{"id":16486,"date":"2026-08-14T18:00:00","date_gmt":"2026-08-14T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16486"},"modified":"2026-07-15T09:02:53","modified_gmt":"2026-07-15T12:02:53","slug":"memorias-soterradas-a-escravidao-esquecida-em-sao-joao-del-rei","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/memorias-soterradas-a-escravidao-esquecida-em-sao-joao-del-rei\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias soterradas: a escravid\u00e3o esquecida em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Alessandra Silva, Larissa Lacerda e Tha\u00eds Abreu<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16487\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1024x682.jpeg 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-300x200.jpeg 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-768x511.jpeg 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1536x1022.jpeg 1536w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-900x600.jpeg 900w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Igreja do Carmo em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. Foto: Alessandra Silva<br><br>A preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei contrasta com o sil\u00eancio em torno de um dos pilares de sua forma\u00e7\u00e3o: a escravid\u00e3o. Em meio a igrejas barrocas e casar\u00f5es coloniais, a cidade mineira evidencia um passado seletivamente contado, onde a heran\u00e7a escravocrata permanece pouco vis\u00edvel para moradores e visitantes.<br>O Brasil foi o maior territ\u00f3rio escravista do Ocidente e o \u00faltimo a abolir a escravid\u00e3o, deixando como heran\u00e7a desigualdades sociais que ainda estruturam o pa\u00eds. Em cidades hist\u00f3ricas, esse legado tamb\u00e9m se manifesta no espa\u00e7o urbano, embora nem sempre seja reconhecido de forma expl\u00edcita.<br>A arquitetura colonial, frequentemente valorizada pelo turismo, \u00e9 resultado direto do trabalho de pessoas escravizadas. Igrejas, pr\u00e9dios administrativos e casar\u00f5es foram erguidos a partir da explora\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3o de obra, refletindo uma organiza\u00e7\u00e3o social desigual, em que a elite ocupava \u00e1reas centrais e elevadas, enquanto a popula\u00e7\u00e3o negra era marginalizada. Samuel Fonseca, mestrando em arquitetura e pesquisador da hist\u00f3ria urbana de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, aponta que essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel. &#8220;\u00c9 indissoci\u00e1vel a forma\u00e7\u00e3o da estrutura urbana do passado escravocrata. Por ser a sede da comarca do Rio das Mortes, S\u00e3o Jo\u00e3o era um grande centro de com\u00e9rcio, com uma vida urbana muito ativa, e todas as atividades econ\u00f4micas das Minas Gerais eram baseadas na m\u00e3o de obra escrava&#8221;, explica.<br>Fonseca destaca ainda que a forma como a escravid\u00e3o se organizava na cidade era diferente do modelo das grandes fazendas. &#8220;Esta m\u00e3o de obra estava organizada em pequenas escravarias de trabalhadores urbanos que muitas vezes viviam junto com seus senhores. Os homens podiam ser sapateiros ou cirurgi\u00f5es-barbeiros, e as mulheres normalmente vendiam quitandas.&#8221; Por isso, ao contr\u00e1rio do que se v\u00ea em regi\u00f5es de planta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 senzalas no centro hist\u00f3rico, o que n\u00e3o significa aus\u00eancia de escravid\u00e3o, mas uma forma distinta e mais difusa de explora\u00e7\u00e3o.<br>Apesar disso, essa dimens\u00e3o da hist\u00f3ria raramente \u00e9 evidenciada no cotidiano da cidade. A turista Mariana Lopes, de Belo Horizonte, percebe essa lacuna ao visitar o munic\u00edpio. &#8220;O foco parece ser mais na parte religiosa e na arquitetura. N\u00e3o vi muita coisa aprofundando outros aspectos da hist\u00f3ria, \u00e9 meio uma vers\u00e3o mais &#8216;bonita&#8217; mesmo&#8221;, relata.<br>A percep\u00e7\u00e3o se repete entre moradores. Ana Paula Souza, que vive na cidade desde o nascimento, avalia que h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o seletiva do passado. &#8220;Algumas coisas s\u00e3o bem valorizadas, como as igrejas e as tradi\u00e7\u00f5es, mas outras partes ficam meio de lado&#8221;, afirma. Para ela, o passado escravocrata n\u00e3o \u00e9 facilmente identific\u00e1vel no espa\u00e7o urbano: &#8220;Voc\u00ea at\u00e9 imagina, por ser tudo antigo, mas n\u00e3o \u00e9 algo evidente.