“Além de um corpo de água doce”: entrevista com Priscila Faria
Por Alessandra Silva, Isabella Silva e Giovana Alves
Revisado por Lídia Oliveira

Foto: Alessandra Silva
Em um mundo onde as telas atraem a atenção dos jovens, isolando-os da realidade, encontrar o apego ao físico se tornou um ato de resistência. Sob essa premissa, tecida em uma poesia sensível, a autora Priscila Faria constrói nas páginas de seu novo livro, “Nesse corpo de água doce”, sua vivência através de palavras.
Tendo gosto pela escrita desde a infância, Priscila declara que a profundidade poética surgiu apenas durante sua graduação. No entanto, conforme a vida acontecia, a prática deixou de receber sua atenção, colaborando até mesmo para o fim de um blog de sua autoria. Graduada em licenciatura, ela não deixou de ter contato com as letras, mas foi apenas entre o final de 2023 e o início de 2024 que surgiu a necessidade de olhar novamente para aquela parte guardada de si e lhe dar vazão.
Aproveitando-se do alcance das redes sociais, a professora criou o perfil no Instagram “@prilirismo”. Ali, passou a publicar suas poesias, alcançando engajamento suficiente para começar a planejar a publicação de um livro. Em janeiro de 2026, Priscila finalmente reuniu textos originais para costurar sua primeira obra. “Nesse corpo de água doce” aborda temáticas de persistência em tom de denúncia e resiliência perante as violências, as descobertas e as adversidades do universo feminino. Coincidentemente, a água é um elemento presente em cada poema, trazendo os diversos movimentos que marcam a transição e a narrativa de uma menina que se torna mulher, dando origem, assim, ao título da obra.
Para Priscila, conciliar a jornada de professora com a jornada de escrever um livro de poemas com vivências tão pessoais e, ao mesmo tempo, tão identificáveis, não foi nada fácil. Além da vida dentro do trabalho, existiu também a vida de mãe e de quem estava em um movimento de querer organizar e publicar o livro. “Um dos fatores, além da autossabotagem, foi sobretudo a questão de tempo mesmo. Esse cansaço da rotina, de conciliar todas as questões, e de bancar isso, falando ‘não, espera aí, é um sonho e eu me autorizo. Vou me permitir gastar esse tempo’, que nas férias eu pude ter”, explicou a escritora. Foi durante as férias de janeiro que ela pode se dedicar a mergulhar dentro de casa para escrever e editar a ordem dos poemas. A escrita dos poemas demandava um menor tempo para virem à superfície, então a autora muitas vezes escrevia, fosse no celular ou em papel, as ideias que surgiam, o que facilitava a produção e essa conciliação.
Quanto à maternidade contribuir para moldar a visão da poesia feminista no cenário atual, Priscila diz que ser mãe fortaleceu isso, mas já era uma visão existente. Alguns dos poemas contidos no livro já estavam separados há mais de 10 anos. “Muito antes dessa existência da maternidade, da minha relação com esse corpo que gesta e lida com essas questões, e sendo mãe de uma menina, algo que influencia muito nessa questão de feminismo, já existia”, comentou. Como professora de ensino médio, há uma ambivalência na visão, mista entre esperança e certo temor, ainda mais com o aumento de meninos sendo influenciados pelos grupos incel e redpill na internet. Por outro lado, é possível ver que, em principal meninas, os estudantes estão mais engajados e atentos. Conforme Priscila explica, “a literatura, durante muito tempo, não teve espaço para que essas questões aparecessem. Então, quando começamos a ter esse espaço, é um movimento natural que haja interesse. Mas é uma resistência, visto os índices absurdos de violência que seguem”.

É algo que reflete também no mercado de trabalho, como é dito por ela ao responder sobre quais são os maiores desafios enfrentados por ela ao ser uma mulher que escreve poesia combativa em um mercado que privilegia há gerações as vozes masculinas. “Me veio um receio do livro ser visto só como relato pessoal, ou reduzido a um discurso panfletário ou não ser visto como literatura pelos temas que partem, muitos deles, dessa vivência íntima e também do meu olhar sobre o que está acontecendo”, diz a poetisa. Priscila vê, com a mesma esperança, uma mudança significativa em como, apesar da grande maioria dos escritores serem homens, está surgindo um espaço.
A escritora ressalta que “por isso é importante bater o pé e continuar fazendo, pois a condição humana é o tema da arte e da literatura. E, durante muito tempo, foi a condição masculina, o seu olhar, o seu entendimento das coisas, do casamento, da guerra, da economia, que era visto como um olhar universal. E a gente ficou delegada ao movimento de não poder falar, e quando falamos, nos segregaram ao campo da cozinha também. Hoje falam ‘ah, isso aqui é tema de mulher, é leitura de mulher.’ É literatura feminina não no sentido bom, mas no sentido reducionista. É impossível falar sobre esses temas sem ser com esse olhar e esse corpo que tenho. Como eu não vou falar das coisas do mundo a partir desse corpo que vivo? Um homem que vai pra guerra escreve um texto sobre essa experiência. Então temos que ter também essa voz e buscar essa liberdade”.
