{"id":16550,"date":"2026-08-26T13:14:01","date_gmt":"2026-08-26T16:14:01","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16550"},"modified":"2026-09-14T09:46:30","modified_gmt":"2026-09-14T12:46:30","slug":"por-onde-andam-os-ipes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/por-onde-andam-os-ipes\/","title":{"rendered":"Por onde andam os Ip\u00eas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Vincent Otoni&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"424\" src=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16551\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-5.png 640w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-5-300x199.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem\/Reprodu\u00e7\u00e3o: O globo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Alguns dias atr\u00e1s me deparei com um ip\u00ea na rodovi\u00e1ria, um dos primeiros que eu vi florescer nessa esta\u00e7\u00e3o, um dos primeiros que notei tamb\u00e9m desde que cheguei a cidade e a inspira\u00e7\u00e3o para essa breve cr\u00f4nica. Temos um pacto silencioso de deixar ele me avisar todos os anos que o tempo est\u00e1 passando, mas eu tenho todo o direito de apreciar enquanto passa. Esse que vinha com a bandeira de boas vindas do inverno era rosa, espalhava um pouco mais de cor pelo ch\u00e3o por onde as malas dos que iam e vinham chegavam. Penso no significado de um lugar de tantas passagens em contraste com a passagem do tempo, parece fazer sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dali todos os outros come\u00e7aram a me chamar mais aten\u00e7\u00e3o, como uma brincadeira de procurar e achar esses <em>easter eggs<\/em> naturais. Mais tarde vi mais um, dessa vez de dentro de um desses \u00f4nibus que sa\u00eda da rodovi\u00e1ria tamb\u00e9m. Enquanto eu passava por Santa Cruz, observava as flores coloridas de amarelo caindo em cima de um casal, pareciam estar perto dos 70 anos, com rugas que provavelmente contavam hist\u00f3rias que eu n\u00e3o conhecia, mas pelo sorriso da senhora enquanto o homem falava alguma coisa, quase quis conhecer. Percebo um sorriso contrariado cortando sua express\u00e3o rabugenta um pouco antes do \u00f4nibus fazer a curva, me pergunto o que ela poderia estar falando com ele. Reflita sobre como os ip\u00eas costumam fazer o contr\u00e1rio da maioria das \u00e1rvores e utilizam do inverno para florescer, para se espalhar e continuar o ciclo de outros pontos de cor pela cidade das pontes.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima vez foi espa\u00e7ada, alguns dias depois do meu encontro indireto com os senhores, um esbarr\u00e3o no centro com alguns amigos, que me perguntavam um pouco sobre a rotina, o namoro, a faculdade. Me vi parando em meio a correria do dia atarefado, para falar e escutar um pouco, saber de quem me importa no final do dia. Esqueci do hor\u00e1rio de chegada para a volta do trabalho, mas faria de novo pelos 15 minutos papeando sobre um pouco de tudo ali na rua, embaixo de um ip\u00ea rosa, no meio das andan\u00e7as de tantas outras pessoas que, como eu, estavam s\u00f3 vivendo 15 minutos diferentes da tarde de suas pr\u00f3prias quartas feiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por um tempo me vi procurando por a\u00ed, por mais lembretes do in\u00edcio do inverno, do meio do segundo semestre. Encontrei mais um por acaso, da cor mais linda que h\u00e1, com as flores em lil\u00e1s caindo em cima do gramado perto da cachoeira, que pelo dia de clima mais ameno, se encontrava praticamente vazia. Tinha aproveitado uma folga para deixar uma vela perto do local, e ali, depois de pensar um pouco nas mudan\u00e7as lentas dos \u00faltimos anos, me deixei levar em uma retrospectiva leve, lembrando-me das outras vezes que me refugiei naquele ambiente pelo mesmo motivo. Vejo crian\u00e7as correndo atr\u00e1s de uma pipa novamente na cidade do artesanato, uma usando o ombro do outra como escada para alcan\u00e7ar um papagaio, ou uma pipa azul, nunca soube bem a diferen\u00e7a. Acho engra\u00e7ado a risada do garoto de cima, quando alcan\u00e7a o objetivo. Vendo a pe\u00e7a com algumas folhas remanescentes e algumas p\u00e9talas cor de rosa que mostravam um contraste bonito com o azul do material.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca pensei que me atentar a detalhes t\u00e3o discretos na cidade, como a mudan\u00e7a aos poucos das roupas de esta\u00e7\u00e3o na vitrine, a diferen\u00e7a dos copos de bebida nos bares que antes viam s\u00f3 cerveja e agora levam mais vinhos, ou como o ambulante que algumas semanas atr\u00e1s vendia protetor solar e agora vende luvas e hidratante labial. Acredito que a delicadeza nesse olhar venha do tempo, e agora, eu passo a fazer parte desse ecossistema que antes, era s\u00f3 um ponto de visita. Vejo um aviso de uma festa julina, que aparentemente n\u00e3o teve tempo h\u00e1bil para ocorrer em junho, penso na primeira vez que fui em uma quermesse, aqui. Achando incr\u00edvel a capacidade da comunidade da cidade de se juntar t\u00e3o r\u00e1pido. Me cerco com compara\u00e7\u00f5es de primeiras e \u00faltimas vezes, e com a percep\u00e7\u00e3o de que isso pode existir como pensamento na cabe\u00e7a de muitas outras pessoas, ou simplesmente ser relevante apenas para mim. Mas termino de escrever vendo um ip\u00ea amarelo mais solit\u00e1rio no campus da faculdade, vejo as \u00faltimas flores que em breve n\u00e3o estariam mais aqui, pensando em como daqui a pouco as esta\u00e7\u00f5es j\u00e1 ser\u00e3o outras e o meu olhar, o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00f4nica usa os ip\u00eas de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei como s\u00edmbolo da passagem do tempo, refletindo sobre encontros, mem\u00f3rias e as pequenas mudan\u00e7as que transformam uma cidade em um lugar de pertencimento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16551,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-16550","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16550"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16552,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16550\/revisions\/16552"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16551"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}