{"id":16565,"date":"2026-09-09T18:00:00","date_gmt":"2026-09-09T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16565"},"modified":"2026-09-14T09:45:14","modified_gmt":"2026-09-14T12:45:14","slug":"aparentemente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/aparentemente\/","title":{"rendered":"APARENTE(MENTE)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Vitor Romeiro<\/p>\n\n\n\n<p data-wp-context---core-fit-text=\"core\/fit-text::{&quot;fontSize&quot;:&quot;&quot;}\" data-wp-init---core-fit-text=\"core\/fit-text::callbacks.init\" data-wp-interactive data-wp-style--font-size=\"core\/fit-text::context.fontSize\" class=\"has-fit-text\"><strong>ATEN\u00c7\u00c3O:<\/strong> A cr\u00f4nica aborda conte\u00fados sens\u00edveis relacionados a sa\u00fade mental e suic\u00eddio. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16567\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9-1024x576.png 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9-300x169.png 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9-768x432.png 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9.png 1032w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Reprodu\u00e7\u00e3o: Unplash \/ Banco de imagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Lembro-me da primeira vez em que L\u00e9o chegou ao meu consult\u00f3rio. Ele era um menino aparentemente saud\u00e1vel. Ele comia bem, jogava futebol, sa\u00eda sempre com os amigos, estava sempre sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aparentemente, estava tudo bem. Aparente(mente). \u00c9 uma palavra estranha, porque termina com \u201cmente\u201d. Nesse caso, o que estava aparente era uma mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cAparentemente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com um paciente, o sentido inteiro da frase mudou. No primeiro dia em que ele se sentou na minha frente, tivemos uma conversa que eu achei ser produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Como eu posso te ajudar, L\u00e9o?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele estava ofegante ainda, tinha acabado de sair de uma partida de futebol e tinha vindo correndo at\u00e9 a consulta.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Tem sigilo m\u00e9dico? \u2013 Ele me perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Existe, sim, o sigilo entre m\u00e9dico e paciente. \u2013 Eu respondi, com calma. \u2013 Mas voc\u00ea tem dezesseis anos, L\u00e9o. Uma rede de apoio \u00e9 interessante.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquele segundo, eu me lembro de ter visto um peso saindo das costas de L\u00e9o. Ele desajeitou a postura, tirou o sorriso do rosto e desabou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; N\u00e3o estou aguentando mais, doutor. Dentro de mim tem uma ang\u00fastia muito grande. Me sufoca a garganta, pesa meu peito. Parece que estou infartando.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Vem acompanhado de tristeza ou de desespero?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Dos dois. \u2013 Ele respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conversa seguiu por mais de uma hora. Era um quadro de depress\u00e3o e ansiedade, mas as duas estavam muito fortes.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Escute, L\u00e9o. Voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer isso sozinho. Eu te prescrevi essas medica\u00e7\u00f5es e te encaminhei para a terapia. Mas eu gostaria que voc\u00ea viesse na pr\u00f3xima consulta com algu\u00e9m de confian\u00e7a. N\u00e3o precisa entrar com a pessoa, mas ter uma rede de apoio \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E ele concordou. Pegou a receita, pegou o encaminhamento para o psic\u00f3logo e apertou minha m\u00e3o. Inicialmente, eu pensei que ele tinha enfrentado o pior desafio de todos: iniciar o tratamento, buscar ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas ele s\u00f3 fez meio caminho. Ele buscou ajuda, mas n\u00e3o come\u00e7ou o tratamento. Eu me lembro do que ele me disse na consulta at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <em>\u201cAs pessoas falam que psiquiatra \u00e9 coisa de gente doida, por isso eu n\u00e3o vim antes.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEu vejo na internet que os rem\u00e9dios viciam.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cVejo v\u00e1rias postagens falando que \u00e9 falta de Deus, falta de f\u00e9.