiquiatra, estou preparado para lidar com a saúde mental. Então eu entendo como isso pode passar despercebido aos olhos dos outros.
A sociedade seria muito mais segura se todos soubessem identificar os sinais mais perigosos.
Porque, em um dia afastado no seu quarto, a depressão se tornou insuportável.
E Léo era um menino muito forte. Absurdamente forte. O fato de ter buscado ajuda, sozinho, sem contar a ninguém prova isso.
Mas a depressão, infelizmente, também é forte.
E às vezes a porrada dela é muito forte. Ainda mais quando se tem a ansiedade segurando.
E dentro do quarto, as duas atingiram um pico que Léo não suportou. Não porque ele era fraco. Mas porque a depressão conhece as fraquezas de cada pessoa. A ansiedade sabe o local que deve atingir.
Quando seus pais o encontraram, não tinha mais o que fazer.
Tudo porque, aparentemente, estava tudo normal.
