Por Vincent Otoni 

No último domingo, dia 31, o centro cultural Kilombo Urbano foi sede para um encontro de jovens ativistas e membros da comunidade, em sua maioria negra, de São João Del Rei. O encontro contou com estudantes, militantes e ouvintes que se uniram para conversar sobre vivências e experiências diferentes e compartilhadas sobre o ser cidadão, estudante e negro em diferentes esferas e ambientes no país. Com direito a roda de conversa e uma oficina artística de stencil, o domingo foi um dia de muitas trocas valorosas.

Os convidados, cada um falando um pouco sobre sua área de atuação, trocaram olhares sobre experiências parecidas em lugares diferentes e trouxeram questões, desde as mais banais, até pontos e questionamentos complexos sobre o andamento dos movimentos de luta da região das vertentes. Uma das  convidadas a abrir a roda foi Mayane Ávila, mulher trans e travesti, acadêmica de letras na UFSJ, também poetisa, atua na construção de espaços de discussão e valorização da cultura negra e ancestralidade. Mayane é, além disso, vice-presidente do movimento negro de São João Del Rei e trouxe um pouco dessa visão na conversa, mesclando reflexões sobre os ambientes da cidade e as experiências neles.

Quem também agregou a conversa foi o convidado Paulo Vinicius, militante da Frente Negra Revolucionária da UFRJ e do União Popular, o estudante trouxe algumas comparações sobre vivências, pautou custo de vida nas cidades mineiras e acesso à educação e informação de qualidade, falando sobre o Jorna Verdade, iniciativa que reúne vários jornalistas e escritores independente para fornecer um jornal cultural e político a nível nacional por preço acessível. Quem complementou a fala de Paulo, foi o próprio Dell Ribeiro, organizador do Kilombo Urbano, graduado em letras e comunicação social pela UFSJ, que trouxe outros pontos sobre a realidade social na educação e a importância de se cultivar o interesse das novas gerações.

No ponto de vista artístico, a discussão começou a se moldar com João Costa, ou como é bem conhecido na cena de São João, Dasein, o MC é  produtor cultural do Movimento Negro e um dos organizadores da Batalha da Estação. O artista trouxe tópicos como expressão e verdades, e mostrou como a teoria que ele aprende no curso de filosofia da UFSJ pode se moldar com rimas e alcançar cada vez mais pessoa

Esse mesmo alcance foi foco da contribuição de Pedro Henrique, ou Pedreira, como é conhecido nas rodas de capoeira onde atua, capoeirista e estudante de Educação Física também pela UFSJ, o membro do grupo Cativeiro Capoeira, ministra aulas para crianças da cidade e conecta de forma prática a vivência e a expressão. Tudo que é corporal passa a ser sentido de perto nas lições segundo Pedro, que além desse, costuma se envolver em projetos sociais, culturais e educacionais, como a participação da roda de conversa.

Quem fechou a parte do bate-papo cultural foi a Nathalia Mathias, estudante de letras e coordenadora do Kilombo Urbano, que deu alguns exemplos e contrapontos sobre representações de histórias, principalmente na literatura, seu objeto de estudo, explicando com grandes pensadoras pretas, a relação e a ausência de uma representação humanizada de negritude, entre as obras brasileiras, que segundo ela, deixam muito a desejar ainda. 

Do ponto de vista ambiental, Ederson Neri, graduado em física, trouxe um pouco da sua experiência com ativismo na pauta ambiental e principalmente socioambiental, exemplificando a ponte entre lutar por um mundo mais ecológico e entender que essa luta também permeia o meio social, que por sua vez, acaba entrando no racial.

As conversas foram leves, mesmo se tratando de temas profundos, e entre risadas, reflexões e momentos de aprendizado, a equipe encaixou um lanche e várias trocas culturais de forma orgânica. O dia encerrou com uma dinâmica aula sobre stencil para peças de artes, ministrada pela Camila Menezes, artista de rua, circo e artes visuais, que desenvolveu um belo trabalho sobre expressão coletiva e artes práticas.