&#8221;<br>Esse apagamento n\u00e3o significa necessariamente aus\u00eancia, mas falta de media\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Sem sinaliza\u00e7\u00f5es, roteiros educativos ou iniciativas que abordem diretamente a escravid\u00e3o, o visitante depende do que \u00e9 vis\u00edvel. E o que se v\u00ea, em geral, privilegia uma est\u00e9tica que n\u00e3o problematiza sua origem. Para Samuel Fonseca, parte do trabalho do historiador \u00e9 justamente enxergar essas lacunas. &#8220;Um dos trabalhos do historiador \u00e9 tamb\u00e9m enxergar os apagamentos, as aus\u00eancias. Talvez a falta de constru\u00e7\u00f5es pobres no centro hist\u00f3rico seja sinal da exclus\u00e3o dessas popula\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria oficial da cidade, ou de um higienismo hist\u00f3rico-urbano.<br>O pesquisador tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para o quanto a riqueza da cidade esteve diretamente ligada ao trabalho compuls\u00f3rio. &#8220;A base da economia de Minas Gerais, e do Brasil como um todo, era a m\u00e3o de obra escravizada. As pr\u00e1ticas locais de agropecu\u00e1ria, e at\u00e9 a ferrovia e manufaturas dependiam da explora\u00e7\u00e3o dessa for\u00e7a de trabalho. Mesmo ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o, o capital que manteve a economia e as atividades urbanas do Brasil era advindo da escravid\u00e3o&#8221;, afirma.<br>O escritor e jornalista Laurentino Gomes aponta que o racismo brasileiro se sustenta, em grande parte, de forma silenciosa, naturalizando desigualdades herdadas da escravid\u00e3o. Nesse sentido, a aus\u00eancia de narrativas sobre esse passado contribui para sua continuidade simb\u00f3lica. Fonseca complementa, destacando que a historiografia tradicional agravou esse apagamento ao tratar os negros como sujeitos passivos. &#8220;De modo geral, a historiografia at\u00e9 recentemente apontava os negros como sujeitos passivos da escravid\u00e3o, que eram submetidos e aculturados, e n\u00e3o tinham deixado nenhuma marca na cultura do Brasil&#8221;, aponta. Esse quadro, segundo ele, come\u00e7a a mudar, mas lentamente. Iniciativas como a cataloga\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de mem\u00f3ria negra em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei representam avan\u00e7os, embora ainda care\u00e7am de pol\u00edticas p\u00fablicas, em parte devido \u00e0s diretrizes do IPHAN, que, na avalia\u00e7\u00e3o do pesquisador, &#8220;privilegiam a excepcionalidade em detrimento de significados locais.&#8221;<br>Para mudar esse cen\u00e1rio, tanto moradores quanto visitantes destacam a import\u00e2ncia de ampliar o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. A inclus\u00e3o de placas explicativas, visitas guiadas com enfoque hist\u00f3rico cr\u00edtico e espa\u00e7os dedicados \u00e0 mem\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o negra s\u00e3o algumas das possibilidades apontadas. Para Samuel Fonseca, reconhecer esses espa\u00e7os \u00e9 tamb\u00e9m reconhecer a ag\u00eancia hist\u00f3rica da popula\u00e7\u00e3o negra. &#8220;S\u00e3o poucos os lugares tombados que remetem \u00e0 presen\u00e7a negra, e menos ainda os que apontam a resist\u00eancia dessas pessoas e das pr\u00e1ticas culturais dos pretos e pardos. A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 sempre vista como um outro, nunca como os pr\u00f3prios agentes&#8221;, critica.<br>O desafio enfrentado pela cidade \u00e9 contar sua hist\u00f3ria de forma realista e sem romantiza\u00e7\u00e3o. Em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, reconhecer o passado escravocrata n\u00e3o implica apagar sua beleza hist\u00f3rica, mas ampli\u00e1-la, incorporando as hist\u00f3rias que, por muito tempo, permanecem soterradas.<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei vai al\u00e9m de seu patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. Em meio aos monumentos que preservam o passado da cidade, a heran\u00e7a da escravid\u00e3o ainda recebe pouca visibilidade, levantando reflex\u00f5es sobre mem\u00f3ria e identidade. Leia a mat\u00e9ria na \u00edntegra.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16487,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-16486","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16486"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16486\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16488,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16486\/revisions\/16488"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16487"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}