Por Deogracia Goleng, Judit Amaral, João Victor Coimbra, Maria Eduarda Rodrigues e Letícia Campos

O que acontece com o lixo depois que ele é retirado da porta de casa? Em Coronel Xavier Chaves, os resíduos, após serem recolhidos no município, seguem para a Usina de Triagem e Compostagem, onde passam por diferentes processos. Mas, para que isso funcione, o trabalho precisa começar antes mesmo de o caminhão chegar à usina.

Segundo o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico, Túlio Otávio de Araújo Lima Neto, a gestão dos resíduos envolve uma estrutura organizada pelo município, mas também depende da participação da população. Um dos problemas identificados é o descarte de materiais em dias incorretos e a falta de separação dentro das residências. Os materiais recicláveis devem ser encaminhados para a coleta às quartas-feiras. Já às segundas e sextas-feiras são recolhidos rejeitos e resíduos orgânicos.

Para a coordenadora de Meio Ambiente e Serviço de Triagem e Compostagem de Resíduos, Catiúcia Luciana de Castro, quando os materiais são colocados fora do dia previsto e/ou de maneira incorreta, a qualidade dos recicláveis fica comprometida e um material que poderia continuar na cadeia para ser reciclado se torna rejeito e deve ser enviado para o aterro. A situação também demonstra que a responsabilidade pela gestão do lixo não está concentrada em apenas uma etapa. Enquanto o poder público precisa garantir coleta, estrutura e funcionamento do serviço, os moradores têm participação direta ao separar e descartar corretamente os resíduos.

Da coleta à triagem

Depois que os resíduos chegam à usina, começa uma das principais etapas do processo: a triagem. É nesse momento que os trabalhadores identificam os diferentes materiais e definem para onde cada um deve seguir.

Atualmente, a unidade conta com dez funcionários, que trabalham com revezamento de funções a cada semana. De acordo com Catiúcia, os materiais recicláveis dentro da usina são segregados em 17 categorias. Papel fino, papelão, vidro, PET e outros tipos de plástico são separados de acordo com suas características e possibilidades de reaproveitamento.

A separação pode influenciar diretamente no valor de comercialização, uma vez que cada material possui um valor agregado diferente.

Depois que os recipientes ficam cheios, os materiais são prensados, pesados e registrados diariamente em uma planilha. O papelão está entre os materiais mais pesados e pode chegar a aproximadamente 80 quilos em um fardo.

O processo também permite identificar os rejeitos, ou seja, aqueles materiais que não podem ser aproveitados na reciclagem ou na compostagem realizadas pela unidade.

Após a separação e preparação, os recicláveis são comercializados por meio de leilões. Segundo os entrevistados, a venda ocorre aproximadamente a cada três meses. Para estabelecer os valores, é realizada uma média com base nos preços de mercado. O recurso obtido com a comercialização retorna para o caixa da Prefeitura.

Para Túlio Otávio, a comercialização dos materiais faz parte de uma gestão que busca dar aproveitamento econômico aos resíduos que podem retornar à cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que reduz o volume de materiais destinados como rejeitos.

Usina de triagem e compostagem: momento da separação do lixo feita pelos trabalhadores. Foto: Deogracia Goleng, 2026.

Quando o lixo vira composto

Nem tudo que chega à usina tem como destino a reciclagem. Os resíduos orgânicos seguem um caminho diferente.

Na unidade, esse material passa pela esteira até chegar à área de compostagem. A partir daí, começa um processo de decomposição acompanhado pelos funcionários. O tempo necessário para a decomposição completa varia de acordo com as condições do ambiente, principalmente com o período de chuvas.

Durante o processo, o chorume produzido é direcionado para uma canaleta existente no pátio. Depois da decomposição, o material passa por peneiragens sucessivas, ficando cada vez mais fino até chegar ao composto utilizado para jardinagem.

Segundo Catiúcia, o composto pode ser doado, mas existe uma restrição em relação ao seu uso. Por questões de contaminação, o material não deve ser utilizado em hortaliças ou frutas, sendo destinado à jardinagem.

