Denúncias de assédio escancaram a urgência de reforçar que não é não.

Por Lídia Oliveira 

Foto: Reprodução/Freepik

Desde pequenas, meninas e mulheres convivem com uma dura realidade: a cruel constatação de que seu corpo não lhe pertence. Uma vez que terceiros se sentem autorizados a tocar nele, julgá-lo e torná-lo, de maneira violenta, um espaço público, passível de ser invadido. Essa experiência contra a qual todas as mulheres procuram lutar diariamente se faz concreta em diferentes ambientes, desde a casa onde se vive, próxima de tios, primos, irmãos, pais, padrastos e amigos da família, ao ambiente de trabalho, com colegas e chefes, no transporte público, até a um programa de televisão, como o Big Brother Brasil, exibido na TV aberta. Não é preciso ir longe quando se fala em importunação sexual, assédio e estupro contra meninas e mulheres, infelizmente; todas nós já passamos ou vamos passar por isso em algum momento de nossas vidas. 

Esses acontecimentos não são isolados, mas são parte de uma teia cultural que objetifica o corpo feminino e retira de todas nós a autonomia e o direito de existir livremente. Historicamente, a ideia de mulher como propriedade privada masculina remete ao patriarcado como um sistema sociopolítico que impediu e ainda impede o direito de ir e vir de meninas e mulheres em segurança, em que a dominação masculina impera e dita as normas sociais. Seja na UPA, em São João del-Rei, onde uma médica denunciou ter sofrido assédio e ameaças, ou no BBB, com mais de 70 câmeras, mulheres como Jordana ainda são importunadas sexualmente e descredibilizadas em seus relatos. O que assusta ainda mais é saber que muitas crianças passam pela mesma violência e não são ouvidas nem acreditadas em suas palavras. 

Parte alarmante disso se deve ainda ao fato de que o discurso machista tem tido espaço não só nas famílias, mas nas mídias digitais de grande alcance, propagando padrões que reduzem mulheres à submissão e a uma falsa noção de feminilidade, distanciando essa parcela do conhecimento sobre as possibilidades e os modos de ser e de estar no mundo. O resultado é um só: violência masculina. Conforme aponta a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025, 27% das mulheres já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Soma-se a isso o fato de que a falta de regulamentação das redes sociais tem possibilitado o avanço de conteúdos criminosos, que expõem meninas e mulheres pelo uso de Inteligência Artificial para criação de conteúdo falso e sexualizado.

Diante de fatos que revoltam e indignam, é preciso que mulheres e pessoas aliadas se organizem ainda mais, criando espaços de acolhimento umas às outras e reivindicando políticas públicas eficazes de prevenção à violência, de acesso a denúncias e de punição aos agressores. Como afirma a filósofa brasileira Djamila Ribeiro, dar visibilidade para os problemas é o primeiro passo para que eles sejam solucionados. O acesso à informação é o recurso mais importante para que mulheres possam reconhecer uma situação de violência e denunciar seu agressor. Além disso, é fundamental que as famílias abram espaço para discutir igualdade de gênero, o que igualmente deve ser feito na mídia, nas escolas e no debate político, sem distorções e mentiras sobre o que é o feminismo. Enquanto não houver ampla discussão sobre limites e consentimento, mulheres continuarão em risco e inseguras.

Serviço

Em casos de violência contra a mulher, é possível buscar apoio e orientação por meio da Central de Atendimento à Mulher e da iniciativa Chame a Frida. Ambos os serviços funcionam 24 horas por dia e garantem atendimento confidencial.

Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
Chame a Frida:

  • Barbacena – (31) 99387-4041
  • São João del-Rei – (31) 98489-3468