FLITI aproximou leitores e autores de diferentes gerações em Tiradentes no último sábado
Por: Maria Luiza Pereira e Silva

Foto: Maria Luiza Pereira e Silva
O sábado (9) da FLITI – Feira Literária Internacional de Tiradentes contou com mesas que reuniram diferentes debates sobre literatura e sociedade. Nossa reportagem esteve presente e acompanhou os destaques da programação.
Contando com nomes como Hélio de la Peña, Beto Silva, Ana Maria Machado, Thalita Rebouças, Ana Paula Araújo, Cissa Guimarães, entre outros, o evento, que teve início às 10h, contou com um público diverso. Além de acompanhar as mesas e conversar com os autores, os visitantes também puderam conhecer e adquirir títulos lançados e comentados durante a programação, além de outras obras disponíveis nas bancas das livrarias presentes ao longo de toda a feira.
Conversamos com Maria Helena, responsável pela livraria Ler & Cultura, que contou um pouco sobre o processo para levar a banca ao evento. A empresária afirmou que soube da feira por meio de uma autora e que este foi seu primeiro ano na FLITI. Apesar disso, relatou já trabalhar há 40 anos com feiras de livros e elogiou o suporte oferecido pela organização do evento.
Falamos também com Lucas dos Anjos, integrante da produção do evento, que explicou como funciona a montagem e a organização da FLITI. Segundo ele, a estrutura leva aproximadamente 15 dias para ser montada, mas o planejamento começa muito antes, já que depende da liberação das datas pela prefeitura e dos prazos dos editais nacionais, que precisam seguir um cronograma específico. Por isso, a organização da edição seguinte começa pouco tempo após o encerramento do evento.
Lucas também explicou como foi feita a divisão dos espaços da feira, com dois palcos localizados na Praça da Rodoviária e outro espaço em frente à Igreja das Mercês. O produtor contou ainda que o Ônibus Literário, que possui uma biblioteca em seu interior, tinha como público-alvo as crianças. Por esse motivo, a organização decidiu posicioná-lo em um espaço separado, evitando distrações causadas pelas mesas de debate.
Além disso, Lucas comentou sobre a movimentação do público durante os dias de evento. Segundo ele, a produção ficou surpresa com o fluxo de pessoas já na abertura, realizada na quarta-feira (6), já que a expectativa era de que o maior público comparecesse apenas na sexta-feira e no sábado. Apesar do bom movimento nos dois dias, o produtor acredita que a participação poderia ter sido ainda maior, atribuindo isso à proximidade do feriado de Dia das Mães, comemorado no domingo.
Encontramos também o clube do livro Leitoras de Minas e conversamos com Luana, uma das integrantes do grupo, que veio de Belo Horizonte especialmente para o evento. O clube, que surgiu durante a pandemia com apenas seis participantes e hoje conta com mais de 50 integrantes, participou da FLITI pela primeira vez.
Segundo Luana, as integrantes estavam animadas com a experiência, já que a programação diversificada permitia que cada uma acompanhasse mesas e temas de seu interesse, além da oportunidade de conhecer autores que já eram fãs.
Entre os visitantes, estava uma turma vinda de Bicas (MG). Conversamos com a professora Ariane, que, junto a outros professores de português, organizou o passeio com alunos de 13 e 14 anos. Segundo ela, o objetivo da visita era incentivar o gosto pela leitura, apresentar aos estudantes o funcionamento de uma feira literária e proporcionar o primeiro contato deles com os autores.
O dia da visita, além de ter sido escolhido pela disponibilidade do transporte, também coincidiu com a participação de Thalita Rebouças, autora conhecida por suas obras infanto-juvenis. A professora destacou a empolgação dos alunos, principalmente ao perceberem que os autores, antes conhecidos apenas pelos nomes nas capas dos livros, estavam ali presencialmente. A experiência também permitiu que os estudantes conhecessem novos gêneros literários e descobrissem diferentes interesses de leitura.
A autora Luciana Gnone contou um pouco mais sobre o processo de escrita de seu livro Voz de Prisão, lançado recentemente e baseado em fatos reais. A escritora falou sobre o desafio de sair da ficção policial para narrar uma história real. Segundo ela, apesar da liberdade poética presente na escrita, é necessário manter fidelidade aos fatos, diferentemente da ficção, em que é possível conduzir os personagens e a narrativa para qualquer direção. Ainda assim, Luciana destacou que, apesar dos desafios, escrever o livro foi “uma delícia”.
A autora contou ainda que publicou seu primeiro livro em 2014 e, inicialmente, não pretendia lançar novas obras. No entanto, em 2018, voltou a sentir vontade de escrever e percebeu que esse era seu verdadeiro propósito de vida.
Com um público majoritariamente feminino, Luciana acredita que Voz de Prisão rompe um pouco esse padrão. A autora classifica suas obras como soft crime, gênero que mistura investigação e romance. Segundo ela, seus livros costumam focar mais na investigação do que no crime em si, o que acabou atraindo mais o público feminino. Ainda assim, ela acredita que o novo lançamento deve alcançar um público mais amplo devido ao tema e à força da história.
