Quero ser atleta! – O Judô para derrubar os problemas da vida
Na última reportagem da série contaremos a história da Emanuely, de 9 anos, que aprende a prática do judô em um projeto social no bairro São Dimas

Foto: André Lamounier
Você conheceu aqui na Vertentes Agência de Notícias, no último dia 9, o projeto social “Judô São João del-Rei”, que leva o ensino da arte marcial japonesa à crianças carentes do bairro São Dimas.
E é através desse projeto que várias crianças das mais variadas idades, como a Emanuely Vitória Passos, personagem dessa reportagem, aprendem um esporte ainda pouco conhecido e praticado no país.
Tímida para responder perguntas, mas valente dentro do tatame, Emanuely diz não saber ainda o porquê de gostar tanto do judô. “É algo inexplicável. Foi o primeiro esporte que pratiquei e nunca pensei em mudar. Desde que comecei estou mais feliz, passei a obedecer mais minha mãe… Aqui ensina a respeitar as pessoas e isso melhorou muito a minha vida.”

Foto: André Lamounier
Motivado pelo aprendizado da prática esportiva e pelos valores transmitidos pelo judô, o serralheiro Vander de Paiva Azevedo conta que faz questão de levar seus filhos e sobrinhos (um deles a Emanuely) para o projeto depois de um longo dia de trabalho. “Eu levo meus três filhos e mais três sobrinhos para o projeto. Às vezes chego tarde do serviço, mas não deixo de levá-los ao projeto. Eu e minha esposa notamos uma grande melhora tanto na saúde quanto na disciplina dentro de casa.”
Vander acredita muito no futuro dos filhos no esporte e acredita que o projeto deveria se expandir a outros bairros. “O intuito é que eles se tornem mesmo atletas. Para mim seria um orgulho. Num mundo de tanta violência e uso de drogas, acho que devemos levar nossas crianças cada vez mais cedo para o esporte. Esse projeto deveria ser modelo para todos os bairros. É mais fácil criar um projeto como esse do que cuidar de um presidiário.”
Mesmo com o reconhecimento da população local e o apoio da UFSJ, que cede o espaço para a realização das aulas, manter o projeto não é tarefa fácil. Sylvio dos Santos Moia, coordenador do projeto, afirma que enfrenta dificuldades para mantê-lo, mas espera que no futuro ele seja ampliado. “Uma das barreiras é financeira. O judô é um esporte caro. Para um jovem se destacar e chegar ao profissional é preciso ter a sorte de alguma emissora de TV ou treinador acompanhar seus treinamentos. Outra barreira é política: nós tentamos mostrar nosso projeto e o que ele pode trazer de diferente para nossa comunidade, mas ainda temos pouca ajuda”, conta o coordenador.
A história do judô e sua importância no desenvolvimento infantil
Para a Organização das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura (UNESCO), o esporte japonês é um dos mais importantes para o bom desenvolvimento das crianças. Segundo o Plano de Educação para o desenvolvimento e integração da América Latina, (disponível em espanhol) o judô auxilia no desenvolvimento infantil e na percepção espacial por ser um exercício que exige a noção de direita/esquerda, cima/baixo e a frente/atrás.
Criado pelo japonês Jigoro Kano, em 1882, o judô é uma arte marcial cujo objetivo era trabalhar tanto aspectos físicos quanto mentais e espirituais. O esporte chegou no Brasil em 1922, durante o processo de imigração japonesa no país, mas demorou bastante a se popularizar.

ouro no judô
Foto: Luludi/Agência Estado
Um dos fatos mais marcantes para a popularização desse esporte em terras tupiniquins foi a conquista da medalha de ouro por Aurélio Miguel, nas Olimpíadas de Seul (Coreia do Sul) em 1988. Mais do que o primeiro ouro, a conquista de Aurélio significou a criação de um exemplo a ser seguido.
De lá para cá, o judô cresceu bastante e se tornou o esporte individual com maior número de medalhas do Brasil, sendo 3 ouros, 3 pratas e 13 bronzes. Em Londres 2012, mais um recorde: 4 medalhas conquistadas e, entre elas, o primeiro ouro feminino, conquistado por Sarah Menezes.

Foto: Frank File/AFP/VEJA
Todas essas conquistas motivam Emanuely e as demais crianças do projeto. Ela sabe que vai ser difícil, mas não pensa em medir esforços para conseguir. “Eu me imagino muito numa Olimpíada, mas é muito difícil. Tem que aprender muita coisa, praticar bastante… Se for preciso, posso mudar de casa ou de país, valeria a pena para ganhar medalha”. Se ela, seus primos e demais alunos do projeto ganharão medalhas, só o tempo vai dizer. Mas não há dúvidas que eles estão no caminho certo para isso.

Foto: André Lamounier
Para conhecer mais sobre o projeto e fazer algum tipo de doação, basta ir ao Centro Comunitário do bairro São Dimas, na Travessa Afonso Santana, s/nº, próximo ao Campus Dom Bosco da UFSJ.
TEXTO/VAN: ANDRÉ LAMOUNIER