Natal à brasileira
Por Igor Chaves

Parecia o fim do mundo quando saí de casa hoje mais cedo: uma verdadeira cena de apocalipse. Fiquei um bocado parado no sinal, contando carros, motos, ônibus, e observando um amontoado de gente subindo o calçadão. Um tanto de crianças corria na pracinha, enquanto, do outro lado da rua, um supermercado lotado exibia filas que davam voltas. Os homens empurravam carrinhos abarrotados de caixas de cerveja, e as mulheres se agarravam a pacotes de chester como se a ave ainda pudesse sair voando. As lojas estavam cheias, as vendedoras de cabelo em pé, e um maldito menino fazia birra ao fundo. De repente, buzinaram uma vez, depois de novo. O sinal abriu, e uma caminhonete passou à minha direita. Em cima do teto, um homem vestido de vermelho, com um gorro pontudo, jogava balas para cima. Aquele não era o apocalipse. Era apenas 23 de dezembro.
O Natal no Brasil é sempre um evento. Não dura um dia, não: ele dura três meses. Virou primeiro de novembro, e a gente já pega o banquinho para alcançar o maleiro do guarda-roupa e tirar uma caixa empoeirada, transbordando de bolinhas vermelhas, prateadas e douradas. Montar a árvore de Natal leva uma semana porque o pisca-pisca está sempre queimado, e ir ao centro comprar um novo é o mesmo que travar uma batalha. Depois disso, começa: mensagem no grupo da família para decidir se vai ter amigo-oculto; a namorada do primo perguntando se pode levar a mãe e a avó; e, claro, a escolha do cardápio da ceia, o ponto mais importante. Antes mesmo da Black Friday, a leitoa já está encomendada.
Mas falta alguma coisa. Sempre falta alguma coisa. Às vezes é um presente que foi remanejado ou um ingrediente esquecido da receita de tartelete. E aí começa a correria: o trânsito, as buzinas, a multidão. Ah, e claro, é em dezembro também que começa a faxina. A casa fica polida, um brilho que só. Na semana do dia 20, os primeiros parentes já começam a aparecer. As tias vão de casa em casa, dividindo espaço nas geladeiras para guardar as coisas. No dia 22, é inevitável: algum tio decide comprar uma bandeja de amendoim verde horrorosa que ninguém vai comer.
Quando chega finalmente o dia 24, a coisa desanda. O telefone não para de tocar, porque alguém esqueceu de comprar algo que, no fundo, ninguém faz questão. A criançada corre molhada da piscina, sujando tudo pelo caminho. A cozinha vira um campo de batalha, com gente esbarrando em panelas quentes e discutindo se dá tempo de fazer mais farofa. À meia-noite, quando todo mundo pensa que vai comer, sua avó decide rezar três ave-marias e cantar parabéns para Jesus Cristo. Quando finalmente sentamos à mesa, a comida já está fria, e todo mundo está cheio, porque passou a noite beliscando. Mas esse é o espírito do Natal, que não termina no dia 25. Ele segue até janeiro, porque a árvore só será desmontada no dia 6, e as sobras do peru vão virar refeições improvisadas por semanas. Ainda tem o período de troca dos presentes – outra batalha, outra ida ao centro.
O Natal brasileiro é um evento, e é assim que tem que ser. Ele não tem neve, suéteres ou pijamas combinando, tampouco meias na lareira. Ele tem blusa de alcinha, cheiro de protetor solar, música do Roupa Nova e a prefeitura gastando dinheiro em uma decoração meia-boca. O Natal brasileiro é estar sentado numa cadeira de plástico, enrolado em uma toalha com o cabelo duro de cloro e o olho vermelho, tremendo de frio com um prato de arroz e carne na mão. É sentir, matar a saudade, rir e chorar. É um caos bonito, orquestrado com maestria pela ideia de estar com a família e transbordar amor.