O recebimento do livro entra para essa mudança positiva, embora não linear, da literatura feminina. Ao continuar explicando sobre suas dificuldades e receios, Priscila menciona que “além de uma recepção legal, o livro tem sido bem movimentado. Mas sei que ele pode encontrar esses muros e arestas, que talvez pudesse ser outro movimento se fosse de temas mais confortáveis, porque não é um livro doce. O primeiro poema, o último escrito para o livro inclusive, chega com uma pedrada. Ele dá um choque ao falar de temas tão delicados que a sociedade não quer falar sobre. De violência, de abuso sexual, infantil ou com adultas, toda essa carga mesmo que vivenciamos, repressões religiosas e familiares. São temas porosos. Mas acho que estamos em um bom caminho de, pelo menos, poder resistir e poder bancar”.
Relembrando que São João del-Rei ainda é, infelizmente, uma cidade muito conservadora, a escritora discute se é possível ver a aceitação do livro também por parte do público local. Para Priscila, sim. “A maioria é mulher. Além das questões de conservadorismo, essa unificação é possível de ser feita pelas temáticas. Talvez isso gere identificação. Mas tive medo, principalmente por ser professora de escola pública e de adolescentes”. Na experiência como professora, relata, uma aluna mostrou que leu e achou uma leitura pesada, mas também teve uma aceitação que surpreendeu a autora. Os livros enviados pela editora esgotaram, e, mesmo com a bolha de conhecidos dela indo prestigiar o trabalho, teve um público significativo.
Essa identificação já se inicia no processo de escrita. Ao discorrer sobre quais vozes femininas a inspiram, Priscila responde que todo mundo. “Você, minha aluna, a menina que saiu no jornal, minhas amigas, minha mãe, minhas avós, minha irmã. É absurdo porque a gente passa pela vida tendo uma coleção de histórias, de violências e de coisas pesadas. Então, achar uma inspiração é muito fácil”. Para a poetisa, basta olhar para o lado. Está no nosso cotidiano. Na literatura contemporânea, a escritora também encontra inspirações, no entanto, é essa abrangência encontrada no ato de olhar para o lado que impacta ainda mais. Abraça e humaniza a escrita, conforme afirma a autora.
Ainda sobre esse tema, Priscila pontua como está sendo a experiência de impactar com a escrita as mulheres, sejam mães adultas ou garotas mais novas. Não havia, por parte da autora, essa pretensão de impactar especialmente mulheres: “sobretudo, a pretensão era impactar homens e a sociedade em um geral. Imaginei que ia ecoar mais profundamente em mulheres e até em lugares de dor e de gatilho, mas me surpreendeu que, para muitas, também impactou nesse lugar de fortalecimento”. O processo de publicar também gerou em Priscila uma motivação para continuar: “é um cansaço isso de publicar livro, requer muita dedicação, ainda mais para escritor independente. Mas, passada toda essa adrenalina do lançamento, vejo que impactou a minha escrita como um convite maior”.
A educadora reflete sobre como a sociedade quer que mulheres duvidem de sua capacidade e como isso a afetou. Mestranda em Letras, Priscila teve um contato maior com a crítica literária: “achava que ali talvez não me coubesse. E tinha delegado muito da minha produção literária para um lugar terapêutico e íntimo. Ter passado por esse processo de publicação trouxe um maior incentivo. Na vida pessoal, a cada leitor que comenta, o livro vira outra coisa e eu viro outra pessoa. O texto ganha um corpo e eu aprendo com aquela leitura”.
Acerca da vida como professora, é perguntado sobre como ela enxerga hoje a geração que ensina. Ainda mais se há esse consumo de literatura por parte das meninas, além do citado. Ao ver da escritora, existe sim o interesse, apesar de pouco. “É nítido que a maioria dos leitores em sala de aula são as garotas, são poucos os meninos que vejo lendo”, comenta. “É também devido a uma escassez de material mesmo. Na escola pública, não se pode exigir que o aluno compre os livros, e a biblioteca não tem exemplares para todos. De novo entra o legal da poesia, do conto, da crônica, da letra de música. A gente consegue trazer isso de forma democrática e mais acessível”, acrescenta.
Com esse olhar esperançoso, justo e feminino para o presente que molda o futuro, Priscila traz um rio de falas importantes sobre feminismo, poesia, vivências femininas e resistência dentro de cada ambiente em que vivemos, destacando como é preciso olhar para o lado e enxergar de verdade. Ainda neste mês, do dia 22 a 26, ela estará na mesa 5 da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – participando da programação e autografando seu livro “Nesse Corpo de Água Doce”.
Outros poemas podem ser lidos em seu Instagram, o @prilirismo.
