quarta-feira, novembro 4, 2026
Crônica

O trem que levava nomes e devolvia silêncio

Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, Antigo Hospital Colônia. Reprodução: Folha de São Paulo

O trem chegava a Barbacena carregando mais do que passageiros. Em seus vagões, vinham histórias interrompidas, famílias separadas e pessoas que, muitas vezes, sequer sabiam por que estavam ali. Para quem observava de fora, era apenas mais uma composição ferroviária chegando à cidade mineira. Para aqueles que desembarcavam, porém, começava uma viagem sem previsão de volta.

Entre os passageiros estava gente de todo tipo. Homens, mulheres, crianças e idosos. Alguns tinham transtornos mentais, outros eram alcoólatras, epiléticos ou simplesmente pessoas que não se encaixavam nos padrões impostos pela sociedade. Havia mulheres consideradas inconvenientes pelas próprias famílias, moças que engravidaram antes do casamento e pessoas cuja única culpa parecia ser a de existir de maneira diferente daquela que os outros julgavam aceitável.

Ao chegar ao Hospital Colônia, muitos perdiam aquilo que tinham, a própria identidade. Os cabelos eram raspados, as roupas retiradas e os nomes, esquecidos. A partir daquele momento, eram apenas “Pacientes”. Não importava quem tinham sido antes, quais sonhos carregavam ou quem os esperava do lado de fora. O passado parecia não ter importância dentro daquele hospital.

Uma das histórias recuperadas pela jornalista Daniela Arbex, no livro Holocausto Brasileiro, é a de Maria de Jesus, uma jovem de apenas 23 anos internada no Colônia por apresentar um sintoma descrito como tristeza. É difícil imaginar que um sentimento tão humano pudesse servir de justificativa para retirar alguém do convívio social. Maria não precisava de uma sentença, precisava de ajuda e acolhimento. Mas encontrou um sistema que transformava sofrimento em condenação.

Enquanto isso, do lado de fora, Barbacena seguia sua rotina. As pessoas trabalhavam, as crianças brincavam nas ruas e os dias passavam normalmente. O hospital continuava recebendo pacientes, e os gritos que atravessavam seus corredores pareciam não ultrapassar seus muros. A cidade convivia com a instituição, mas a dimensão da tragédia permanecia escondida atrás de seus portões.

Dentro do Colônia, a realidade era outra. Fome, frio, violência e abandono faziam parte do cotidiano. Pessoas dormiam no chão, disputavam comida e enfrentavam condições desumanas. Muitos morreram sem que suas famílias sequer soubessem de seu destino. Estima-se que aproximadamente 60 mil pessoas tenham perdido a vida no hospital ao longo de sua história.

O mais assustador nessa história talvez não seja apenas a crueldade praticada dentro do hospital, mas a quantidade de pessoas que permitiram que ela acontecesse. Não foi uma tragédia construída em um único dia, tampouco escondida de todos. Foi um sofrimento prolongado, sustentado pela negligência do poder público, pela violência institucional e pelo silêncio de uma sociedade que preferiu não olhar.

Hoje, quando se fala sobre o Hospital Colônia, os muros já não conseguem esconder aquilo que aconteceu. O trabalho de Daniela Arbex devolveu nomes e histórias a pessoas que foram reduzidas a números, mostrando que por trás de cada interno existia uma vida que merecia respeito.

Talvez a maior lição deixada por Barbacena seja também a mais simples: a loucura não estava necessariamente naqueles que foram colocados atrás das grades, mas em uma sociedade que acreditou ter o direito de decidir quem merecia viver em liberdade.

Por mais que o trem já não chegue carregando novos passageiros para aquele destino, suas histórias continuam desembarcando no presente. Afinal, esquecer Barbacena seria permitir que o silêncio vencesse mais uma vez.