Por Alice Silva, Felipe Domiciano, Isabela Conceição, Larissa Macedo e Maria Rita Borges

Transmissão da Copa do Mundo na tradicional Rua da Cachaça em São João del-Rei. Reprodução: Prefeitura de São João del-Rei

Em 1970, pela primeira vez, o povo brasileiro assistiu a Copa do Mundo em tempo real graças a rede Globo, dali em diante, desenhou-se um império, ao falar de futebol, obrigatoriamente, falar de Globo. 54 anos depois, o cenário mudou drasticamente. Na copa do mundo de 2026, a maior da história em número de participantes quanto em número de jogos, o império quase inabalável no passado foi questionado pelo canal do YouTube CazéTV, que atualmente detém os direitos de transmissão.

Enquanto a gigante da TV aberta divide uma fatia de 55 jogos com SBT e NSPORTS, o canal do YouTube fundado na Copa de 2022 assumiu o protagonismo da transmissão digital gratuita, transformando o mercado de mídia esportiva em um verdadeiro campo de batalha milionário. Por trás das câmeras opera a LiveMode, empresa fundada por Edgar Diniz e Sergio Lopes e que tem como sócio Casemiro.

Para entender o sucesso atual, é preciso voltar dez anos no tempo. Edgar, Sergio e Casimiro trabalhavam juntos no antigo Esporte Interativo. Lá, enquanto a Globo detinha os direitos dos campeonatos nacionais, eles apostaram na descentralização, transmitindo ligas europeias. Em 2015, a Turner comprou o canal rebatizado de TNT Sports. Casimiro continuou na linha de frente, mas os executivos saíram em 2017 para fundar a LiveMode pois a visão deles era clara, clubes e federações brasileiras não sabiam monetizar o ambiente digital. Eles vendiam os direitos para uma grande emissora, pegavam o cheque e ignoravam as redes. A proposta da LiveMode foi fragmentar esses direitos, vender fatias para TV, Streaming e YouTube, para multiplicar a receita total. E em 2021 a estratégia se provou correta, assumiram o Campeonato Paulista, elevando sua receita em 40%.

O grande ponto de virada aconteceu em 2020, quando a Globo, até então dona do monopólio de transmissão, entrou em crise financeira e pensando em cortes de custos pediu à FIFA uma revisão dos direitos de transmissão. Nas negociações, a emissora carioca abriu mão dos direitos digitais da Copa, que não pareciam tão importantes na época.

A LiveMode enxergou a brecha jurídica e apresentou um projeto ousado diretamente à FIFA, que aceitou o acordo por valores considerados “simbólicos”. A CazéTV nasceu oficialmente no dia da estreia do Brasil na Copa de 2022 (contra a Sérvia). Sem estrutura consolidada ou histórico de audiência, o canal surpreendeu o mercado ao bater 7 milhões de espectadores simultâneos nas quartas de final daquele ano.

O que era considerado apenas um improviso em 2022 transformou-se em uma operação internacional em 2026. Em 2024, a LiveMode recebeu investimentos dos fundos XP e General Atlantic, garantiu a transmissão das Olimpíadas de Paris, a Copa do Mundo Feminina de 2027 e anunciou expansão de suas operações para Portugal. A importância da CazéTV extrapolou os limites jurídicos e a quebra do monopólio televisivo, gerando um profundo impacto social: a democratização real do acesso ao conteúdo esportivo. O projeto redefiniu quem, de fato, pode assistir aos grandes eventos no país.

Por décadas, acompanhar competições internacionais exigia assinaturas de TV paga ou pacotes fechados de streaming. Essa democratização do acesso ao futebol, impulsionada pelas novas plataformas digitais, vai muito além da gratuidade e da quebra do monopólio da TV aberta, ela passa, fundamentalmente, pela transformação da linguagem e da experiência de quem assiste. Na CazéTV, essa mudança é liderada por profissionais que vivenciam o esporte sem as amarras dos padrões tradicionais. Para o time do canal, o sucesso desse modelo descentralizado se apoia no fato de que o brasileiro ficava completamente excluído porque nenhuma emissora tradicional se interessava em adquirir os direitos de transmissão, mas a CazéTV inverteu essa lógica. Ao eliminar o pedágio financeiro das assinaturas e falar a linguagem da internet, o canal passou a oferecer, de graça, eventos que antes eram restritos a uma parcela privilegiada da população.

Essa democratização do acesso ao futebol, impulsionada pelas novas plataformas digitais, vai muito além da gratuidade e da quebra do monopólio da TV aberta, ela passa, fundamentalmente, pela transformação da linguagem e da experiência de quem assiste. Para o time do canal, o sucesso desse modelo descentralizado se apoia em dois pilares: a interatividade em tempo real e a liberdade de serem na tela exatamente os mesmos amigos apaixonados por futebol que estão nos bastidores.