A procura dos moradores pelo composto ainda é pequena. De acordo com a coordenadora, quem mais demonstra interesse são visitantes que conhecem o processo realizado na usina.

A compostagem também pode começar dentro de casa. Para os resíduos orgânicos produzidos pelos moradores, existem alternativas como a compostagem doméstica ou o aproveitamento direto no solo, quando houver condições adequadas. Quando o material for encaminhado para a coleta municipal, é importante que esteja corretamente acondicionado e separado dos recicláveis.

A separação é fundamental porque um resíduo orgânico misturado a materiais recicláveis pode comprometer o aproveitamento de outros materiais.

Resíduos orgânicos transformados em composto. Foto: Deogracia Goleng, 2026

Trabalho, segurança e educação ambiental

Por trás de todo esse processo estão os dez trabalhadores responsáveis pelas diferentes etapas da usina. Segundo Catiúcia, os funcionários são servidores concursados, em sua maioria ocupantes do cargo de operário I. A jornada é de 44 horas semanais. Os trabalhadores registram o ponto às 7 horas na Prefeitura e seguem para a usina em transporte disponibilizado pelo município. Ao final do expediente, existe um período destinado à organização do espaço, à higienização e ao banho.

A segurança também ocupa um espaço importante na rotina. A Prefeitura disponibiliza equipamentos de proteção individual específicos para as atividades realizadas na unidade, como máscaras, botas, luvas, uniformes, aventais, protetor solar, perneiras e aventais de couro.

Os trabalhadores também trocam de roupa na própria usina, como forma de evitar a contaminação de outros ambientes. Catiúcia destaca ainda o acompanhamento da vacinação dos funcionários e ações realizadas em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

Mas a usina não funciona apenas como espaço de processamento de resíduos. Ela também possui uma função educativa.

O local recebe visitas durante todo o ano, com prévio agendamento. Essas visitas são escolares e dos gestores de municípios vizinhos. A usina é muito procurada pelos municípios vizinhos, que buscam conhecer os processos e como é realizada essa gestão dentro daquele local. A usina conta com uma área verde para que os alunos possam lanchar e se divertir.

Segundo os entrevistados, existe ainda um programa destinado a estudantes do oitavo ano. Em outubro, é realizado um processo seletivo em que são selecionados quatro bolsistas para atuarem no ano seguinte: dois participam durante o primeiro semestre e dois durante o segundo. Os estudantes recebem uma bolsa equivalente a meio salário mínimo vigente, de acordo com o programa e sua disponibilidade de horário escolar. Além de desenvolver propostas relacionadas às demandas da Secretaria, os alunos também podem apresentar suas próprias ideias.

Estrutura e desafios

A gestão dos resíduos também envolve estruturas que vão além da triagem e da compostagem. Um exemplo é a estufa construída para a produção de mudas. A ideia era utilizar as plantas em espaços públicos, reduzir despesas da Prefeitura e possibilitar doações.

Atualmente, porém, a estrutura está parada devido a problemas relacionados ao fornecimento de água.

Para Túlio Otávio, a gestão ambiental exige planejamento contínuo e integração entre diferentes setores da administração municipal. Já para Catiúcia, os desafios aparecem diariamente na própria rotina da usina e no gerenciamento do resíduo, além da gestão de pessoas.

O cenário mostra que o caminho do lixo envolve uma cadeia que começa na residência, passa pela coleta e chega à usina, onde cada material recebe um destino diferente.

Recicláveis são separados, prensados, pesados e comercializados. Os resíduos orgânicos seguem para a compostagem. Os rejeitos são separados e encaminhados para sua destinação.

No entanto, o funcionamento dessa cadeia depende de duas pontas: da estrutura oferecida pelo poder público e da participação da população.

A usina pode separar, prensar, compostar e encaminhar os resíduos. Mas a primeira escolha acontece antes de tudo isso: no momento em que o morador decide o que fazer com aquilo que já não utiliza.

Assim, o caminho do lixo em Coronel Xavier Chaves revela que a reciclagem não começa na usina. Ela começa dentro de casa.