Violência contra a mulher avança também no ambiente digital
Por Ana Clara Reis, Danielle Medeiros, Lucas Simões e Rafaela Nery
Apesar de avanços legais, como a Lei Maria da Penha, as mulheres ainda permanecem expostas a múltiplas formas de violência. No Brasil, os dados mais recentes reforçam a gravidade do problema. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o país registrou 1.467 feminicídios em 2024, além de mais de 83 mil casos de estupro. Os números evidenciam que a violência de gênero segue estrutural e persistente, ao mesmo tempo em que se adapta às transformações sociais e tecnológicas.

Violência digital amplia o alcance das agressões
Esse cenário preocupa especialistas, sobretudo pela mudança nas formas de agressão. Para além da violência física, psicológica e patrimonial, cresce o número de casos mediados por tecnologias. Práticas como perseguição virtual, divulgação de imagens íntimas sem consentimento, monitoramento de redes sociais e ameaças online têm se tornado mais frequentes, ampliando o alcance da violência e mantendo a vítima sob constante exposição, mesmo à distância. A exigência de senhas de redes sociais, o monitoramento de mensagens, a invasão de privacidade e as ameaças virtuais passam a ser sinais deste tipo de violência.
A dificuldade de denunciar e romper o ciclo da violência
Raphaella Abreu, 25 anos, advogada e presidente da Comissão das Mulheres da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção de São João del-Rei, decidiu atuar na defesa das mulheres após presenciar de perto o sofrimento de vítimas de violência doméstica. Segundo ela, além da dependência financeira, a ausência de redes de apoio eficientes está entre os principais fatores que dificultam a denúncia e o rompimento do ciclo de violência.
A advogada também detalha os cinco tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha. A violência física, considerada a mais perceptível, envolve agressões e danos ao corpo; a psicológica inclui ameaças, manipulação, humilhações e chantagens que afetam o emocional da vítima; a sexual é caracterizada pela imposição de relações sem consentimento, inclusive dentro de relacionamentos, além de práticas como impedir o uso de métodos contraceptivos; a moral ocorre por meio de ofensas, difamações e tentativas de manchar a reputação da mulher; e a patrimonial, que, segundo Raphaella, ainda recebe pouca visibilidade.

Sobre a violência patrimonial, a advogada chama atenção para situações em que o agressor controla os bens e a vida financeira da vítima, limitando o acesso ao dinheiro, controlando gastos, retendo documentos ou impedindo sua autonomia financeira. Ela destaca que esse tipo de abuso afeta mulheres de todas as classes sociais, desde aquelas em situação de vulnerabilidade econômica até mulheres independentes financeiramente e em posições de destaque profissional.