Em entrevista com jornalistas e narradores da CazéTV, essa logico se torna mais clara. Para Bruno Magalhães, fazer parte das transmissões da CazéTV traz uma responsabilidade imensa, especialmente ao registrar picos de audiência que chegam a 6 milhões de pessoas simultaneamente. Citando Belchior para lembrar que “o novo sempre vem”, ele enxerga o streaming não mais como o futuro, mas como o presente como uma nova forma de consumir conteúdo. Bruno destaca que o grande diferencial é a autenticidade, uma característica que é incentivada desde a contratação do elenco, a liberdade para que todos sejam no ar exatamente o que são fora dele transforma a transmissão em uma verdadeira roda de amigos.

Raony Pacheco pontua que a CazéTV está perfeitamente inserida no contexto da modernidade tecnológica e do movimento “on demand”, permitindo ao público acessar a informação onde e como quiser. Ele relembra que essa jornada começou lá atrás, nas transmissões de Casimiro na Twitch, e se consolidou na Copa do Mundo de 2022, quebrando a barreira de que era preciso estar em casa para ver o jogo. Para ele, o maior trunfo da plataforma é a interatividade, ao ler as mensagens dos espectadores ao vivo, o canal transforma o público em parte do processo. Raony compara o clima das transmissões ao ambiente saudável de um “papo de bar”, focado em prender a atenção do espectador e transmitir uma emoção tão intensa e física.

De dentro da cobertura, Luis Folha confessa que a rotina intensa de estudos e preparação para a Copa do Mundo torna difícil a tarefa de parar para pensar e mensurar o tamanho real da transformação que estão promovendo. Ainda assim, ele define como uma honra fazer parte de um projeto que representa uma verdadeira quebra de paradigmas ao entregar o maior evento de futebol do mundo de graça, na internet, e para milhões de brasileiros. Aponta também que embora a responsabilidade e a cobrança de uma Copa exijam muitas horas de trabalho, o empenho coletivo compensa.

Um dos pilares para entendermos o grande sucesso da CazéTV e seu diferencial da Globo é a mudança no foco da tela, enquanto nas mídias tradicionais o jogo é o único protagonista, na Cazé a reação humana ao jogo divide o protagonismo com a bola em campo. Essa estratégia se baseia em um formato da internet que consiste em consumir um conteúdo através das expressões e sentimentos de outra pessoa. Na prática, ela começa na própria disposição visual da transmissão, enquanto o padrão da Rede Globo preza pela sobriedade técnica focando no campo, com replays sob ângulos calculados e o narrador com uma voz mantida, a CazéTV adota a tela dividida como sua linguagem principal nos momentos mais emocionantes.

Esse formato dinâmico conquista o público mais jovem, na faixa dos 18 a 27 anos. Em um levantamento de realizado no jogo do Brasil contra o Haiti em bares de São João del-Rei, das 81 pessoas entrevistadas, 45 declararam preferir a CazéTV, justificando a escolha pela forte identificação com o estilo dos narradores, enquanto a Rede Globo contou com apenas 9 votos de preferência.

Nas repúblicas tradicionais são joanenses, por exemplo, o consumo dos jogos mudou de plataforma e de tela. Para os estudantes, a quebra de paradigmas mencionada pelos narradores se traduz na criação de um ecossistema onde o telespectador deixou de ser um mero espectador passivo para se tornar o centro de uma experiência interativa, autêntica e, acima de tudo, acessível.

Para os moradores da República Infiltrados de São João del-Rei, a preferência pelas transmissões da CazéTV acontece pois enquanto a emissora carioca mantém um formato padronizado há mais de 50 anos, o Canal do Youtube aposta em uma interatividade que aproxima o público. O grupo também é unânime ao avaliar que as tentativas da TV aberta de rejuvenescer sua linguagem parecem forçadas e que, para eles, a Cazé possui uma essência espontânea difícil de ser utilizada pela concorrência.

O peso da narração também é visto como o fio condutor da experiência. Segundo Miguel (Cavaco), a qualidade dos narradores é o fator decisivo para prender a atenção do público e conduzir a emoção do jogo. Por fim, João Álvaro (Luva) e João Victor (Mimosa) ressaltam que essa disputa pelo mercado traz benefícios globais e sem precedentes para o espectador. Eles citam como exemplo a transmissão gratuita de ligas internacionais, como a “Ligue 1” francesa, que atraiu até mesmo estrangeiros usando VPN para acompanhar os jogos de graça pelo sinal brasileiro. Para os estudantes, o resultado dessa concorrência é a busca contínua pela excelência, garantindo uma entrega de maior qualidade técnica e de conteúdo diretamente para o bolso do consumidor.