Por Lara Reis

Em um país profundamente marcado pela desigualdade, a arte se torna uma poderosa ferramenta de resistência. É nesse contexto que a exposição “Território: entre o corpo e a paisagem”, do artista são-joanense Bruno Souza, mergulha na complexa relação entre corpos racializados e os espaços que ocupam. Ao retratar pessoas negras como guardiãs das paisagens, o pintor confere protagonismo a essas personagens e reflete sobre o direito de pertencimento.

Instalada no coração da cidade histórica de Tiradentes, a mostra está aberta a visitação até o dia 15 de janeiro, no Centro Cultural Yves Alves. Com cerca de 26 pinturas, a exposição conta com 2 séries: “Reconfiguração da Paisagem” e “Anjos Marginais” que se entrelaçam em uma narrativa poética.

Foto: Lara reis

Para Bruno, a conexão entre corpo e paisagem vai além da simples ocupação de um espaço; é um diálogo profundo sobre memória, identidade e resistência. “Nosso território não é formado só pelas paisagens físicas e nem só pelo corpo, é pela conjunção de como nosso corpo atua e é lido nesses espaços. A gente constroi o território e, em contrapartida, ele constitui aquilo que a gente é”, explica o pintor.

O artista plástico também enxerga em sua exposição um propósito maior: inspirar outras pessoas negras a ocupar ambientes com confiança, levando consigo sua arte e intelecto. Afinal, enquanto um indivíduo negro, expor sua arte é um ato de resistência e reafirmação. “Tenho pensado muito na importância de eu, como uma pessoa racializada, estar ocupando um espaço institucional hoje,  no centro de Tiradentes, uma cidade histórica com uma característica conservadora, no sentido material”.

PAISAGENS, ANJOS MARGINAIS E O JOVEM COM CHINELO E MEIAS

A primeira série, “Reconfiguração da Paisagem”, traz fragmentos do bairro Tejuco, em São João del-Rei, buscando registrar as transformações desse espaço ao longo do tempo. Para o artista, essas telas têm um valor afetivo e cultural: “São espaços que fazem parte da minha formação como pessoa, eu carrego na minha memória afetiva e trago para o aspecto artístico registrando algo que daqui há um tempo já não será assim”.

Bruno ainda reflete sobre a importância de trazer a relação entre o corpo e o território, levando em conta não só os aspectos físicos, mas também a memória e as lembranças que esses lugares carregam. Em suas obras, ele dialoga com a pesquisa do geógrafo Milton Santos, que discute como, na atualidade, o território é tratado, principalmente sob a ótica econômica. Assim, as pinturas do artista são-joanense procuram resgatar o significado sentimental e cultural dos territórios, em vez de tratá-los apenas como objetos a serem vendidos e parcelados.

Foto: Lara Reis

Já a segunda série, intitulada “Anjos Marginais”, tem como ponto de partida a obra “O retorno do anjo de chinelo e meia”. A sequência de pinturas retrata pessoas negras em posição de protagonismo, inseridas no contexto de seus territórios. Bruno Souza as apresenta como guardiãs desses espaços, discutindo sobre a responsabilidade de zelar e cuidar dos lugares.

A ideia do “Anjo Marginal”, que nomeia a série, se repete através das auréolas desenhadas sobre as cabeças dos personagens. “Essas figuras são mensageiros vindos das margens e pela sua origem, pela sua cor, muitas vezes não são credibilizadas. São figuras com as quais eu me identifico no lugar de artista”.

Foto: Reprodução/ Instagram @brunosouza.h

O artista plástico dedicou cerca de dois anos à criação de sua exposição, nutrindo um carinho profundo por cada uma de suas obras. Contudo, ele reserva uma afeição especial para “O Retorno do Anjo de Chinelo e Meia”, que dá continuidade à sua última mostra.

A figura do “Anjo de Chinelo e Meia” já havia sido apresentada anteriormente no trabalho de Bruno, na pintura homônima de sua exposição “Relato Além da Memória”. Agora, o personagem retorna, porém mais envelhecido, para conversar com seu “antigo eu”. Assim, “O Retorno” aborda o amadurecimento precoce de um jovem negro e reflete sobre o conceito de um “anjo marginal”.

Esse jogo entre passado e futuro é elemento constante nas obras do artista. Suas telas dialogam entre si, desenhando certa continuidade e trazendo à tona novas interpretações e desdobramentos.

Foto: Lara Reis

Para Bruno, cada pintura vai além da sua intenção inicial, transbordando em significados e gerando novas narrativas. Inicialmente, a imagem do “chinelo e meia” surgiu como uma forma de auto-representação, mas logo se tornou um símbolo poderoso. “Quando a gente adentra certos territórios elitizados, esse signo do chinelo e meia é algo que pode ser visto como um traje inadequado”, explica. Com isso, os calçados em suas telas passam a representar o jovem marginalizado.

Foto: Lara Reis

PRÓXIMOS PROJETOS

No dia 6 de fevereiro, o Centro Cultural UFSJ receberá a inauguração da exposição Amplitude, um projeto coletivo que reúne a participação de 11 artistas, incluindo Bruno Souza. Além de sua atuação como pintor, o artista também ocupa as funções de produtor cultural e curador, como parte de seu projeto Ateliê Beiral, um espaço dedicado ao desenvolvimento de obras artísticas e arquitetônicas.

Mas as novidades não param e a vida artística do jovem seguirá movimentada até setembro de 2025. Na data, o Museu Regional de São João del-Rei será palco de uma nova fase de sua carreira, com o segundo ato da exposição “Território: entre o corpo e a paisagem”, que trará uma série inédita de pinturas.