Diálogos dos Saberes: O racismo alimentar em pauta
Por Igor Chaves

Novembro é marcado por celebrações que remetem à Consciência Negra ao redor do país. Desde 2011, o 20º dia do mês lembra a memória de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência contra a escravidão no Brasil, e se coloca como um momento de luta frente ao preconceito. O racismo é um mecanismo que perpetua a desigualdade, como aponta o professor doutor do curso de teatro da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Adilson Siqueira. Essa estrutura, nos mais de 500 anos de Brasil, bate de frente com a dignidade. Falar em racismo é também falar de acesso negado aos direitos humanos básicos, como casa, água e comida.
Adilson Siqueira é também líder e pesquisador do Grupo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes, Culturas e Sustentabilidade, que se dedica a questões que envolvem a mudança climática, a educação, a negritude e o racismo. Ele explica que, nessa discussão sobre a desigualdade, devemos pensar em fatores que entendemos como o bem comum, seja a educação, a saúde, ou um sistema alimentar sustentável. “A alimentação é um bem comum. Então, é um bem comum todo mundo lutar contra a fome”, aponta. A insegurança alimentar, nesse caso, não é uma condição, e sim uma consequência: “A fome não é um acidente. A fome é uma produção do capitalismo. É uma produção do neoliberalismo. Então, a gente precisa estar trazendo essa discussão para focar como se dá essa produção”.
No Brasil, números da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam 2,5 milhões de cidadãos na condição de insegurança alimentar severa. Para a população negra, o cenário é ainda pior: dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil (Vigisan) indicam que, entre 2021 e 2022, quase 20% dos lares brasileiros liderados por pessoas pretas e pardas enfrentaram a fome. É o chamado racismo alimentar: a população negra sem direito ao alimento. “A questão do racismo alimentar é simples: quem é o povo mais pobre? Se a fome é perversa, ela é mais perversa ainda com o povo preto”, explica Conceição Maria do Carmo de Souza Costa, a Tutuca, que é agricultora, pesquisadora e atuante na área de agroecologia e segurança alimentar, além de membro do Fórum Regional de Economia Solidária.
Para o professor Adilson, o racismo e a fome, em concomitância, somam à ideia da produção capitalista e resultam num eficiente mecanismo de controle. “O racismo entra nessa história como uma afirmação do controle. Manter as periferias das cidades, manter as pessoas negras, pobres, em situação de fome de certa maneira, ou à beira da fome, é uma forma poderosa de controle em todos os níveis”, afirma. Agora, a justificativa para essa inequidade, como apontado, remonta à história do Brasil e às ideias perpetuadas desde então. “[Durante a escravidão] já começou, além do aprisionamento, a ração de subsistência. A comida que o escravo comia era a mínima necessária para ele conseguir trabalhar no dia seguinte. Então, quando a gente olha para o racismo alimentar, você vê que lá na origem tem esse lugar, uma forma de dominação”.

O impacto dessa estrutura também se manifesta no chamado nutricídio, conceito criado pelo norte-americano Llaila Afrika, autor de Nutricide: The Nutritional Destruction of the Black Race. O termo evidencia a diferença nos alimentos que chegam ao prato da população negra. A dificuldade de acesso a alimentos saudáveis, apontados no Guia Alimentar para a População Brasileira e essenciais para a manutenção da Soberania Alimentar e Nutricional (SAN), abrem espaço para o consumo de ultraprocessados e transgênicos, e determinam o que pode ser chamado de deserto alimentar.
Tutuca critica a narrativa de que alimentos agroecológicos seriam inacessíveis: “Cadê uma gôndola escrita, alimentos sem veneno, alimentos agroecológicos [nos mercados]? Para os atacarejos, eles pensam que esse alimento vai sair muito mais caro. E não é verdade. Ainda não temos, nessa região, dentro dessas grandes redes de supermercados, os alimentos agroecológicos. Isso a gente precisa avançar”. Tutuca também reforça que, em um cenário são-joanense, as políticas públicas para combater a fome e o racismo alimentar carecem de maior integração: “Não há um olhar amplo da política pública de segurança alimentar que pegue o agricultor e as necessidades do período urbano. É muito solto, não está amarrado”.
É dessa forma que o racismo alimentar exige a mobilização de políticas públicas integradas, de maneira que remonte os já apontados bem comuns. É uma discussão de sustentabilidade, democracia e justiça social, como reforça o professor Adilson. “Não importa onde você esteja, em que campo, em que área você esteja, coloque a justiça social no meio disso. Aí ela começa a se tornar um elo”, afirma. “E, a partir desse elo, você olha, como é que é a democracia aqui nesse lugar onde a gente vive? Aqui nessa escola, como que ela é? Tem democracia minimamente? Tem ordem, mas não é autoritarismo? A partir da justiça social, você começa a discutir a desigualdade”.