Luciana também comentou sobre o processo de adaptação de suas obras para o audiovisual. Além de Voz de Prisão, o livro Evidência 7 também está sendo transformado em filme. A autora afirmou que acredita ser esse o sonho de muitos escritores: ver seus personagens ganhando vida nas telas e ampliar o alcance de suas histórias, já que, segundo ela, a literatura ainda atinge um público mais restrito do que o audiovisual.
Também esteve presente no evento a jornalista e autora Ana Paula Araújo, que contou um pouco sobre como separar o lado pessoal do profissional ao narrar histórias tão sensíveis. Segundo ela, é natural que jornalistas se comovam, já que a empatia e a sensibilização fazem parte da profissão. Ainda assim, destacou que é necessário manter certo controle emocional diante de relatos muito pesados para conseguir realizar o trabalho, mesmo diante de histórias difíceis.
Ana Paula contou que começou a pesquisar mais profundamente sobre violência contra a mulher por causa da filha, que hoje tem 20 anos, mas tinha apenas 10 quando ela começou a refletir sobre o tema. A jornalista afirmou que, ao longo desse processo, passou a perceber como o machismo e a violência contra a mulher estão presentes constantemente no cotidiano e como mulheres passam grande parte da vida tentando se proteger, muitas vezes sem conseguir.
Por ser um tema tão recorrente, Ana Paula acredita que é necessário prestar mais atenção aos diferentes tipos de violência. “Às vezes tem tanta violência que acontece que a vítima nem percebe. Tem violência psicológica, violência patrimonial, tem alguns tipos de violência que a gente cresce achando que é assim mesmo, que a gente tem que se proteger”, ressaltou a jornalista. Segundo ela, é importante dar nome às violências e compreender o que elas realmente são.
A autora também falou sobre como escolhe os casos abordados em seus livros, todos relacionados à violência contra a mulher. Entre as histórias retratadas estão diferentes formas de violência, mulheres com filhos e os impactos dessas situações nas crianças, além de casos de vítimas que conseguiram denunciar os abusos e outras que não conseguiram. Ana Paula contou ainda que costuma acompanhar a vida dessas mulheres após as entrevistas, já que acaba criando uma conexão verdadeira com pessoas que compartilham histórias tão pessoais e dolorosas com o objetivo de ajudar outras mulheres.
O ator Paulo Betti, que esteve presente em mesas da programação de sexta-feira, também marcou presença no sábado como espectador. Ele contou que, após sua participação na sexta, assistiu à mesa de Luiz Antonio Simas e, durante o sábado, acompanhou outras quatro conversas ao longo do dia. Segundo o ator, todas foram “ótimas”, e um dos pontos que mais chamou sua atenção foi o formato da feira.
Paulo destacou que gostou da FLITI por não ser um ambiente fechado e formal, descrevendo o evento como mais leve e descontraído. Para ele, essa informalidade ajuda no desenvolvimento de ideias e permite absorver melhor as discussões e informações apresentadas nas mesas.
O ator também falou sobre a experiência de estar “do outro lado”, já que durante grande parte da carreira interpretou textos escritos por outros autores. Paulo contou que, apesar de ter escrito durante 25 anos uma coluna semanal para um jornal, nunca imaginou que poderia produzir algo mais autoral. Ainda assim, afirmou que sempre gostou de fazer anotações e registrar pensamentos.
Segundo ele, sempre existiu um grande respeito pelos autores que lhe forneciam palavras, textos e materiais para atuar. “Foi muito bacana, porque eu percebi que eu posso ser autor do que eu quero dizer, dizer da maneira que eu quero, sem precisar dizer algo que alguém está dizendo por mim. Estou cedendo o meu corpo, minha voz para algo que eu mesmo escrevi”, afirmou Paulo Betti.
O ator contou ainda que percebeu o público estimulado ao ouvir sua trajetória, incentivando outras pessoas a escreverem suas próprias histórias e as histórias de suas famílias.
A autora Thalita Rebouças, conhecida pela literatura infanto-juvenil e por diversas adaptações para o cinema e o streaming, está atualmente com a série Juntas & Separadas, no Globoplay, voltada para mulheres 40+. Em conversa com a reportagem, ela contou um pouco sobre como tem sido a recepção do público a essa nova fase de sua carreira.
Segundo Thalita, durante muitos anos seu trabalho esteve muito ligado às histórias sobre a transição da infância para a adolescência. Agora, além de conversar sobre temas ligados à menopausa e ao envelhecimento feminino, ela percebe que também passou a dialogar com outra geração de mulheres. A autora afirmou que “é muito legal” perceber que mães, antes gratas por incentivar suas filhas a gostarem de ler, hoje também agradecem por se sentirem compreendidas por meio da série ou do livro Felicidade Inegociável. Para ela, o mais bonito é perceber que agora consegue conversar com a família inteira.
Rebouças também contou que não sabe exatamente como consegue tratar temas tão sensíveis com leveza, mas acredita que essa é uma característica natural de sua escrita. A autora afirmou ainda que vive um momento muito feliz da carreira, podendo alcançar públicos diferentes e dialogar com tantas pessoas.
Thalita destacou também que muitos adolescentes passaram a compreender melhor o lado dos pais por meio de seus livros, algo que considera muito bonito. Assim, finalizando o sábado do evento.