Iniciativas de apoio às mulheres em São João del-Rei
Em São João del-Rei, iniciativas buscam enfrentar o problema de forma integrada. O projeto Elas por Elas, criado por antigas presidentes da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB São João del-Rei, oferece orientação jurídica gratuita em diferentes áreas, como previdenciário, direito trabalhista, familiar e também em casos de violência contra a mulher.
A ação acontece quinzenalmente em bairros mais vulneráveis da cidade, tornando o suporte jurídico mais acessível a mulheres em situação de fragilidade. Raphaella destaca também a parceria com o Tribunal de Justiça, por intermédio do Centro de Conciliação e Mediação (CEJUSC), que concede a realização de mediações de casos como divórcio e pensão diretamente nos bairros, com homologação judicial, sem a necessidade de contratação de advogado ou atuação da Defensoria Pública.
Projeto Elas por Elas, promovido pela Comissão das Mulheres Advogadas da 37ª Subseção da OAB/MG. Foto: Reprodução Instagram | @raphaellaabreuadv
O caso Marluce Guimarães
A doutora explica que São João del-Rei está em processo de oficialização do Núcleo Intersetorial de Combate às Violências, uma iniciativa inédita no município que já atua de forma integrada. O grupo reúne representantes de diferentes instituições, como Saúde, Assistência Social, Educação, OAB, Defensoria Pública, Ministério Público e forças de segurança, com o objetivo de fortalecer o combate à violência contra as mulheres. Segundo Raphaella, a proposta é promover ações conjuntas, diálogo permanente e estratégias compartilhadas para tornar o atendimento às vítimas mais eficiente.
Um dos casos de maior repercussão na região foi o de Marluce Guimarães, de 30 anos, natural de São João del-Rei, que sofreu uma tentativa de feminicídio cometida pelo ex-namorado. O episódio aconteceu durante uma ida do casal a um motel da cidade, onde uma discussão evoluiu para uma agressão brutal. Segundo Marluce, o agressor a atacou com golpes de capacete, fazendo com que ela desmaiasse. Mesmo desacordada, ela continuou sendo agredida, o que a deixou em estado grave.
Durante a agressão no motel, foram as funcionárias do estabelecimento que ouviram os pedidos de socorro e acionaram ajuda. Marluce ficou em coma, passou por cirurgias e só compreendeu a gravidade do ocorrido dias depois
Ela conta que aquela não havia sido a primeira situação de violência vivida durante o relacionamento. Antes do episódio quase ter tirado sua vida, ela já havia sofrido outras agressões físicas e psicológicas. “Ele me bateu no começo do ano passado, no início da nossa relação. Fez uma vez, fez a segunda e agora fez a terceira, que foi quando ele quase me matou”, afirma.
Além das agressões físicas, a vítima conta que convivia constantemente com comportamentos agressivos, ciúmes excessivos, manipulação emocional e pressão psicológica, fatores que a colocavam em situação de vulnerabilidade dentro da relação. “Ele sempre tinha um argumento mais alto, num patamar mais alto que o meu”, relata.
Após o episódio, Marluce permaneceu internada por cerca de dois meses e chegou a ser transferida para atendimento especializado com suspeita de traumatismo craniano. Atualmente, ainda enfrenta consequências físicas e emocionais da violência, incluindo dificuldades para caminhar e traumas psicológicos.
Além das consequências físicas, Marluce também relata os impactos emocionais e sociais deixados pela violência. Segundo ela, o período após a agressão tem sido marcado por traumas, insegurança e dificuldades no convívio social. “É muito difícil na rua. As pessoas olham, comentam, fofocam… isso me incomoda muito”, desabafa.
Enquanto aguarda o julgamento do agressor, Marluce utiliza sua história como forma de alertar outras mulheres sobre os sinais da violência dentro de relacionamentos. Para ela, o medo ainda impede muitas vítimas de denunciarem.
“Não tenha medo de falar com alguém. Nem que não consiga falar com a polícia naquele momento, fale com alguém de confiança. Quando a mulher vê que tem algo errado, precisa procurar ajuda”, finaliza.
Educação e conscientização como formas de enfrentamento
A médica de família e comunidade e docente do setor de Medicina da Universidade Federal de São João del-Rei, Tatiana Miranda, destaca que, apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, a violência contra a mulher ainda está profundamente enraizada na estrutura social brasileira. “Não é possível negar que houve avanços. Eu acho que não podemos esquecer o esforço o quanto essas mulheres lutaram para que a gente estivesse aqui”, afirma.
Segundo ela, compreender o problema passa por reconhecer que a violência de gênero não se limita a episódios isolados, mas está ligada a questões históricas e culturais. “Nossa sociedade é estruturada pelo machismo, pelo patriarcado e pelo racismo”, ressalta. Para a especialista, essas estruturas ajudam a perpetuar diferentes formas de violência, inclusive aquelas que hoje se manifestam no ambiente digital.
Tatiana também chama atenção para a importância da educação no enfrentamento do problema. Ela lembra que a Lei Maria da Penha representou um marco ao ampliar o entendimento sobre os diversos tipos de agressão sofridos pelas mulheres. “Hoje em dia nós temos a Lei Maria da Penha, mesmo não sendo perfeita nos ajudou a nomear as violências. Dentro da lei tem a parte sobre a importância dos processos educacionais e isso é algo necessário para relação entre homens e mulheres”, explica.
Para a docente, o combate à violência exige não apenas mecanismos de punição, mas também ações contínuas de conscientização e educação, capazes de transformar comportamentos e impedir que práticas abusivas sejam naturalizadas, inclusive nas relações mediadas pelas redes sociais e pelas tecnologias digitais.
Em um cenário em que a violência contra a mulher ultrapassa as barreiras físicas e se expande para o ambiente digital, o enfrentamento do problema exige respostas que acompanhem essa transformação. Mais do que ampliar leis e punições, especialistas apontam para a necessidade de fortalecer redes de apoio, investir em educação digital e ampliar o acesso à informação, para que vítimas consigam reconhecer e denunciar essas novas formas de agressão.
A violência também opera por trás das telas
Diante de um fenômeno que se adapta às tecnologias e se infiltra no cotidiano, o desafio não está apenas em combater a violência, mas em torná-la visível em todas as suas formas. Afinal, quando não é reconhecida, a violência continua operando, também por trás das telas.
