Colorismo no Brasil: as meninas que nascem sem cor

Texto: Larissa Lima

Revisão: Samantha Souza

Imagem: Fabrício Passos – Pinterest

“Morena, moreninha, mestiça, mulata, café com leite, marrom bombom”. O colorismo ou a pigmentocracia é um termo utilizado para designar a relação de poder definida pela cor da pele, ao passo que, nos exemplos de expressões citadas, a pele negra seria vista como sendo mais clara (ou menos retinta) e os traços negros seriam menos marcantes.

Essa política de embranquecimento populacional ocorre no Brasil, desde o século XIX, mas só fez a mim e a outras centenas de mulheres entrarem em processo de autoquestionamento ao percebermos como esse fato evoluiu ao longo do tempo. Questão essa que afeta nosso cotidiano e a nossa percepção em relação a nós mesmas e à sociedade que nos rodeia, identificando-nos como as “meninas que nasceram sem cor”.


A miscigenação brasileira nunca foi vista como algo bom, quase dois séculos atrás, o Brasil importava imigrantes para embranquecer a população baseando-se no famoso “Darwinismo Social” e na teoria de que o país era uma mistura que precisava ser homogeneizada numa verdadeira e digna raça, que nada mais era do que um sinônimo pra uma raça de pele branca.

Já, na atualidade, as pesquisas de autodeclaração étnicas feitas pelo IBGE, por todo o país, mostram como o termo “pardo” se tornou, de certa forma, legítimo. O pardo foi inserido na sociedade como sendo o indivíduo que não possuiria a pele branca, mas também não apresentaria a pele negra, seria um meio termo entre as duas etnias. Porém, de acordo com o próprio IBGE (e muitas outras instituições) pardo representa uma cor e não uma etnia, assim como as designações amarelo e vermelho. Preto e pardo seriam cores que estariam dentro da classificação de raça/etnia negra, então porque o termo foi criado? Por que as pessoas, independentemente dos seus tons de pele, não se consideram prontamente negras? O Brasil se embranqueceu ao ponto de que, no imaginário social, as pessoas realmente passaram a acreditar que, ao se classificarem como pardas, elas não seriam consideradas negras e não sofreriam racismo.

O problema entre tons de pele negras claras e negras escuras é que sempre haverá um limite, mas como estabelecer uma bolha quando o assunto é a cor da pele? É impossível classificar centenas de tons de pele, tanto branca quanto negra, mas, quando se trata de autodeclaração, a influência do racismo é inegável, bem como a influência de heranças familiares.


Os meus traços nunca foram muito marcados e ainda falta melanina para minha pele ser considerada retinta, mas eu nunca ignorei as características cafuzas do herdadas do meu pai e, se nos diferenciamos através do outro, não se torna difícil para mim e para muitas outras pessoas perceber que não somos brancas. Ainda assim, o sentimento de não pertencimento à comunidade negra também prevalece junto com a pergunta que sempre me assombrou “será que eu mereço ser negra?”. E, embora eu também sempre tenha escutado que “pardo é cor de papel”, mesmo não acreditando no termo por ter consciência do seu verdadeiro significado, ele ainda me soa como a melhor opção.