Normalidade do silêncio
Por Vitor Romero e Isabella Lima

Esse é só mais um dia da minha vida. Um comum, que deveria ser a normalidade. Mas, como sempre, é um dos dias que eu tô passando raiva. Entrei no ônibus que me leva ao CTAN, o que já é algo bom. Muitas vezes o motorista só passa direto do ponto deixando os alunos pra trás.
A ironia é que ele parou, mas não tinha um único lugar livre. Sempre pego meu ônibus aqui, perto da Igreja de Santo Antônio. Considerava, até então, o melhor ponto.
Mas, depois de hoje, vou começar a rever os meus conceitos de melhor ou pior ponto. Acho que isso nem deve existir, pra ser sincero. Não existe um bom e um ruim quando o transporte tá em cadência.
E assim começa meu dia. Enquanto eu faço de tudo que posso pra no futuro ter uma vida minimamente digna, situações simples parecem querer me estressar. Hoje, eu só queria um lugar pra sentar e poder continuar a ler o livro da faculdade enquanto vou pra faculdade.
Seria pedir muito? Um lugar pra sentar? Pelo jeito, sim. O ônibus também não é dos mais novos, mas isso eu relevo. O que é um balançar a mais quando a situação tá muito pior?
Eu vejo São João del Rei passando à medida que o ônibus desce do Santo Antônio e chega na Praça da Estação. Uma parte asfaltada, outra ladrilhada. É bonito viver em uma cidade histórica. Mesmo com tantos problemas.
O ônibus, mesmo lotado, para em mais um ponto de ônibus. Eram nessas horas que os motoristas deveriam passar direto. Mas não. Eles decidem quando querem fazer isso.
Entrou mais uns cinco ou seis estudantes, e depois, uma senhora. Ela deve ter mais de oitenta anos. Custou a subir no ônibus, catou cavaco para ficar em pé.
Fiquei com pena, mas tava tão cheio que eu não conseguia ajudar. Ela se espremeu no meio dos estudantes e se agarrou ao metal frio ao meu lado.
— Queria poder te dar meu lugar para a senhora sentar — Eu disse, com educação.
Ela olhou pra mim e sorriu. Era irônico eu querer dar um lugar que eu nem ao menos tenho. Também estou em pé, me segurando ao mesmo metal, balançando à medida que o ônibus avança com velocidade pelas ruas de paralelepípedo da cidade.
— Todo dia é a mesma coisa. — Ela responde. — Nunca deveria ter me mudado do Centro anos atrás. A locomoção dentro da cidade fica cada dia pior.
— É cansativo. — Eu admito. — Eu tenho esperança que vai melhorar, mas estou em São João tem dois anos e parece que a cada dia afunda um pouco mais.
A senhorinha educada riu. Não soube exatamente do que ela estava rindo, mas sabia que era sobre algo que eu tinha dito.
— Eu vivo nessa cidade há oitenta e três anos. — Disse ela. — E desde que existe transporte público, é uma porcaria. Entra prefeito, troca governador, muda o presidente, e os ônibus daqui não mudam.
Eu assenti. Era o que eu estava vendo e ouvindo todos os dias. Não tinha como negar. Mas o problema vir de muito antes é interessante. Eu tinha pra mim que tava sendo causado pelo número aumentado de estudantes.
Mas, pelo jeito, é só mais um desses problemas estruturais que ninguém quer resolver de fato. Dia vem, alunos e moradores reclamam de atraso ou da falta de lugares, noite vai, prefeito devolve que estão se queixando de boca cheia. “Já recebem de graça”, para não meterem logo que cavalo dado não se olha os dentes.
— A senhora acha que algum dia isso muda?
A risada da senhorinha dessa vez foi mais soprada, já acostumada à situação. Ela não respondeu, nem quando desceu alguns pontos seguintes, se enfiando entre mais alunos pelo corredor. Demorei pra perceber que, em tantos anos, ela só se conformou. O silêncio fazia isso em todo ônibus cheio; se compartilhava. O que deveria ser visto com ar de gratidão, na verdade ganhava o insatisfeito pelo cansaço. Se para ela em tantos anos não existia melhoria, não vai ser eu quem, calado, vai ver alguma. Quando chegou minha hora de descer, só suspirei. Esse é só mais um dia de muitos anos.
