Por Ana Cláudia Almeida e Giulianna Andrade

“O que fazer pela saúde mental hoje e sempre?”. Este é tema trabalhado este ano na campanha Janeiro Branco. Criada em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, a iniciativa tem como objetivo conscientizar a população e incentivar diálogos, reflexões e ações em prol do bem-estar emocional. Em 2025, o foco perpassa a importância da valorização da saúde mental como uma prioridade coletiva.

A esclarecer, a escolha do primeiro mês do ano não é por acaso. Janeiro representa um momento de recomeços e planejamentos, em que muitas pessoas estão mais abertas a pensar sobre suas vidas e o que desejam mudar. É nesse cenário que a campanha visa estimular práticas que promovam qualidade de vida, a busca por equilíbrio emocional, e ainda, a quebra de tabus relacionados a transtornos psicológicos.

Cartaz de divulgação da Campanha. Fonte: Instituto Janeiro Branco

A Campanha em São João del-Rei

Na mineira “Cidade dos Sinos”, a campanha Janeiro Branco tem mobilizado ações voltadas à conscientização e informação acerca do assunto. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, diversas atividades estão sendo realizadas ao longo do mês, incluindo intervenções visuais em unidades de saúde, dinâmicas em grupo, rodas de conversa e distribuição de folders informativos. A psicóloga Luiza Fernandes Barros, referência técnica em saúde mental, destaca ainda iniciativas como entrevistas para a imprensa e a Blitz “Saúde Mental de Janeiro a Janeiro”, que leva equipes para interagir diretamente com a população nas vias públicas.

Sobre os principais desafios no enfrentamento do tema, Luiza aponta que o estigma ainda é uma barreira significativa: “O entendimento de que o adoecimento mental pode acometer a qualquer um, ainda pode ser visto como um tabu socialmente. No mesmo sentido, a compreensão de que este adoecimento requer cuidado, assim como os outros quadros de saúde, sendo necessário atendimento, acompanhamento e condutas de profissionais de saúde, ainda pode ser visto com resistência por parte da população”. Dessa forma, a campanha nacional se justifica e surge, justamente, para cada vez mais quebrar barreiras e promover na sociedade um diálogo mais aberto sobre o tema.

A saúde mental é multifatorial e requer intervenções de diferentes esferas. Sobre a rede de atuação no município, a psicóloga complementa: “A rede conta, atualmente, com atuação de psicólogos no âmbito da Atenção Primária de Saúde, ou seja, nos postos da cidade, bem como na zona rural. Conta também com dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS AD e CAPS del Rei), com o Centro de Convivência e Cultura Arte Feliz e o Núcleo de Saúde Mental”.

Núcleo de Saúde Mental, situado no Centro Histórico.
Foto: Ana Cláudia Almeida

A Campanha sob outra perspectiva

Para Larissa Ribeiro, mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), na linha Instituições, Saúde e Sociedade, a Campanha Janeiro Branco deveria estender seu enfoque à realidade socioeconômica do país e ao fomento de políticas públicas: “No nosso país, a saúde mental não é apenas cuidada através da terapia, mas também e, principalmente, pelo cuidado dos determinantes sociais de saúde, pois fatores como desemprego, falta de segurança, moradia, entre outros, também afetam a saúde mental”. Ela complementa ainda que, embora após a pandemia tenha ocorrido uma modificação social e atenção positiva no que tange à esta temática, o campo da Psicologia ainda sofre em relação à luta antimanicomial brasileira, principalmente com a manutenção de instituições privadas que utilizam a privação de liberdade como um método de tratamento.

Sob outro viés, questionada sobre a relação da mídia com o tema, a baiana formada no Centro Universitário do Rio São Francisco (UNIRIOS) reconhece que algumas divulgações e discussões de pessoas públicas, quando tratadas com seriedade e responsabilidade, são tentativas válidas de vincular a terapia ao cuidado preventivo. No entanto, paralelamente, ela alerta uma recorrente monetização dessas campanhas informativas: “Não é possível não fazer críticas ao que chamamos “meses coloridos”, como janeiro branco e setembro amarelo, pois, apesar de terem sido criados para a reflexão e conhecimento sobre saúde mental, acabam se tornando mais campanhas publicitárias que acabam, às vezes, perdendo seu foco”. 

Saúde mental além de janeiro

Enquanto Larissa sugere um olhar mais amplo e racializado por parte da Psicologia, e o fortalecimento necessário do SUS (Sistema Único de Saúde), a Secretaria de Saúde enfatiza sua atuação contínua. “O tema da campanha segue durante todo ano enquanto ação por parte dos serviços, uma vez que a desestigmatização do sofrimento psíquico e a importância do cuidado em saúde mental é prioridade, para além do período da campanha”, explica Luiza.

O Janeiro Branco, enfim, se consolida como uma ação que vai além da conscientização. É um convite, também, para que indivíduos, instituições e governos invistam e priorizem o cuidado psicológico como uma parte essencial da vida, afinal, esse é um passo fundamental na construção de um futuro sadio e equilibrado.

Serviço

Para mais informações da campanha ou um suporte profissional especializado, acesse: https://janeirobranco.org.br/