{"id":16873,"date":"2026-11-04T18:00:00","date_gmt":"2026-11-04T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16873"},"modified":"2026-11-04T14:24:44","modified_gmt":"2026-11-04T17:24:44","slug":"o-trem-que-levava-nomes-e-devolvia-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/o-trem-que-levava-nomes-e-devolvia-silencio\/","title":{"rendered":"O trem que levava nomes e devolvia sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16874\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/image.png 1024w, https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/image-300x200.png 300w, https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/image-768x512.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Centro Hospitalar Psiqui\u00e1trico de Barbacena, Antigo Hospital Col\u00f4nia. Reprodu\u00e7\u00e3o: Folha de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trem chegava a Barbacena carregando mais do que passageiros. Em seus vag\u00f5es, vinham hist\u00f3rias interrompidas, fam\u00edlias separadas e pessoas que, muitas vezes, sequer sabiam por que estavam ali. Para quem observava de fora, era apenas mais uma composi\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria chegando \u00e0 cidade mineira. Para aqueles que desembarcavam, por\u00e9m, come\u00e7ava uma viagem sem previs\u00e3o de volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os passageiros estava gente de todo tipo. Homens, mulheres, crian\u00e7as e idosos. Alguns tinham transtornos mentais, outros eram alco\u00f3latras, epil\u00e9ticos ou simplesmente pessoas que n\u00e3o se encaixavam nos padr\u00f5es impostos pela sociedade. Havia mulheres consideradas inconvenientes pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias, mo\u00e7as que engravidaram antes do casamento e pessoas cuja \u00fanica culpa parecia ser a de existir de maneira diferente daquela que os outros julgavam aceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chegar ao Hospital Col\u00f4nia, muitos perdiam aquilo que tinham, a pr\u00f3pria identidade. Os cabelos eram raspados, as roupas retiradas e os nomes, esquecidos. A partir daquele momento, eram apenas &#8220;Pacientes&#8221;. N\u00e3o importava quem tinham sido antes, quais sonhos carregavam ou quem os esperava do lado de fora. O passado parecia n\u00e3o ter import\u00e2ncia dentro daquele hospital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das hist\u00f3rias recuperadas pela jornalista Daniela Arbex, no livro Holocausto Brasileiro, \u00e9 a de Maria de Jesus, uma jovem de apenas 23 anos internada no Col\u00f4nia por apresentar um sintoma descrito como tristeza. \u00c9 dif\u00edcil imaginar que um sentimento t\u00e3o humano pudesse servir de justificativa para retirar algu\u00e9m do conv\u00edvio social. Maria n\u00e3o precisava de uma senten\u00e7a, precisava de ajuda e acolhimento. Mas encontrou um sistema que transformava sofrimento em condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, do lado de fora, Barbacena seguia sua rotina. As pessoas trabalhavam, as crian\u00e7as brincavam nas ruas e os dias passavam normalmente. O hospital continuava recebendo pacientes, e os gritos que atravessavam seus corredores pareciam n\u00e3o ultrapassar seus muros. A cidade convivia com a institui\u00e7\u00e3o, mas a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia permanecia escondida atr\u00e1s de seus port\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro do Col\u00f4nia, a realidade era outra. Fome, frio, viol\u00eancia e abandono faziam parte do cotidiano. Pessoas dormiam no ch\u00e3o, disputavam comida e enfrentavam condi\u00e7\u00f5es desumanas. Muitos morreram sem que suas fam\u00edlias sequer soubessem de seu destino. Estima-se que aproximadamente 60 mil pessoas tenham perdido a vida no hospital ao longo de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais assustador nessa hist\u00f3ria talvez n\u00e3o seja apenas a crueldade praticada dentro do hospital, mas a quantidade de pessoas que permitiram que ela acontecesse. N\u00e3o foi uma trag\u00e9dia constru\u00edda em um \u00fanico dia, tampouco escondida de todos. Foi um sofrimento prolongado, sustentado pela neglig\u00eancia do poder p\u00fablico, pela viol\u00eancia institucional e pelo sil\u00eancio de uma sociedade que preferiu n\u00e3o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, quando se fala sobre o Hospital Col\u00f4nia, os muros j\u00e1 n\u00e3o conseguem esconder aquilo que aconteceu. O trabalho de Daniela Arbex devolveu nomes e hist\u00f3rias a pessoas que foram reduzidas a n\u00fameros, mostrando que por tr\u00e1s de cada interno existia uma vida que merecia respeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a maior li\u00e7\u00e3o deixada por Barbacena seja tamb\u00e9m a mais simples: a loucura n\u00e3o estava necessariamente naqueles que foram colocados atr\u00e1s das grades, mas em uma sociedade que acreditou ter o direito de decidir quem merecia viver em liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais que o trem j\u00e1 n\u00e3o chegue carregando novos passageiros para aquele destino, suas hist\u00f3rias continuam desembarcando no presente. Afinal, esquecer Barbacena seria permitir que o sil\u00eancio vencesse mais uma vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trem chegava a Barbacena carregando mais do que passageiros. 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