Senna – Netflix lança série ficcional inspirada no último ídolo do Brasil
Por Ana Luiza Fagundes
“Ayrton era uma pessoa real, mas a série não mostrou isso”

Na última sexta-feira (29), estreou na Netflix a série “Senna”, inspirada na vida do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna da Silva, que faleceu em 1 de maio de 1994, no GP de San Marino, na Itália, após uma colisão com uma barreira de concreto. O seriado, que contém 6 episódios, narra a vida do piloto desde o seu início nas pistas de kart e sua ascensão como profissional.
A produção consegue passar de uma forma clara e sucinta sua trajetória, pontuando a personalidade de Ayrton e a construção dos seus princípios no decorrer da sua vida – por mais que superficialmente. A série já nos joga inicialmente para 24 horas antes do fatídico dia do acidente, mostrando um homem mais maduro, porém com um semblante carregado de preocupação. Pouco tempo antes daquele momento, o piloto Roland Ratzenberger havia falecido na pista. Uma pontuação importante é que a série consegue transmitir de forma didática informações sobre personalidades e características do mundo automobilístico para quem não conhece tanto do esporte, e para quem já entende, sem ficar massante.
Após essa breve introdução que nos mostra um pouco do que está por vir, nós somos direcionados novamente, agora para a infância e adolescência de Senna, que são curtas e nos levam para as pistas da Inglaterra. Vale pontuar que todos os episódios têm cerca de um hora e meia, e estas “transições curtas” conseguem abranger os principais pontos da caminhada dele e, assim, dar um espaço bom do que resumiu a sua vida por completo: as pistas de corrida.
A minissérie consegue balancear bem e nos mostrar essa mediação que o próprio Ayrton tinha que realizar na vida dele. As construções dos seus relacionamentos interpessoais são bem estruturadas, com sua primeira esposa Lilian, com a Xuxa, com a Galisteu – que não teve um tempo maior de tela, e quase não é bem desenvolvido, porém, não foge dos fatos como ocorreram -, sua rivalidade com Alan Prost, sua relação com os desenvolvedores dos seus carros, etc. Inclusive, uma pontuação sobre o último amor da vida do piloto, é entendível o diretor não ter desenvolvido tanto este relacionamento, porque haveria uma transição muito brusca, e até dolorosa, para a última corrida da vida de Senna ‘da Silva’, entretanto era possível, e faz falta até para o clímax final no seriado.
Apesar da boa estrutura de um compilado que dura 6 horas no total, possui falhas. Devemos levar em consideração que uma minissérie não consegue, mas as lacunas apresentadas fazem com que características fortes de sua personalidade fossem passadas superficialmente, causando estranheza nos momentos finais. Há duas extremamente gritantes: a primeira é o “dom sobrenatural” para a velocidade, sendo que, em entrevistas, ele sempre destacou o quanto treinou em toda a sua vida e incentivava a todos a se agarrarem com força e determinação em seus objetivos – inclusive, parte uma entrevista dele pontuando isto é colocada no último episódio. O segundo é o interesse repentino por causas sociais envolvendo crianças e a educação, isso não é desenvolvido. Simplesmente, de uma hora para a outra surge o assunto,o que não condiz com a realidade: ele sempre demonstrou interesse em causas envolvendo crianças e adolescentes, contribuindo para a criação do Instituto Ayrton Senna e o Senninha.

O roteiro é uma ficcionalização de sua vida. Entretanto, o diretor Vicente Amorim e o estúdio brasileiro Gullane, responsável pela produção, poderiam ter escolhido uma maneira menos romantizada para transmitir a vida de uma pessoa que, apesar de ser um símbolo brasileiro, também era um ser real. O piloto errava e acertava dentro, e fora das pistas, mas sempre assumiu a responsabilidade por todos eles, bons ou maus. Todavia, muitas vezes no “longa”, ele foi pintado como um ser divino da velocidade, e que tinha somente um destino.
A cinematografia foi linda, eles conseguiram pegar o telespectador e puxá-lo para dentro, como se uma máquina do tempo, nos teletransportasse para os anos 80/90. Os cortes foram muito certeiros e a aproximação constante da câmera nos fez sentir o que os personagens sentiam. Mas isso nem sempre foi bom. As cenas das corridas ficaram boas, entretanto, as aproximações em alguns momentos, e os efeitos davam a impressão de que aquilo era um filme de ação, e não uma corrida de Fórmula 1. Talvez, se tivessem utilizado mais a câmera de longe em alguns momentos em vez de usar efeitos cinematográficos, daria um sentimento melhor, e não teria perdido a magia.
A minissérie Senna teve seus altos e baixos porém, é uma boa série que teria classificação 7/8. Entretanto, uma coisa é certa, ela retorna a uma nostalgia, que aquece o coração de todos os brasileiros e que guarda saudade. Até mesmo os que não viram sua glória até o ano de 94, sabem quem ele é, e o que ele representa. E, com os olhos transbordando de água, todos nós nos emocionamos ao ouvir atrás deste seriado, Galvão Bueno dizer mais uma vez, após uma vitória: Ayrton Senna do Brasil!
Coro: “Olê, Olê, Olê, Olá! Senna, Senna!”