Por Victor Rafael e Vitor Romero

O artista plástico Guimarães e Caetano ganhou destaque recentemente por expor suas obras na cidade histórica portuguesa de Guimarães. Por meio da Feira da Passagem, conseguiu levar seu trabalho para a nação europeia, que possui um significado especial para o artista. 

Segundo ele, levar uma arte que retrata os escravizados para um país colonizador significa ainda mais. Para ele, o sentimento atrelado equivale a uma forma de resposta. “Ser um artista negro que investiga arte negra no Brasil, um país que renega sua história, é muito complexo. Ver que o meu trabalho era reconhecido e minha linguagem era compreendida através da imagem em outros países me deu a certeza de estar no caminho certo, de que estava fazendo algo maior do que só meus desejos pessoais.”

Seu trabalho foca em reconstruir representações negras na arte entre os séculos XIV e XX, dentro de uma abordagem decolonial e afrofuturista. Ele utiliza da sua arte como forma de repensar a vivência negra, afastando-se de linguagens que possam reproduzir apenas a escravidão, apresentando de forma digna e justa esses homens e mulheres como indivíduos, não os resumindo a pessoas escravizadas. 

Para escolher a obra que seria exposta, Guimarães e Caetano optou por obras que apresentassem negritudes representadas nos séculos passados em uma perspectiva positiva, “longe das típicas representações de pessoas negras do passado sempre em situações subalternas ou violentas.” 

Três obras fizeram parte da exposição. A primeira, chamada de Nossa Senhora dos Pretos, retrata Nossa Senhora, em uma construção diferente da habitual. A segunda obra, As Preces de Zacarias, é uma releitura de uma pintura de escravizado acorrentado, que foi atualizada pelo artista retirando as correntes, como uma forma de demonstrar a identidade e a vida além da escravização. 

Obra exposta em Guimarães, Portugal
Imagem: Feira da Passagem

A terceira obra, batizada de Mãe de Maria, é a representação da maternidade negra, como ela é negligenciada e ignorada, não só nos dias atuais, mas desde os períodos da colonização. Segundo Guimarães e Caetano, as mulheres negras foram e seguem sendo agentes essenciais para o desenvolvimento da nossa sociedade nos mais diversos aspectos.

Obra exposta em Guimarães, Portugal
Imagem: Feira da Passagem

Na avaliação do artista, a recepção das obras em Portugal foi mista. Considerada como a primeira cidade do país, Guimarães possui um perfil bastante conservador e pouco progressista. O artista considera que a aceitação do público português foi seletiva, que mesmo que não tenha se sentido excluído, ele acredita que o tema da escravidão “é tocar em uma ferida que muitos não querem mexer.” Em sua visão, o público brasileiro é mais aberto e disposto a tocar no tema da escravização do que em Portugal, em que isso é um tabu maior. 

Entretanto, ser reconhecido internacionalmente, de acordo com ele, é uma afirmação de que seu trabalho efetivamente fala de algo necessário e importante. Para que a sociedade avance de forma justa, é necessário falar da escravização, em que tais grupos sejam devidamente reconhecidos. 

O artista também traz uma reflexão sobre a dificuldade das artes no Brasil. Por ser um país muito grande e com pouco investimento e valorização da arte e do artista, muitas vezes o brasileiro só valoriza sua arte quando outra nação ou povo o faz primeiro. Segundo ele, “a arte brasileira conquistando outros territórios é uma afirmação de nossa competência e qualidade, que não somos inferiores a nada e temos uma cultura plural e excepcional.”

Por fim, Guimarães e Caetano resumiu a exposição em uma única palavra: sonho. Ele também convidou a todos a apreciar, repensar e se movimentar para uma construção de um ideal de sociedade em que pessoas negras recebem a justiça que lhes é merecida.