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquele atendimento, eu desmitifiquei cada uma das frases que ele me trouxe. Disse que psiquiatra n\u00e3o \u00e9 coisa de gente doida, e que depress\u00e3o e ansiedade afetam muitos jovens, e que existe tratamento. Eu expliquei que os rem\u00e9dios n\u00e3o viciam se tomados corretamente, com a minha orienta\u00e7\u00e3o e que, na hora certa, far\u00edamos o desmame. E eu disse que depress\u00e3o e ansiedade n\u00e3o s\u00e3o falta de f\u00e9, mas um conjunto de fatores que muitas vezes fogem do controle humano.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele me escutou com aten\u00e7\u00e3o. Mas \u00e0s vezes, quando uma ideia j\u00e1 est\u00e1 enraizada no c\u00e9rebro, \u00e9 dif\u00edcil deixar ela de lado. Muitos n\u00e3o procuram ajuda pelo tanto de mentiras que escutaram.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; L\u00e9o chegou a dar o primeiro passo. Ele veio at\u00e9 mim. Mas n\u00e3o aderiu ao tratamento. Eu conversei com sua m\u00e3e depois do fat\u00eddico dia. Ela me contou que nunca tinha percebido nenhum sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estava morrendo de culpa. Eu disse que ela n\u00e3o tinha culpa do que aconteceu. Realmente, n\u00e3o tinha. Infelizmente, a sociedade n\u00e3o est\u00e1 preparada para reconhecer os sinais escondidos, quando eles existem. \u00c9 uma coisa que precisa ser modificada.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela me contou que ele continuava rindo. Ele n\u00e3o contou para ningu\u00e9m que tinha vindo ao meu consult\u00f3rio e que precisava de medica\u00e7\u00e3o e terapia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mais uma vez, foi s\u00f3 a apar\u00eancia do tratamento. Ele n\u00e3o seguiu. Esse \u00e9 o grande problema das apar\u00eancias. Elas raramente mostram a ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma pessoa pode aparentar estar \u00f3tima, muito bem. E, por dentro, pode n\u00e3o saber o que fazer com a ang\u00fastia, com a tristeza e com o desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A m\u00e3e de L\u00e9o me contou que depois que tudo aconteceu, ela percebeu os sinais. Mais tempo trancado no quarto, n\u00e3o sa\u00eda mais com os amigos. Nem o futebol ele frequentava.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela me disse que achou que eram coisas normais de um adolescente de dezesseis anos. Que eram os horm\u00f4nios ou aquela fase da puberdade que a maioria se isola.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas era L\u00e9o parando de se importar com a vida. E a sociedade n\u00e3o est\u00e1 preparada para perceber esses sinais que muitas vezes s\u00e3o t\u00e3o discretos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu percebo. Mas eu sou psiquiatra, estou preparado para lidar com a sa\u00fade mental. Ent\u00e3o eu entendo como isso pode passar despercebido aos olhos dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A sociedade seria muito mais segura se todos soubessem identificar os sinais mais perigosos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porque, em um dia afastado no seu quarto, a depress\u00e3o se tornou insuport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E L\u00e9o era um menino muito forte. Absurdamente forte. O fato de ter buscado ajuda, sozinho, sem contar a ningu\u00e9m prova isso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas a depress\u00e3o, infelizmente, tamb\u00e9m \u00e9 forte.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E \u00e0s vezes a porrada dela \u00e9 muito forte. Ainda mais quando se tem a ansiedade segurando.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E dentro do quarto, as duas atingiram um pico que L\u00e9o n\u00e3o suportou. N\u00e3o porque ele era fraco. Mas porque a depress\u00e3o conhece as fraquezas de cada pessoa. A ansiedade sabe o local que deve atingir.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando seus pais o encontraram, n\u00e3o tinha mais o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tudo porque, aparentemente, estava tudo normal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8221;\u00a0 Aparentemente, estava tudo bem. Aparente(mente). \u00c9 uma palavra estranha, porque termina com \u201cmente\u201d. Nesse caso, o que estava aparente era uma mentira. 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