Por Sarah Resende

Durante o mês de janeiro, a Secretaria de Cultura e Turismo de São João del-Rei abriu o edital para a inscrição dos blocos que receberão apoio público no Carnaval Cultural. Uma das medidas que mais chamou atenção foi a restrição de alguns estilos musicais, como o funk e a música eletrônica.

A decisão reflete traços conservadores da atual gestão municipal, que parece priorizar uma visão tradicionalista do Carnaval, em detrimento da diversidade cultural que caracteriza essa festa popular. Embora o propósito oficial seja preservar o patrimônio cultural e respeitar as tradições locais, essa medida levanta questionamentos sobre censura, exclusão e resistência à evolução natural das manifestações culturais.

O Carnaval é uma manifestação cultural dinâmica que, historicamente, incorpora diversas influências musicais e sociais ao longo do tempo. Restringir determinados gêneros musicais pode ser interpretado como uma tentativa de estagnação cultural, desconsiderando a transformação contínua das expressões populares. Além disso, o funk e a música eletrônica são estilos que conquistaram espaço significativo na cena musical brasileira, especialmente entre os jovens, e representam formas importantes de identidade e resistência cultural.

O Secretário de Cultura, Caio de Andrade, embora reconheça a relevância de todos os gêneros musicais, defende a necessidade de manter a identidade histórica do Carnaval de São João del-Rei. “Eu não entro como uma forma de segregação dos gêneros. Eu acho que todos os gêneros têm sua formação cultural, que é importante, mas entendo que cada festa tem aquele gênero mais propício para que ela possa acontecer”, afirmou. No entanto, essa justificativa ignora o caráter inclusivo e democrático do Carnaval, que sempre foi um espaço de fusão de ritmos e culturas.

A restrição também está ligada a fatores logísticos e financeiros. “A administração optou por não estender o Carnaval por mais tempo, pois a situação financeira do município não permite essa extravagância. Estamos fazendo dentro da nossa realidade financeira para que outras áreas importantes da cidade também sejam assistidas”, explicou o Secretário. No entanto, essa priorização orçamentária levanta dúvidas sobre quais setores realmente são beneficiados, já que a exclusão de gêneros musicais específicos não necessariamente reduz custos.

Além disso, o Secretário destaca que a organização do evento prioriza a segurança e a ordem pública. “A questão não é proibir ou limitar, mas organizar para que seja uma festa segura. Fizemos reuniões com a Polícia Militar e o Ministério Público para alinhar estratégias, além de exigir que os blocos assinassem um termo de compromisso para garantir o cumprimento das regras”, afirmou. 

Embora a preservação das tradições e do patrimônio cultural seja fundamental, essa preocupação não pode servir como justificativa para práticas excludentes. O Carnaval deve ser um espaço inclusivo, que reflita a riqueza e a pluralidade da cultura brasileira. 

Em vez de impor restrições que favorecem uma visão conservadora da festa, a administração municipal deveria buscar um equilíbrio entre tradição e inovação, garantindo que o evento seja acessível e representativo para todos.