Geraldo José dos Santos: O professor de São João del-Rei
Por Geovane Carvalho

10 horas da manhã. A chamada que a cidade conhecia, a voz retumbante, dessas que têm um toque que rasga, ao mesmo tempo que não deixa passar despercebida. A voz do rádio. Voltando um pouco antes… 09h50. A correria e o desespero pra colocar no ar o programa que muita gente espera. Desço as escadas correndo e faço a mesma pergunta de sempre na recepção: chegou? Não. Não por motivos de descaso com o compromisso, é que tinha alguma história sendo contada nas ruas por alguém que o abordou. Mas vale a pena.
Vale o atraso, pois ao chegar, todos se alegram, ainda que o desespero ronde o ambiente. O Amado estava lá segurando a audiência com o que dava… comerciais, anúncios de contratantes, a vinheta inesquecível. Mas tudo dava certo. Valia o atraso, afinal de contas. Aliás, minutos não faziam diferença pelo tamanho daquele jornal. Duração que poucos sustentariam como ele sustentava, faltando ou não assunto.
O tempo é uma coisa que não sei se ele percebeu da forma que olho agora. Mas acredito que sim, ele tinha um olhar manso, alegre, mas que não escapava nada. Ele viu muita gente passando ali e em outros lugares, que aprenderam e sorriam com ele. Era impossível não sorrir ao seu lado. Ele não tinha pretensão nenhuma, era daquelas pessoas que não sabemos se têm a dimensão de sua imensidão, mesmo quando alertadas.
Ele resolvia tudo com um telefonema. Suas demandas eram solicitadas carinhosamente com um papel rasgado de uma folha e rabiscado. Isso depois de muita conversa, sem ir direto ao ponto. Ele não ia direto ao ponto, pois sabia que o meio do caminho, a prosa, era o que fazia dar certo. Mal seguia uma pauta de entrevista. Na maioria das vezes perguntava o que sentia, e o que sentia era aquilo que queríamos saber e não tínhamos ideia.
No fim, não é fim, pois memórias não morrem, muito menos trajetórias. Mas no meu último momento próximo a ele, ouvimos de seu filho que ele está em cada um de nós. Do povo são-joanense, da família, dos amigos, dos ouvintes de todos os cantos, daqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo, da Rádio São João del-Rei. Um comunicador nato, que era referência na faculdade. Faculdade em que ele nunca deu aula, mas que ensinou tanto quanto os professores. Pois o que Geraldinho ensinava era a ouvir, conversar, sorrir, ser amigo…
Eu brincava sempre falando que ele era minha segunda figura paterna, dadas as semelhanças com meu pai. Mas principalmente pela preocupação e afeto que sentia vindo dele. Me despedir do trabalho foi doloroso, lembro ainda as palavras que ele me falou na sua salinha, a salinha do Geraldinho. Me despedir agora, apesar da dor, foi algo bonito, por ter a certeza de que tudo que ele plantou de amizade retornou em forma de homenagem, lágrimas e sorrisos lembrando das suas piadas e de como ele amava o Glorioso.
Vá em paz!
