Por Ana Cláudia Almeida

“Nós ali, enquanto estamos durante os atendimentos, a gente acolhe e também se acolhe. Percebemos que ajudando a gente se ajuda”

Dra. Raphaella Abreu

Em um Brasil onde a garantia de direitos fundamentais e proteção para mulheres envolve várias dimensões burocráticas, um canal de comunicação feminino tem se mostrado um valioso mecanismo de empoderamento e suporte mútuo. Embora o país tenha, historicamente, apresentado avanços na legislação, a aplicação prática dessas leis, desigualdades sociais e culturais, e ainda falhas institucionais, são ainda desafios notórios para a concretização da segurança e igualdade.

Nesse contexto, São João del-Rei e região vêm sendo palco de ações e movimentos essencialmente ligados à transformação da realidade antiga e árdua da população feminina. Mulheres em busca de justiça social, através de sua voz e espaço conquistado, têm sido o “porto seguro” de outras emocionalmente abaladas e juridicamente impotentes. 

Dra. Raphaella Abreu (à esq.) e outras advogadas da OAB São João del-Rei que integram o Elas por Elas.

A advogada Raphaella Abreu, imersa na trajetória batalhadora de sua mãe solo e professora, amadureceu atenta aos desafios de mulheres sem tanto suporte familiar e, assim, buscou aproximar-se e transformar tal situação pela advocacia e pela educação. Então professora do curso de Direito da UNIPTAN (Centro Universitário Presidente Tancredo de Almeida Neves), procura orientar meninas sobre o tema no meio acadêmico. Já na posição de aluna, também na UNIPTAN, iniciou um projeto de extensão interdisciplinar voltado para a divulgação e garantia de direitos básicos femininos. “Eu queria realmente levar para as pessoas o que elas não conseguiam encontrar de forma natural. Aquilo que precisam do judiciário, de todo um aparato judicial para concretizar. (…)  No quinto período, fundei o Coletivo Feminino Maria Teresa Gomes de Almeida Lima, e nós tínhamos alunas de Psicologia, de Odontologia e de Direito. Todas envolvidas nesse objetivo comum dos direitos das mulheres”, conta a são-joanense.

Atualmente integrante da 37ª Subseção da OAB (Ordem dos Advogados) de Minas Gerais, localizada em São João, e presidente da Comissão das Mulheres Advogadas, doutora Raphaella tem sua atuação totalmente ligada ao que define ser seu propósito de vida: “Na minha advocacia pessoal privada, eu atuo especificamente com os direitos das mulheres, principalmente com o direito criminal. E eu me especializei na defesa dos direitos das vítimas de violência doméstica. (…) Eu faço mestrado em Administração Pública, e o foco na minha pesquisa é o tema de políticas públicas voltadas para os direitos das mulheres. (…) Então, na OAB, já ingressei diretamente na comissão e comecei a atuar com as meninas que também tinham essa iniciativa”.

ELAS por ELAS

Uma percepção da época da faculdade, obtida através de experiências do projeto que liderava, permaneceu e hoje norteia a carreira profissional da Raphaella. Observando que a crescente necessidade de acolhimento e escuta profissional demonstrada por mulheres próximas de sua família se assemelhava à uma realidade muito presente em toda a cidade, ela se uniu a outras advogadas da OAB no Projeto Elas por Elas. 

Através de parcerias sólidas com a Diocese de São João del-Rei e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, esta é uma iniciativa que tem como pilar a democratização da orientação jurídica. Visando auxiliar mulheres em situação de vulnerabilidade na região das Vertentes, a ação itinerante promove quinzenalmente atendimentos voluntários tratando de assuntos como abusos e violências, divórcio, processo de guarda, alienação parental, e outros. Coordenadas com bastante antecedência e planejamento por Raphaella e quatro diretoras, cerca de 17 advogadas se colocam à disposição para uma consulta jurídica mais acolhedora e especializada, além de participarem de eventos de conscientização do tema. 

Fruto de uma comissão que preza pelo bem estar e união das mulheres advogadas, o projeto é uma extensão desta mentalidade na comunidade local. Raphaella explica que o contato constante com questões tensas e sensíveis exigem das profissionais o mesmo amparo psicológico que elas oferecem, e assim gera uma corrente de apoio potente entre as mulheres. “A gente sentiu que não podia ficar só ali fazendo pelas nossas advogadas. Fazendo pelas mulheres da nossa comunidade, a gente também faria por nós. E  nossa profissão é muito pesada,  a gente precisa se unir, falar, e se acolher também”, compartilha.

Embora já tenha tido diversos avanços e conquistas na organização e sucesso de suas atividades, em 2026, o Elas por Elas pretende ampliar o seu alcance de público através da aquisição de uma sede fixa. Notando uma queda no número de atendimentos em espaços públicos devido ao constrangimento e exposição das clientes, o grupo quer apostar em um local reservado para garantir um sentimento de privacidade e também uma memória afetiva. 

“O nosso sonho desse ano, que está quase se concretizando, é construir uma sede fixa para gente testar. Para ver se realmente é isso e se assim conseguimos ajudar mais essas mulheres, tendo ali o lugar que elas sempre podem ir e contar. É isso e conseguir continuar indo mais nessas cidades, povoados e distritos próximos. Estaremos sempre abertas e à disposição de todas!”, diz.

Conforme sugere a entrevistada, quem deseja e necessita de um suporte jurídico profissional para si ou para sua comunidade, não hesite em buscar orientação. Entre em contato ou vá até a sede da OAB São João del-Rei (mais informações abaixo).

SERVIÇO

OAB São João del-Rei: End: Rua Antônio Manoel de Souza Guerra, 125 – Vila Marchetti / Instagram @oabsaojoaodelrei

Dra. Raphaella Abreu – Contato (32 99140-8897) / Instagram (raphaellaabreuadvogada)