Por Igor Chaves

Cena de “O Agente Secreto” (CinemaScopio/Divulgação) e 20ª Mostra de Tiradentes – Cine Tenda (Foto: Jackson Romanelli)

Se “O Agente Secreto” não tivesse sido lançado no Festival de Cannes, ainda em maio de 2025, dificilmente Wagner Moura subiria ao palco do Globo de Ouro em janeiro de 2026. Festivais de cinema ao redor do mundo, como os de Tóquio, Veneza e Toronto, são parte essencial da campanha de um filme, não apenas no circuito de premiações, mas na construção de sua popularidade. 

Dirigido por Kléber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” seguiu um percurso semelhante ao de “AindaEstou Aqui”, de Walter Salles, entre 2024 e 2025. No caso do longa de Salles, o Brasil só tomou real dimensão de sua força dois meses após a estreia no Festival de Veneza, em setembro de 2024, quando o filme já se consolidava como um fenômeno no exterior. Com Kléber, o caminho foi parecido: o lançamento em terras brasileiras ocorreu cinco meses depois de Cannes, em novembro, quando a história de Marcelo já havia conquistado reconhecimento fora do país.

Festivais de cinema são, sim, uma celebração, mas também são um modelo de negócio. Se as premiações são um palanque para as produções despontarem a nível mundial, os festivais são a peneira do que ganha fôlego para seguir adiante. O mesmo vale para as mostras de cinema, intrínsecas ao mesmo conceito: servir como uma vitrine para o audiovisual. No Brasil, por exemplo, “O Agente Secreto” estreou primeiro no Festival de Cinema do Rio e na Mostra SP, eventos responsáveis por apresentar ao público brasileiro aquilo que há de mais potente na sétima arte contemporânea.

Na nossa região, esse papel cabe à Mostra de Cinema de Tiradentes, que abre sua 29ª edição na sexta-feira, 23 de janeiro. Este ano a curadoria se baseia no tema “Soberania Imaginativa”, que busca enxergar o cinema como uma força contra a padronização estética e o encaixotamento da arte. A programação reúne majoritariamente produções brasileiras, muitas delas fora do eixo Rio-São Paulo, em diferentes formatos. Entre os destaques está o próprio “O Agente Secreto”, além de obras são-joanenses, como o documentário “Mazinho do Trompete”, de Mayara Mascarenhas.

A Mostra é um recorte do cinema nacional e daquilo que é produzido longe do circuito comercial. É a chance de que a mais diversa audiência tenha acesso a filmes de baixo orçamento ou com lançamentos pequenos, longe de serem considerados blockbusters, mas que fomentam a cultura nacional. É a plataforma e a possibilidade de que a cultura brasileira seja celebrada e que as mais diferentes histórias sejam contadas a todos que queiram parar para assistir.

No fim das contas, a conexão é a essência dos festivais e das mostras: aproximar estúdios de diretores e produtores, filmes de públicos diversos e o público de histórias contadas pelo audiovisual. Afinal, se as histórias não impactam, não há cinema. E sem cinema, não há esperança, seja a de ver o Brasil ganhar o Oscar de novo, seja a de imaginar um mundo melhor a partir das telas.