Complexa relação entre Arte e Política no Brasil foi destaque na 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Por Ana Cláudia Almeida e Vitor Ramiro

Ao longo da história humana a relação entre arte e política se mostra algo profundo e complexo que, conforme a época e o local, atinge formatos específicos de embates e debates. Tendo a capacidade ampla e singular de servir como plataforma de resistência, apoio, crítica ou reflexão sobre o contexto sociopolítico em que está inserida, a arte é, e sempre foi, alvo e desejo de muitos. Sendo, ainda, uma poderosa ferramenta de educação e transformação da sociedade, sua valorização, organização e domínio são tópicos continuamente discutidos em rodas de conversa, fóruns e paineis pelo mundo.
No Brasil, o campo audiovisual, assim como todo o setor artístico, apresenta uma linha temporal conturbada resultante de estilos de governança antagônicos. Sob uma perspectiva mais recente, após certos posicionamentos controversos e medidas radicais, a realidade atual é desafiadora. Não somente alinhar uma reestruturação, órgãos públicos, instituições privadas e profissionais do meio necessitam urgentemente recuperar o prestígio do cinema nacional.
Nesse sentido, a 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes se assemelha a outros eventos espalhados pelo país, que visam a valorização de nossa cultura por meio do diálogo e da elucidação, além da democratização do acesso. Enquanto, uma vasta programação artística se encarregou de mostrar ao público a força e a pluralidade já existentes no Brasil, encontros políticos foram agendados a fim de traçar diretrizes e condições favoráveis para um melhor aproveitamento de tais potencialidades. Confira alguns deles!
3º Fórum de Tiradentes – Encontros pelo Audiovisual Brasileiro
Instaurado pela primeira vez em Tiradentes no ano de 2023, o Fórum de Tiradentes chega à sua terceira edição compromissado com os pilares sobre os quais foi erguido: democracia, diversidade, descentralização e desenvolvimento socioeconômico no audiovisual. O evento, paralelo e inerente à Mostra de Cinema, é um espaço reflexivo que congrega diversos setores do universo cinematográfico brasileiro, desde produtores independentes até empresários e autoridades públicas. Segundo os coordenadores gerais Mário Borgneth
e Raquel Hallak, o objetivo perpassa “uma revitalização da política nacional do audiovisual que resulte de uma ampla pactuação do setor com o estado e a sociedade, que reconheça o valor estratégico do audiovisual na promoção e garantia dos interesses nacionais e seu lugar na ordem socioeconômica mundial do século XXI”.

Nesse contexto, a partir do dia 25 (sábado), o Fórum se desdobrou em conferências temáticas e debates estratégicos abertos ao público, além de reuniões restritas à gestores audiovisuais e grupos de trabalho (GTs) voltados ao diagnóstico e estudo de aspectos específicos da conjuntura atual. Após cinco dias, marcado pela presença de expoentes e principais instâncias federais da área, como a Secretária Nacional do Audiovisual (Ministério da Cultura), o encerramento no Cine-Teatro culminou no lançamento oficial do Plano de Ações 2025 e 2026, assim como na apresentação e leitura da Carta de Tiradentes 2025. Tal documento consiste na elaboração e organização de sugestões e propostas metodológicas para o futuro do audiovisual brasileiro.
Rodas de Conversa e Seminários
Propondo-se como um momento aberto à troca de ideias e pensamentos, entre os dias 25 e 31 de janeiro, discussões temáticas convidaram o público a ponderar sobre questões profundas que nos cercam e preocupam, diante dos desafios do presente e do futuro do audiovisual. Nos encontros pautados por uma interação democrática com o público, foram ressaltados questionamentos, como “Que cinema é esse? Em busca das imagens inéditas e inauditas”; “Que cinema é esse? Mal visto, mal quisto?”; e também abordado tópicos em âmbito internacional. Primeiro, o seminário trilíngue com tradução simultânea BRASIL CINEMUNDI reuniu diretores e programadores estrangeiros, responsáveis por diversas mostras cinematográficas importantes, para dialogar sobre aspectos das curadorias destes eventos. E depois, o debate O Brasil nas telas do mundo se debruçou sobre a crescente presença e destaque brasileiro no cenário artístico global. Os convidados Gabriel Martins (produtora Filmes de Plástico, MG), Luana Melgaço (produtora Anavilhana, MG) e Marcelo Freixo (EMBRATUR) analisaram não só a conquista de prêmios, como também de investimentos.
Além de avançar nessa direção, uma atenção também foi dada a detalhes compartilhados acerca dos bastidores da Mostra de Tiradentes deste ano. No segundo dia de evento (25), o encontro Diálogos Audiovisuais: Que cinema é esse? – Perspectivas das curadorias permitiu aos presentes no Cine-Teatro entender o raciocínio por trás da seleção geral das obras. Em um breve bate-papo, Camila Vieira, curadora de curtas cearense, e o paulista Francis Vogner, curador de longas, observaram a resistência do evento diante de episódios passados de crise pandêmica e ameaças políticas ao cinema. O também coordenador curatorial e programador cultural citou que a escolha do tema da edição foi fruto de uma conversa coletiva e de uma reflexão sobre os últimos anos. “Nós da curadoria fazemos uma proposta temática, fazemos uma seleção que precisa ser fashion e exigente. O que é o cinema? Nós não estamos aqui respondendo mas refletindo. Essa programação é um convite a todos ao debate. Desejo que todos assistam e reflitam!”, disse.

Apresentando como conceito norteador da curadoria o que está em curso em relação ao audiovisual, mais especificamente, as políticas públicas vigentes e as análises estatísticas, Camila informou números e fatos reveladores. No que tange às inscrições ao processo seletivo do evento, segundo ela, esse ano há uma paridade entre produtores homens e mulheres cis, além de 25% de pretos e pardos entre os inscritos e, novamente, um baixo percentual de pessoas trans, não binaries e indígenas. Entre as mudanças realizadas no formato e no objetivo das mostras, ela citou a interiorização do cinema como uma potência audiovisual, e a importância da Mostra no desenvolvimento de grupos específicos do cinema nacional. “Observamos um aumento do cinema do interior, devido aos recursos da LPG (Lei Paulo Gustavo). Assis de São Paulo é um exemplo, e também o cinema de Diadema (SP). (…) A mostra competitiva Aurora durante uns 16 anos teve produções dispersas, filmes-experiência sem seguir editais. A mostra ajudou a organizar e fomentar essa cena. De uns anos para cá, tem júri oficial e jovem e a mostra e a premiação é em horário nobre. Realocar essas mostras em locais diferentes por Tiradentes, seguindo critérios diferentes foi bem importante”, avaliou.