{"id":16414,"date":"2026-06-17T18:00:00","date_gmt":"2026-06-17T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16414"},"modified":"2026-06-17T15:31:50","modified_gmt":"2026-06-17T18:31:50","slug":"urgencia-e-emergencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/urgencia-e-emergencia\/","title":{"rendered":"URG\u00caNCIA E EMERG\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Vitor Romero<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"675\" height=\"450\" src=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-32.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16415\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-32.png 675w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-32-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pacientes no pronto-socorro do Hospital de Base do DF \u00e0 espera de atendimento<br>Foto: Paulo de Ara\u00fajo\/Divulga\u00e7\u00e3o<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Que pa\u00eds \u00e9 esse?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o respeitam a constitui\u00e7\u00e3o, e acreditam no futuro da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu descobri isso do pior jeito poss\u00edvel. Quando eu precisava de ajuda m\u00e9dica, um direito assegurado na tal constitui\u00e7\u00e3o que eles tanto falam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas campanhas pol\u00edticas, eles prometem tudo. Promessas que marcam a vida p\u00fablica de um candidato \u00e0 prefeitura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>A sa\u00fade de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei vai melhorar como nunca antes.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><\/em><em>Vamos ser reconhecidos com tamanha excel\u00eancia do nosso trabalho.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><\/em><em>Vamos zerar as filas de exames.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Palavras, apenas. Palavras pequenas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pareceram \u00e0s mil maravilhas. Pelo menos para mim. At\u00e9 que precisei usar a sa\u00fade p\u00fablica da cidade, no mandato do prefeito. Cheio de Palavras ao Vento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fui marcar um exame. O m\u00e9dico disse que era urgente, e colocou no pedido, em todas as letras. Acho que as pessoas n\u00e3o sabem o significado de <strong>urg\u00eancia.<\/strong> Marcaram meu exame para tr\u00eas meses depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu discuti com os agentes de sa\u00fade, mas o que eles poderiam fazer? A culpa n\u00e3o era deles. Eles carregam a seringa na m\u00e3o, os curativos. Quem \u00e9 realmente culpado \u00e9 quem segura a caneta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que todos perceberam que todas as promessas de campanha n\u00e3o passaram de&#8230; palavras. Afasta de n\u00f3s esse c\u00e1lice, pai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o acredito que algu\u00e9m, gozando de plena consci\u00eancia, acredite que um prazo de tr\u00eas meses, para realiza\u00e7\u00e3o de um preventivo de <strong>urg\u00eancia<\/strong> em suspeita de c\u00e2ncer do colo do \u00fatero seja aceit\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu realmente n\u00e3o acredito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esses tr\u00eas meses eu convivi com minha mente agoniada. Todos os dias ela me perguntava a mesm\u00edssima coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>E se eu estiver com c\u00e2ncer?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Bom, se esse exame vier positivo eu estou ferrada, para n\u00e3o falar uma coisa pior. Aqui, sentada na sala de espera de uma UBS em decad\u00eancia, eu afirmo: estarei morta em pouco tempo se o exame confirmar um c\u00e2ncer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se tr\u00eas meses atr\u00e1s era uma <strong>urg\u00eancia<\/strong>, meu poss\u00edvel c\u00e2ncer hoje se tornou uma <strong>emerg\u00eancia.<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que nesses tr\u00eas meses eu dormi de conchinha com um c\u00e2ncer? Quem sabe eu arrumei um companheiro de vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que nesse tempo eu deveria ter dado um nome para ele? Talvez um apelido. Deveria ter procurado padrinhos e madrinhas para batiz\u00e1-lo? Teria dado tempo at\u00e9 de registr\u00e1-lo em um cart\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Suspeita de c\u00e2ncer n\u00e3o \u00e9 suspeita de gravidez. Se um c\u00e2ncer cresce, n\u00e3o \u00e9 como um beb\u00ea, que depois de nove meses se encerra o ciclo. Depois de nove meses com um c\u00e2ncer que j\u00e1 era <strong>urg\u00eancia<\/strong> tr\u00eas meses atr\u00e1s, meu \u00fanico destino \u00e9 caix\u00e3o e vela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E velas artificiais, porque os vel\u00f3rios n\u00e3o t\u00eam coragem de acender uma vela verdadeira para o defunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Pensando na vida? \u2013 Perguntou uma senhora simp\u00e1tica, ao meu lado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Nem sei sobre o que estou pensando. \u2013 Eu respondo, com sinceridade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; J\u00e1 estamos aqui h\u00e1 quatro horas. \u2013 Ela fala, olhando o rel\u00f3gio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Desde a \u00e9poca de Elis Regina o sinal j\u00e1 estava fechado para n\u00f3s. \u2013 Eu falo, lembrando da minha m\u00fasica preferida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00f3s n\u00e3o somos nada para esse povo. \u2013 A senhora fala, olhando para o ch\u00e3o. \u2013 Se morrermos, s\u00f3 seremos mais um na contram\u00e3o, atrapalhando o tr\u00e1fego.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A profissional da sa\u00fade me chamou. Me despedi da senhora e entrei na sala. N\u00e3o sei ao certo se ela \u00e9 m\u00e9dica ou enfermeira. N\u00e3o sei quem faz o preventivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Preventivo. Que ironia. Que palha\u00e7ada. Deveriam mudar seu nome para tampa de caix\u00e3o. Porque prevenir decididamente n\u00e3o \u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu entro na sala, a mulher me atende super bem. Ela pisou forte no ch\u00e3o, e quando eu olhei, eram duas baratas que estavam andando por ali.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Desculpe. \u2013 Disse ela. \u2013 A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela aponta para outras baratas mortas, depois para a cadeira enferrujada e por \u00faltimo, para o teto j\u00e1 sem reboco por causa da infiltra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu realmente devia ter batizado um poss\u00edvel c\u00e2ncer.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela fez o exame com uma delicadeza que prova que a culpa n\u00e3o \u00e9 dos profissionais. A culpa \u00e9 de quem segura a caneta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Seu resultado sai em sessenta dias. \u2013 Ela falou, sorrindo. \u2013 Se quiser, pode ligar depois de trinta dias para ver se j\u00e1 ficou pronto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o retruquei. A situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era ruim por completo. Vesti minha roupa e sa\u00ed.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que tem uma funer\u00e1ria aqui perto. Acho que \u00e9 mais f\u00e1cil eu tentar fazer um plano funer\u00e1rio do que fazer um exame.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo menos, se o c\u00e2ncer vier, meus parentes n\u00e3o v\u00e3o ter que se preocupar em pagar meu funeral. Porque acho que pelo menos um funeral eu tenho direito.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A precariedade da sa\u00fade p\u00fablica e a longa espera por exames essenciais s\u00e3o o centro da cr\u00f4nica \u201cQue pa\u00eds \u00e9 esse?\u201d, que utiliza a narrativa de uma paciente para expor a dist\u00e2ncia entre promessas pol\u00edticas e a realidade enfrentada por quem depende do sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Entre ironias, cr\u00edticas sociais e reflex\u00f5es sobre o medo de um poss\u00edvel diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer, o texto retrata a ang\u00fastia provocada pela demora no atendimento e pelas condi\u00e7\u00f5es estruturais prec\u00e1rias encontradas em uma unidade de sa\u00fade. A obra prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre direitos b\u00e1sicos, responsabilidade p\u00fablica e os impactos humanos causados pela defici\u00eancia dos servi\u00e7os de sa\u00fade, transformando uma experi\u00eancia individual em um retrato de um problema coletivo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16415,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16414","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16414"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16414\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16416,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16414\/revisions\/16416"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16415"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}